VIDA,MINHA VIDA

 Vanir Mattos Torres

 Esprito Daniel


SUMRIO

CAPTULO 1
A dor de meu destino 
CAPTULO 2
Assim o tempo foi passando... 
CAPTULO 3
O tempo passa rpido 
CAPTULO 4
O tempo passa depressa 


CAPTULO 1
A dor de meu destino


Estava a passear pelo campo quando escutei um cavalgar que vinha em minha direo. Para meu espanto, s tive tempo de me agarrar aos arreios, e me vi sendo arrastado 
junto com o animal pela relva. Quem galopava perdera o domnio e o cavalo corria em disparada. Eu, que era musculoso, consegui com fora me equilibrar. Segurei o 
cavalo, mas no consegui faz-lo parar de empinar. Foi a que me dei conta de quem o animal conduzia: era uma bela amazona que, com seus olhos azuis, sorria para 
mim. Fiquei impressionado. Era para ver em seus olhos o terror do momento, mas ela sorria, e se desfez em agradecimentos, dizendo ser culpa sua o cavalo ter disparado 
em desabalada carreira. Fiquei a bater nas calas me limpando. Ela ria, como se tudo fosse uma brincadeira. Dei-lhe a mo para que descesse do cavalo, mas ela recusou. 
Disse estar com pressa, cansada, e, assim como apareceu, se foi sem ao menos dizer seu nome. Sentei-me na relva e fiquei a pensar: "Como fora tudo rpido! Acabou 
como num passe de mgica". Depois disso...
Uma semana se passou. Estava eu no mesmo lugar quando o som do galopar soou nos meus ouvidos. Veio em minha direo sem parar, desviei-me e tentei segurar os arreios, 
mas dessa vez me escapou. Foi ela num galopar rpido, cabelo esvoaando ao vento. Logo desapareceu. Fiquei assustado, pensando em como a situao se deu igualzinha 
 outra. Esperei mais um tempo e fui embora meio macambzio com tudo aquilo. Marquei o dia: dali a uma semana, ali estaria de novo, e foi o que aconteceu. Dessa 
vez fiquei esperto, tentando ouvir alguma coisa que pudesse ser a bela amazona. Um tempo se passou e nada aconteceu. Eu, como estava cansado, deitei sobre a relva 
e dormi. De repente, s senti saltar sobre mim uma enorme figura. Depois do susto, logo levantei. Ela j se ia  disparada, rindo e me acenando com um leno branco. 
J estava ficando preocupado com aquela situao. Um erro de clculo e estaria eu esmagado no cho. Fui embora pensando se voltaria, mas a curiosidade me levou de 
volta. Uma semana se passara e estava eu ali de novo, como se esperasse um encontro. Perto de onde sempre ficava havia uma frondosa rvore com tronco muito grosso; 
seria meu esconderijo. E ali fiquei um tempo at ver chegar  figura. Era uma linda miragem, e percebi que o trajeto que fazia era sempre o mesmo e, por coincidncia, 
igual ao meu. Passou ela em disparada, vestida exatamente como da vez anterior. No perdia no galopar seu chapu e seus cabelos esvoaando... Lindos como sempre. 
Eu era novo naquela cidadezinha, por isso no sabia de quem se tratava. Mas perguntaria aos habitantes, com certeza me dariam informaes.
Fui para aquela cidade em busca de trabalho. Havia chegado ao primeiro dia daquele acontecimento e nada tinha arranjado. Sa dali e dirigi-me at a igrejinha, o 
proco certamente me indicaria alguma coisa. Todos os habitantes deveriam conhec-la, e assim o fiz. Era uma igreja pequena, mas acolhedora como todas o so. Entrei, 
rezei um pouco e fui falar com o sacristo. Ele me disse que o padre no se encontrava, tinha ido dar uma extrema-uno, mas logo estaria de volta. Se eu quisesse, 
poderia esper-lo na sacristia. Eu perguntei ao rapazola se no conhecia a moa, e dei a descrio. Ele disse que eu no tinha observado direito: "Essa, eu no tinha 
visto, no!" Como pde ele afirmar que eu no tinha visto o que vi? E talvez fosse um pobre coitado que estivesse ali para ser ajudado e servir ao padre. No quis 
esperar, achei melhor andar e ver se conseguia alguma coisa. Minhas economias estavam acabando, e eu tinha que as repor antes que as esgotasse. E a hospedaria tinha 
de pagar em dia, seno seria despejado sem minha bagagem.
Fui ao ferreiro perguntar se no queria um ajudante. Eu entendia de ferrar os cavalos, ainda conhecia as doenas e sabia administrar alguns remdios. Fui falar com 
ele. Era um homem enorme e gentil. Disse que talvez precisasse de ajuda, mas s dali a alguns dias. Fiquei de voltar na semana seguinte, e aproveitei para perguntar 
sobre o que me afligia. Quem era aquela moa que no se desvia por nada de seu caminho. Ele me olhou espantado, como se tivesse perguntado alguma besteira. Disse 
ele que no sabia de nada e nada poderia me informar com certeza. Fiquei mais curioso, quem seria aquela figura? Se a conheciam, no queriam falar. Se no a conheciam, 
por que, ento, eles ficavam impressionados quando eu falava sobre ela? Quando cheguei  hospedaria, em vez de ir para o meu quarto, fiquei por ali perambulando. 
Fui puxando conversa e formulando a minha pergunta. A resposta era a mesma, dizia que no poderiam me dar informao certa, porque a descrio por mim dada era completamente 
errada. Eu comecei a rir. Estavam todos confusos, ou eu, com aquela viso to bonita, tinha errado nos traos que descrevia.
No dia seguinte, fui ao mesmo lugar e, dessa vez, no me escondi. Fiquei em p onde ela teria de passar. A, ouvi o galope. Ela se aproximava e, para minha falta 
de sorte, vinha em desabalada carreira. A princpio pensei em correr, mas depois pensei: "Como das outras vezes no me machuquei, correrei o risco". Quando o cavalo 
chegou perto, saltei e peguei as rdeas. Dessa vez consegui par-lo. A bela moa ria como se fosse alguma coisa engraada. No soltei as rdeas, fiquei segurando 
o cavalo. Pedi que dissesse seu nome e onde morava.
- Moro pelos campos, vivo ao sabor do vento - respondeu-me.
Voltei a perguntar:
- Qual  seu nome?
- Meu nome  Vida,  o oposto da situao - disse-me ela. 
E, dando um puxo, soltou-se e foi embora a galopar. Fiquei sem entender nada, s seu nome ficara certo na minha mente. Voltei  hospedaria. Fui logo falar com o 
dono do estabelecimento onde poderia encontrar uma moa que se chamava Vida. Ele ficou plido, e me disse mansamente:
- Deixe essa moa em paz, Vida no mais nos pertence. 
E, antes que eu perguntasse mais alguma coisa, foi se afastando em resmungos. Se no queria me falar dela, teria de perguntar a outra pessoa. Na hospedagem, havia 
um rapaz franzino que nos servia a comida, gostava de puxar uma conversa, e eu dele sempre me esquivava, mas dessa vez era diferente. Eu queria saber muitas coisas. 
Onde Vida morava? Tinha famlia formada? Ou era uma moa feliz, sem compromisso com nada, por isso andava em galopes desabalados? E assim me cheguei a ele. Fui logo 
perguntando:
- Sabes onde posso encontrar Vida? - Ele desatou a rir. Disse que a dele ele no dava, mas que eu ficasse na calada perguntando a quem passasse que talvez algum 
de alguma dispusesse. Eu era calmo, mas fiquei irritado. Disse que no tinha gostado da brincadeira. Se ele no sabia que Vida era o nome de uma bela moa que vivia 
a galopar pelos campos. Ele disse que eu estava variando, devia ter pegado muito sol na cabea. Disse que eu fosse para o quarto, que mandaria a arrumadeira me levar 
um remdio.
- Eu no tenho nada! - respondi. - Eu h pouco cheguei. J vi a moa diversas vezes. E vocs dizem que no a conhecem! 
Ele foi embora, me deixou falando sozinho. Fiquei pensando que fora uma m idia ter ido morar naquela cidadezinha. Fui para o meu quarto e, assim, recolhido, fiquei 
a pensar em Vida. Como podem dizer que no a conhecem? Que mistrio existe? Ser que o que eu vejo  miragem? Acabei dormindo. Estava muito cansado, mas tinha o 
firme propsito de, no dia seguinte, o mistrio desvendar.
Acordei cedo. Fui direto  igreja, esperei o padre acabar de rezar a missa para falar com ele. Fiquei olhando aquelas pessoas que me cumprimentavam como se j me 
conhecessem, mas, quando ia lhes perguntar de algum que era habitante do lugar, diziam que para eles no existia ou era imaginao minha. Apresentei-me ao proco 
contando minha aventura. Ele me olhou, coou a cabea e disse que iria me contar uma histria, mas teria de ser outro dia. Agora teria de dar uma extrema-uno. 
Retruquei:
- Como pode, numa cidade to pequena, morrer tanta gente em to pouco tempo! Sempre que o procuro, o senhor foi abenoar algum que est partindo.
Ele foi andando e acenando com a mo como se dissesse: "At logo, ou esquea tudo isso". Fiquei ali sentado. Quanta coisa estava acontecendo. Quando fui para aquela 
cidade, no sabia que encontraria tantas surpresas. Rezei e, quando j ia me levantar, tive de dar passagem a uma senhora. No entendi por que ela resolveu se sentar 
ao meu lado, a igreja estava praticamente vazia. 
Ela disse:
- No se v! Fique um pouco e vamos conversar.
Olhei para ela espantado. No a conhecia e acho que nem ela a mim, mas sentei-me de novo ao seu lado esperando o que teria para me dizer. Ela rezou... Rezou... No 
parava mais. Rodava o tero para todo lado. Eu estava ficando cansado. Cutuquei-lhe o brao e disse que ia embora. Ela, levando o dedo aos lbios, pediu silncio 
e tocou no meu ombro, impedindo que eu me levantasse. O silncio da igreja... Toda aquela confuso... Era to simples me dizerem quem era a moa da montaria e faziam 
tanto mistrio. Fiquei esperando, esperando, at que perdi a pacincia. Fiz o sinal da cruz e me levantei apressado, no lhe dando tempo de me impedir. Quando cheguei 
l fora, respirei fundo. Engraado, parecia que ia sufocar se de l no me retirasse. Fui andando devagar pelas ruas, uma brisa leve enxugava meu rosto, pois, quando 
sa da igreja, estava molhado de suor.
Fui at o ferreiro. Logo que o encontrei, foi me falando que ainda no tinha o servio, mas disse a ele que eu queria mesmo  que me alugasse um de seus animais. 
Ele respondeu que no alugava montarias, mas tinha o seu cavalo e o emprestaria a mim. Agradeci a confiana. Disse que queria galopar para conhecer a redondeza. 
Logo  tarde voltaria. Estendi a ele um dinheiro que recusou, dizendo que eu trabalharia para ele e, ento, acertaramos nossa conta. Selei o cavalo e fui embora. 
J tinha eu destino certo, dessa vez eu a seguiria. Desvendaria todo aquele mistrio. E assim o fiz. Fiquei horas esperando. J estava com fome, meu estmago doa. 
Estava sentado na relva, e o cavalo amarrado no tronco da rvore que da outra vez me escondera. Escutei o galopar. Desamarrei o cavalo e saltei rpido na sela. Quando 
ela passou, fui eu a acompanhar. Ela galopava rpido como o vento. Olhou para mim e sorriu, mas no diminua a marcha. Eu era um bom cavaleiro, mas ela era rpida 
demais! Consegui acompanh-la at certo trajeto, mas ela foi se distanciando. Acenou com o leno branco e eu vi que era intil a seguir galopando. Dei meia-volta 
e voltei para a cidade. O ferreiro j me esperava na porta do estabelecimento. A montaria estava toda suada. Desmontei e disse que lhe daria tratamento. Ele foi 
atrs de mim. Disse que eu parecia cansado. Perguntou o que tinha acontecido e por onde eu tinha andado. Respondi que, se contasse no me acreditaria, porque fui 
deixado para trs em galope por uma amazona de olhos azuis alucinantes. Ele me olhou espantado. E disse:
- Acho que voc viu um fantasma!
Disse-lhe que no estava para brincadeiras, estava cansado, com fome e sem resolver um mistrio. Dirigi-me para a hospedaria. Comi um pouco e fui para o meu quarto 
descansar. J estava quase pegando no sono quando ouvi batidas leves na porta. Sentei na cama, procurando ouvir se era realmente na minha porta que batiam. A confirmao 
veio de mansinho. A batida era to leve, mal dava para escutar. Levantei-me e fui abrir a porta. Espantei-me com quem estava ali. Era aquela senhora da igreja, em 
p na minha frente. Perguntei o que queria. Ela disse:
- Vim conversar com voc.
E, dizendo, isso foi entrando sem mesmo pedir licena. Sentou-se  beira da cama e pediu que eu fizesse o mesmo. Contar-me-ia uma histria e desvendaria um mistrio. 
Quando ia comear a falar, entrou em meu quarto, falando alto, o magrelo que servia a comida. Eu tinha deixado a porta entreaberta, pois tinha uma senhora no quarto 
comigo. Ele foi dizendo:
- Esto todos a procurando, mas sabia que a encontraria aqui!
Foi pegando a senhora pelo brao e a conduzindo para a porta. E eu disse:
- Espere um pouco! Esta senhora veio conversar comigo! No tens o direito de invadir o quarto e levar minha visita consigo.
Ele nem me deu ateno, saiu do quarto batendo a porta e levando a senhora pelo brao. Fiquei a pensar no acontecido. E o que ela tinha de importante e no pde 
falar comigo? S podia ser sobre Vida, mas isso no ficaria assim. Nem perguntei o seu nome e onde era sua moradia. Assim, com a boa vontade que eles tinham em dar 
informaes, ach-la talvez fosse difcil. No pensei mais no caso e fui deitar, porque estava extenuado. Os ltimos acontecimentos tinham mexido demais com minha 
mente.
Acordei bem cedo. Arrumei-me e desci para tomar o desjejum. Estava achando que seria outro dia difcil, seria melhor estar preparado. Dessa vez no perguntei nada 
a ningum, tomei meu caf em silncio. O rapaz me serviu e nem me olhava, acho que estava com medo que de novo o interrogasse. Sa dali e fui ao ferreiro. Perguntei 
onde poderia comprar um bom cavalo, mas que no me custasse muito caro. Minhas economias estavam chegando ao fim. Juntei-as durante um bom tempo fazendo servios 
diversos. De tudo eu sabia um pouco. Trabalho pesado no me metia medo. Ele me mostrou um baio que colocaram em sua mo para vender, poderia dar a metade, o resto 
descontaria quando comeasse no emprego. Era um animal forte, estava dentro de minhas posses, e com a oferta de que ali poderia deix-lo. Foi um verdadeiro achado 
ter conhecido o ferreiro. Tive de comprar a sela e o restante, mas era um investimento. No poderia me locomover sem ter minha prpria montaria. Fui a galope encontrar 
Vida. Parecia que ela j fazia parte de minha vida. Ficava ansioso para v-la, nem que fosse s por um aceno e um sorriso. Enquanto esperava, deu tempo para pensar 
em minha vida. Eu estava obcecado com essa histria, acho que estava at pensando em como seria se ela no aparecesse. Meu corao deu uma disparada s por eu estar 
pensando assim. No meu devaneio, nem a ouvi chegar, escutei uma gargalhada e, quando me virei para ela, com um sorriso, ela disse:
- Hoje no quer me pegar?
Assim dizendo, partiu em galope. Montei rpido e fui atrs dela. Ela voava em disparada e eu no encalo dela. At que meu cavalo empinou e fui jogado para fora da 
sela. Senti que caa no cho e batia a cabea numa pedra. No sei quanto tempo fiquei desacordado, mas, quando abri os olhos, ela molhava minha testa com seu leno. 
E disse:
- Que bom que acordou, eu j estava ficando triste. Sentei-me na relva, era onde estava deitado e ela sentada ao meu lado.
- Voc  tima amazona! - disse a ela. -  difcil acompanhar seu galopar.
Ela levantou-se, perguntou meu nome e disse estar atrasada, tinha de ir embora. Seu cavalo e o meu pastavam juntinhos, nem parecia que o meu tinha me derrubado no 
cho. Mas foi a melhor coisa que j me acontecera, nem liguei se algum mal tinha feito em minha cabea.
- Daniel - disse -  o meu nome. Nome que foi dado ao meu pai e ao meu av. E quando tiver a graa de ter um filho,  assim que o chamarei.
Ela comeou a rir. Disse que eu era engraado, pegou seu leno e foi embora, com aqueles cabelos esvoaando ao vento. Fiquei ali sentado, parecia um bobo da corte. 
Acho que estava ficando apaixonado. Deitei-me na relva e, assim, permaneci sonhando. No me importava mais se no me queriam falar sobre ela. J sabia o seu nome, 
no me importava sua vida e quem lhe fosse conhecido. Tinha falado com ela, e isso era maravilhoso para mim. Ainda sentia seu toque em minha testa, era maravilhosa 
a sensao que sentia. Fiquei ali um longo tempo. J estava entardecendo quando dali parti. Queria ficar mais tempo, mas logo a escurido tomaria conta e, para seguir 
at a cidade, s teria a claridade da Lua. Como muitos caminhos ainda eram desconhecidos para mim, era melhor eu j ir partindo. Fui num trotar lento. No tinha 
pressa de chegar a lugar nenhum, a noite era uma criana e eu, um sonhador com esperana. Fiquei perambulando pela cidade depois de ter guardado e limpado minha 
montaria. Ele era cmplice de minha aventura, teria de cuidar bem dele. Dele muito precisaria.
Foi uma longa noite, no conseguia pegar no sono. No conseguia deixar de pensar naquela sensao de conforto em minha testa. Levei muito tempo para dormir. Acordei 
com o sol em minha cama, era como se viesse me acordar dizendo que eu estava perdendo muito tempo. Levantei rpido, me arrumei e desci. Sentia que me olhavam estranhamente, 
mas fingi no perceber. Tomei rpido meu caf e fui at o ferreiro. Era o dia que dissera que me empregaria, e eu tinha de estar l bem cedo. L chegando, j o encontrei 
trabalhando. Foi dizendo:
- Pensei que tivesse esquecido nosso acerto.
Disse que precisava trabalhar e ali eu me sentiria satisfeito, pois era a profisso que gostava. Meu pai tambm fora ferreiro. E, assim, entabulamos conversa enquanto 
fazamos o servio. Mais tarde, quando perguntou se no iria almoar, respondi:
- Se possvel, gostaria de trocar a hora do almoo por algumas horas  tarde.
Ele disse que tanto fazia, daria no mesmo. De toda maneira, faria o meu servio. Fiquei feliz como as coisas estavam ocorrendo. J estava trabalhando. Tinha minha 
montaria. E uma bela moa em meus sonhos.  tarde, fui galopar no local de encontro. Fiquei a esperar, mas ela no apareceu. Fiquei triste, acabrunhado, com medo 
de no v-la de novo e de que tudo no passasse de uma miragem. Fui embora de volta ao trabalho. Dessa vez, no quis entabular conversa, fiz meu servio amuado. 
O ferreiro me olhava, mas nada perguntava. Uma semana se passou. Eu ia todos os dias ao mesmo lugar e nunca mais perguntei nada a ningum. Talvez ela tivesse compromisso 
e eu no iria querer saber disso. E assim vivendo, voltado para o trabalho, o tempo passava mais rpido. Vivia na certeza de que a veria de novo, e isso me dava 
alento. Comprei uns livros, assim, enquanto a esperava, o tempo passava mais rpido. Na leitura eu me distraa, at que um dia, assim distrado, algum pousou as 
duas mos em meus olhos. Era um toque suave que eu j conhecia.
- Vida - disse.
E ela, rindo, disse que eu era esperto, era um adivinho! Sentou-se comigo na relva perguntando o que eu estava a ler. Mostrei-lhe o livro, disse que era um passatempo 
enquanto ela no aparecia ali. Ela sorriu e me perguntou:
- Estavas a me esperar? E se eu no viesse? Ficaria a o tempo todo, sem certeza de que eu iria chegar?
- Te esperaria toda a vida - respondi.
Ela riu e disse:
- Est de acordo com meu nome, mas toda a vida  muito tempo, no acho que valha a pena. Voc falou em um filho. Tens uma mulher, com certeza. Deve agora estar te 
esperando com o almoo fumegando sobre a mesa.
Agora foi minha vez de rir.
- Disso tudo que voc falou, s queria esse prato fumegante, o resto no existe em minha vida. Eu agora vivo te esperando a cada instante.
Ela passou a mo pelo meu rosto, disse para eu seguir o meu caminho. Seu caminho agora era outro, no podia alimentar minha iluso de que ficaramos juntos para 
sempre. Foi a primeira vez que a vi triste. Dei-lhe um sorriso e disse:
- No pensemos no amanh, o importante  este momento. E ningum poder tir-lo de ns.
Ela se levantou e saiu correndo, gritava que a fosse pegar mesmo sem sua montaria, duvidava que eu fosse alcan-la. Corri atrs dela como louco. Teria de alcan-la 
ou ela fugiria de mim. Ela parecia uma gazela. No consegui alcan-la em tempo, ca no cho extenuado, quando vi que ela voltava correndo. Chegou, jogou-se ao meu 
lado, suas risadas eram como msica ao vento. Fiquei olhando para ela fascinado. Por perto havia muitas flores, fui catando uma a uma e colocando em seus cabelos. 
Parecia uma princesa sada de um conto de fadas e estava ali comigo. Eu estava maravilhado! De repente, ela se levantou e disse que ia embora.
- O dia j se faz tarde. No posso mais ficar nem um momento, mas prometo que vou voltar.
- Onde voc mora? - perguntei. Ela me entregou seu leno e disse:
- Guarde como lembrana.
E assim dizendo foi-se a correr, voava como se estivesse a galope. Fiquei ali parado. Estava apaixonado por ela. No sei aonde aquela relao nos levaria, mas no 
queria pensar. Amanh seria outro dia. Voltei ao trabalho atrasado, mas o ferreiro nem me questionou. Teria de trabalhar at mais tarde para compensar as horas que 
passaram. Trabalhei tanto que, quando sa, as ruas estavam desertas. Cheguei  hospedaria e nada consegui para comer, j se fazia tarde e quase todos j tinham se 
recolhido. Eles sempre deixavam na mesa principal um cesto com frutas. Apanhei uma ma e foi meu alimento do dia. Joguei-me na cama cansado, nem de roupa troquei. 
O cansao era maior que o cheiro que meu trabalho deixava e pelas minhas narinas entrava, mas no me importei. O que importava  que eu estava feliz, fora o melhor 
dia de minha vida. Vida... Essa palavra se tornou mais que uma palavra, tornou-se o nome mais importante de minha vida. Acabei dormindo em sonhos. Estava ansioso 
pelo prximo dia. Acordei cedo, peguei logo no trabalho, no queria atrasar o servio por causa das tardes em que chegaria atrasado.  tarde, voltei ao lugar de 
sempre. Fiquei horas a esperar, e foi com tristeza que tive de voltar ao trabalho sem encontrar Vida. Trazia o leno guardado junto ao peito. O perfume de flores 
me dava  certeza de que de novo a encontraria. Os dias se passaram e eu, como sempre, a esperava e ela no aparecia, mas o leno e seu cheiro me confortavam na 
certeza de que o dia seguinte seria um novo dia. Assim se passaram meses. Assim se passou um ano. Eu vivia com a certeza de que tudo no fora um sonho. Tinha seu 
leno como prova, e isso dava alento  minha alma. At que um dia...
Era um domingo. Todos tinham atendido ao repicar dos sinos, anunciando  chegada a hora da missa, mas eu, ao contrrio de todos, me dirigi ao meu recanto, onde tinha 
minhas horas de sonho. Fiquei sentado distrado, olhando meu cavalo, que tranqilo pastava. De repente, ele ficou assustado e comeou a relinchar. Pensei: "Algum 
est vindo. Descobriram meu recanto e no poderei esperar Vida sozinho". Mas, para minha surpresa, quem vinha a galope era a amazona mais linda que j vira. Vida 
vinha linda! Como sempre, o sorriso em seu rosto era uma festa. Veio em direo a mim como se tivesse marcado um encontro. Saltou do cavalo sem esperar que eu a 
ajudasse, correu em minha direo e me deu um forte abrao. Ficamos muito tempo assim colados, nem parecia que tinha se passado um ano, mas havia tristeza em seus 
olhos, e isso no poderia passar a ningum despercebido. Eram uns lindos olhos. Peguei sua mo e sentei com ela na relva. Disse que a tinha esperado todo aquele 
ano, mas sempre com a certeza de que voltaria a encontr-la. Ela me olhou como se estivesse surpresa.
- Um ano? - perguntou. - Como se passou tanto tempo? Ainda ontem estive contigo, esqueceu? Voc caiu do cavalo e eu cuidei de voc, at lhe dei de lembrana meu 
leno.
Fiquei olhando para ela. Ser que Vida era perturbada? Como no sabia que se passara um ano? Por onde ser que andava? Alisei seus cabelos. Disse estar enganado.
- Para mim, um dia  um ano sem voc. Assim foi e voc no entendeu.
Ela, ento, deu uma sonora gargalhada e disse:
- Voc gosta de brincar comigo! Mas me deixou assustada. Pensei que voc poderia ter problemas na cabea.
Meu Deus, o que est acontecendo? S voc pode me ajudar nesse mistrio.
Fiquei olhando para ela e me perguntando se seria sincera realmente, mas depois me arrependia por meus pensamentos. Ela estava ali, e era isso que importava, e no 
quanto tempo havia passado. Ela estava com a mesma vestimenta de sempre, o chapu em sua cabea era sua marca. Perguntei outra vez onde morava e por que no poderia 
v-la em sua casa. Ela disse que poderia encontr-la em muitos lugares, mas nenhum seria, para mim, de fcil acesso. Fiquei sem entender nada, mas no queria assust-la 
com muitas perguntas, ela estava ali comigo. E essa era a melhor resposta que eu poderia ter conseguido. Ficamos a conversar sobre os livros. Falamos das flores, 
da natureza, de como era bom contar as estrelas ou sentir no rosto a chuva caindo. O tempo, nessa hora, parava. Era um momento mgico, tudo mais no existia. S 
eu, ela e a natureza, no esquecendo os dois cavalos que se entrosavam e pastavam juntos como se h muito se conhecessem. Perguntei se ela no estava com fome. Tinha 
levado comigo algumas frutas. Recusou, dizendo:
- Quem me alimenta  o tempo.
Disse que ela no levava nada a srio e me falava em enigmas. Teria de aprender a decifr-los e assim teramos melhor convvio.
Ela como sempre ria de minhas palavras. Contou-me que conhecia todas aquelas paragens. Perguntou-me se no queria ir com ela. Mostraria-me como a natureza  bela. 
Achei timo acompanh-la. Era domingo, minha folga, no teria a preocupao de voltar ao trabalho. Pegamos nossa montaria e, dessa vez, cavalgamos lado a lado. Caminhamos 
muito tempo. Lugares que nunca tinha visto antes. Uma linda cachoeira e um crrego de gua limpa e refrescante. Levei meu baio para beber gua e, quando fui levar 
o dela, disse que no precisava, ele dispensava, no precisava dela. Fiz de minha mo uma concha e levei para ela essa gua fresquinha, e ela disse que no a queria. 
No tinha sede, ali me levou para que dessa gua limpa me servisse.
- Como pode voc no ter sede nem fome? - perguntei a ela. - Voc  uma figura estranha...
Ela, rindo, jogou-se em meus braos, me beijou, e eu fiquei maravilhado. Ouvi o sino repicar! Vi descer as estrelas. Ouvi mais forte o barulho da cachoeira e pensei 
que fosse morrer nesse momento! Mas eu, assim extasiado, fiquei um pouco sem ao. Aconteceu sem eu ter esperado e, por isso, no tive reao. Ela saiu correndo 
e no pude segur-la, pegou seu cavalo e foi embora em disparada! Eu fiquei ali, como uma esttua, sentindo ainda aquele doce beijo que alimentaria os dias seguintes, 
pois muito tempo ela ficou sem aparecer. Todos os dias eu ia religiosamente esper-la, mas voltava frustrado e mergulhava cada vez mais em meu trabalho. Amigos, 
no tive tempo de faz-los, s o ferreiro era minha companhia. Conversvamos sobre muitos assuntos, s sobre Vida nunca mais falaramos. Aquela senhora desapareceu. 
Cidade estranha era aquela. Mas, como eu pouco saa para andar pela cidade, poucas pessoas eu via. A no ser aquelas que vinham para receber meus servios. Mas no 
entabulvamos conversa. Eu estava sempre compenetrado no que fazia. Passaram-se seis meses. Eu, numa maior aflio, comecei a cavalgar pelos arredores. Queria ver 
se encontrava alguma pista. Alguma coisa que me levasse onde Vida vivia. No fim da cidadezinha, havia um cemitrio. Sem me dar conta, caminhei at l. Entrei, fiquei 
por ele perambulando at encontrar algo estranho! Era um tmulo coberto de flores. A jazida era toda de mrmore rosado; foi isso que me chamou a ateno. Contrastava 
com o branco que imperava naquela regio. Aproximei-me para ver a figura que tinham emoldurado e colocado no tmulo. Qual no foi minha surpresa! Era algum que 
parecia minha to amada Vida! Fiquei perplexo. A semelhana era demais. Devia ser sua me, mas, estranho, para ser me de Vida era nova demais. Sa dali pensativo, 
o que estaria ocorrendo? Dizem que descrevi a pessoa errada, e igual  descrio que dei todos a conheciam em tmulo. Ento, por que diziam que em vida no havia 
ningum com a descrio por mim feita? Eram tantas interrogaes. Mas essa foi demais! Fui  igreja com o firme propsito de saber tudo do padre. Entrei pedindo 
licena, fui direto procur-lo. Assim que me viu, deu uma desculpa. Disse estar apressado demais. Tinha um compromisso que no podia ser adiado. Que eu passasse 
mais tarde e a, sim, poderamos, com calma, nos falar. E assim dizendo, deixou-me ali em meio  igreja, plantado, sozinho. Sentei-me e me pus a rezar. Aproveitei 
que havia tempos no ia  igrejinha. Pedi a Deus que me ajudasse. Vida por certo existia, mas quem era aquela do retrato? Quem me daria essa explicao? Senti um 
toque em minhas costas, me virei e tive uma surpresa, era aquela velha senhora que desaparecera depois de falar que desvendaria o mistrio. Levantei-me e fui me 
juntar a ela, dizendo:
- Por favor, imploro-lhe que me conte toda a verdade. Se souberes sobre Vida, no me poupes, conte-me tudo em detalhes.
Ela disse que antes tinha de rezar seu tero. Repliquei:
- Deus a perdoar se hoje trocar o tero por uma Ave-Maria.
Ela deu um sorriso e disse:
- Assim ser me espere fora da igreja e iremos caminhar. Fui l para fora esperanoso, era um lindo dia. Fiquei a esperar, esperar, e nada. Nada da senhora aparecer. 
Pensei: "No quis deixar de rezar o tero, precisarei ter pacincia". Sentei na beirada da escada e fiquei distrado em meus pensamentos at que saiu o sacristo 
perguntando o que eu estava fazendo ali. Se estiver passando mal, poderia me conduzir at a hospedaria.
- No! - repliquei. - Estou esperando a senhora que est a rezar na igreja.
Ele me olhou espantado e disse:
- Ela j foi embora h tempos.
Levantei-me e corri at dentro da igreja. De fato, estava deserta. Poxa! Estavam brincando comigo. Mexendo com meus sentimentos. Agradeci ao sacristo e fui direto 
para o trabalho. L chegando, fui falar com o ferreiro Jos; ele assim se chamava. Era um bom homem, mas nunca foi meu conselheiro. Fui direto ao assunto:
- Jos, j foste ao cemitrio?
- Todos aqui l estiveram um dia. Numa comunidade pequena todos se tornam amigos. Assim, quando algum parte, a cidade para fazer o acompanhamento.
- Ento, com certeza, sabes de quem  o retrato que est sobre o mausolu rosado.
Ele ficou um instante me olhando sem falar. Parecia que, de repente, tinha ficado mudo.
- No sei do que est falando. No conheo tmulo rosado nenhum.
- Ento vamos at l, por favor, me faa companhia, quero lhe mostrar uma coisa, seno pensarei que estou maluco.
Ele retirou seu avental e disse:
- Vamos logo ver esse assunto. No quero que penses que estou ignorando algo que voc acredita ser um problema.
Fomos andando at l. Pelo caminho, ele no abriu a boca para falar nada. Eu tambm estava cansado de falar, mas agora tinha algo para mostrar, e no podiam dizer 
que eu me equivoquei. L chegando, levei-o direto ao local onde tinha visto o tmulo. L estava, todo rosado e cheio de flores, mas, quando chegamos perto, para 
minha surpresa, o retrato estava faltando. Fiquei impressionado.
- Como tiraram o retrato daqui? - Fui ficando furioso. Estavam me fazendo de bobo.
- Jos! - disse. - Aqui est o tmulo rosado que voc disse que no existia. E olhe a moldura sem a foto. No  prova suficiente para voc deixar de mistrio e me 
contar o que toda essa gente no quer?
Ele coou a cabea. Andou de um lado para o outro e disse:
- Se contar, voc no vai acreditar. Ento,  melhor voc esquecer tudo isso.
- No posso - disse. - Vida j faz parte de minha vida, mas no posso aceitar que ela desaparea por meses ou at um ano sem poder ir procur-la. Se voc me tem 
alguma estima, se me considera pelo tempo em que j trabalho contigo, por favor, me diga onde ela mora e quem estava na foto que  to parecida com ela.
- Como pde v-la? - perguntou. - Isso  totalmente impossvel! Um dia, numa grande festa, Vida desapareceu de nossas vidas. Sente-se, que vou lhe contar.
E ficamos ali sentados em meio ao cemitrio. E ele comeou a contar:
- Vida, moa bonita, raio de sol de nossas vidas. Numa grande fazenda que tem nos arredores, mora uma grande famlia. Sete irmos, bom rapazes trabalhadores, viviam 
a mimar a nica menina que Deus colocou naquela fazenda. Tiveram a sorte de ela ser uma estrela brilhando sempre e trazendo para todos um carinho, uma palavra amiga. 
Vivia a correr por todos os cantos, cavalgava desde pequenininha. Seus irmos a adoravam. Na cidade, no havia quem no se comovesse com a delicadeza e beleza da 
menina. s vezes, passava em disparada, jogava flores no caminho. Dizia que era para amenizar a paisagem, pois na cidade era barro e pedra em todos os caminhos. 
As mulheres recolhiam as flores e as colocavam em vasos na janela. A cidade ficava toda enfeitada, era perfume de flores para todo lado. Na igreja, ela deixava sempre 
uma braada de rosas. Dizia que igreja sem flores era noiva sem cabea enfeitada. At que toda essa alegria teve um final, e hoje, flores, s se forem colher ou 
compr-las, mas ningum quer de volta o que no pode voltar.
- Jos, no me fale por enigmas, j fizeram isso o bastante. Se comeares a me contar a histria, por favor, nada me omita, mesmo que v me doer.
Antes de continuar, me perguntou:
- Ainda encontras com ela?
Respondi que sempre a vejo. Corro sonho e passeio, mas sem tempo regrado. s vezes, passo s uma semana sem v-la, mas tambm j se passaram meses e at um ano.
- Daniel, esquea essa moa! Mude de cidade, v para outro povoado. Tenho um amigo numa cidade que no  muito distante daqui, em trs dias cavalgando. Voc chegar 
at esse meu amigo. O ofcio dele  o mesmo. Voc no ter problemas com trabalho. V, encontre uma boa moa e construa seu lar.
- No era bem isso que eu estava pensando - respondi. - Pensei em lhe propor dormir naquele quartinho dos fundos, assim economizaria o dinheiro da hospedaria, poderia 
atender seus fregueses a qualquer hora e construir minha casa. J at achei o lugar,  um pouco fora da cidade, mas um lugar maravilhoso. Quero plantar e criar alguns 
novilhos. Depois, quem sabe? At criar uns cavalos.
- Por mim est tudo bem - respondeu Jos. - Se  assim que voc deseja, mas vamos embora que deixei o estabelecimento aberto.
- Espere! Voc no me falou onde est Vida.
- No preciso! - respondeu. - Voc, pelo que contou, sabe melhor do que eu de seu paradeiro.
Aceitei suas palavras. Era mais do que eu j havia conversado sobre Vida. Ento, ela vivia por ali. Era uma boa moa. Com sete irmos a lhe cuidar. Mas o que teria 
acontecido para Vida no querer mais passar por esta cidade? Isso me ia me perguntando. Jos e eu caminhvamos calados. Chegamos e fomos direto ao servio. Tinha 
muito trabalho acumulado. Pela primeira vez, no fui  procura dela. A tarde livre, que era minha hora de almoo, aproveitei para fazer a limpeza do quartinho onde 
moraria. De manh, quando viesse trabalhar, j sairia definitivamente da hospedaria. E, assim, mergulhado em servio, nem dei conta de como as horas passaram depressa. 
Fechei o estabelecimento, pois Jos j tinha se ido e fui para a hospedaria juntar minhas coisas e fizer o acerto do que estava devendo. Assim, na manh seguinte, 
despedi-me, dei meu novo endereo e disse que ali estava se precisassem de mim. Eu estava feliz! Economizaria um bom dinheirinho e comearia a construir minha casa. 
O quarto no era grande, mas tinha uma boa janela e algumas tbuas que eu transformei em cama. Para mim era o suficiente. Tinha um cantinho que eu arrumaria para 
cozinhar minhas refeies, mas isso nem precisei fazer. Jos tinha falado com sua esposa e eles me ajudariam em meu empreendimento me mandando as refeies. S o 
caf da manh teria de providenciar. Como a vida era bonita! O ar que entrava pela janela trazia o perfume das flores, que me lembravam Vida. Vida! Meu Deus, como 
posso ter esquecido. E se ela foi me encontrar? Pensar que a abandonei e nunca mais voltar. Corri rpido com meu servio. Pediria a Jos todo o restante do dia 
livre e, assim, fui a disparada ao local de encontro. Meu corao batia descompassado. E se Vida nunca mais viesse ao meu encontro? Nunca mais era tempo demais. 
Sabia que isso no aconteceria. Estava apaixonado por ela e pediria sua mo em casamento. Antes, teria de construir a casa, mas a levaria para conhecer o local. 
Assim pensando, cheguei ao lugar marcado por ns em encontros. Vi uma figura sentada, colada na rvore. No dava bem para divis-la. Quando cheguei perto, saltei 
do cavalo e corri em disparada. Pela primeira vez, era Vida que me esperava. Quando me viu, veio correndo ao meu encontro.
- Daniel! Como voc demorou! Pensei que tivesse me abandonado. Fui atrevida em lhe dar aquele beijo apaixonado.
Eu a abracei acariciando seus cabelos. Nossos coraes batiam juntos uma descompassada cano de amor.
- Vida, vim aqui todos os dias. Esperei ansiosamente e voc no apareceu. Foram semanas que fiquei a imaginar como seria minha vida se voc me abandonasse, mas o 
que importa  que agora estamos juntos. Vamos dar um passeio, que quero lhe mostrar uma coisa.
Ela me deu a mo, disse que no queria se separar de mim. Se no desse para for caminhando, era melhor lhe mostrar outro dia essa surpresa. Atendi o seu pedido e 
ficamos ali mesmo a passear. Estranhei... Vida no estava risonha, algo tinha acontecido. Tinha medo de perguntar, e ela fugir como das outras vezes, mas foi ela 
quem disse:
- Daniel, por onde andas quando no ests no trabalho, por que visitas o cemitrio? Por quem tu foste chorar? Pedi que tivesse calma.
Era uma enxurrada de perguntas, mas como ela sabia de meus passos? Como a indagaria?
- Vida, j sei que moras com seus irmos, mas no consegui saber onde fica a fazenda. Voc tem vergonha de mim, por isso no quer me apresentar aos seus irmos? 
Meu trabalho  humilde, mas tenho o firme propsito de construir minha casa. Era isso que queria mostrar a voc: a terra que eu j escolhi. Estou morando num quartinho, 
 pequeno, mas jeitoso. Economizarei o bastante para comprar os primeiros tijolos.
- Pare de falar! - gritou Vida. - Essa no  a realidade! Queria muito que fosse, mas no posso ter essa vida que pretendes para mim. Eu te amo demais. No queria 
mais sair de perto de ti, mas nossos caminhos esto separados. Eu sou a iluso e voc a certeza de que h uma vida inteira para viver.
- Vida! - disse eu. - O que h por trs de tudo isso? Por que nem voc nem os seus vo  cidade? Por que se escondem como se fossem fugitivos?
Ela, passando a mo em meu rosto, disse:
- Se tiver de falar de mim, vou ficar triste e talvez nem volte mais aqui!
Eu a abracei chorando, dizendo nada mais me importar, mas queria que pensasse em meu pedido. Queria me casar com ela na igrejinha. Ela se levantou e vi a tristeza 
em seu rosto. Saiu correndo gritando:
- Voc no entendeu nada! Se quiser ficar comigo, tem de ser desse jeito - e foi-se embora num galope desesperado. Eu fiquei ali parado, pensando o que estaria acontecendo. 
S se Vida fosse era casada. E, por isso, nossos encontros teriam de continuar longe de todos. Fiquei chateado. Vida, casada? Mas no, Jos, com certeza, me alertaria. 
Quando me contou parte da histria, no mencionou que Vida tinha formado famlia. Fui caminhando, levando meu cavalo pelas rdeas. No tinha pressa de chegar a casa. 
Andar ao ar livre era o melhor remdio. Cheguei  casa cansado. Cuidei de meu animal e fui me recolher na mesa por mim improvisada. Tinha um prato de sopa bem quente. 
Intimamente agradeci a Jos, era tudo que eu precisava no momento. Tomei aquele caldo gostoso e fui me deitar, no queria pensar em mais nada. Acordei com Jos me 
chamando. Levantei assustado, dormi demais, pensei. Jos j tinha iniciado o trabalho e eu na cama, como se estivesse adoentado. Joguei sobre a cabea um balde de 
gua fria, isso me reanimou para o trabalho. Pedi desculpa a Jos, estava envergonhado por ter me atrasado.
- Voc no est bem - ele disse. - O que aconteceu?
- Aconteceram tantas coisas. Encontrei-me, ontem, com Vida. Perguntei sobre sua famlia. Contei-lhe dos meus planos e disse que, se ela aceitasse, me casaria com 
ela. J estou cansado desses encontros furtivos, quero mostr-la a todos. Mostrar como estavam enganados em no querer, falar dela. Estamos apaixonados, mas Vida 
tem um segredo na vida dela.
- Daniel! - disse Jos. - Deixe Vida em paz, ser melhor para voc no saber da histria. Deixe ficar esses encontros, que voc diz serem maravilhosos, apenas em 
sua memria.
- Jos, se dissessem para voc abandonar sua famlia, se contentar s com lembranas de sua esposa, voc aceitaria? Estou preso a Vida, no posso viver sem ela. 
No mximo, posso esperar alguns meses, mas com a certeza de que fao parte da vida dela. Seu leno, que guardo como lembrana,  sua presena no meu dia a dia, me 
d foras para esperar o tempo de v-la de novo. Sem ela no existo! Paro de respirar, de me alimentar. Sem Vida, vida para mim no existe.
Jos abaixou a cabea dizendo no tocar mais no assunto, mas era melhor no contar para ningum que a encontrava, ou me teriam como maluco. Fiz meu servio aborrecido. 
As horas custaram a passar. Estava um dia chuvoso, frio. Nem sabia se iria encontrar Vida. Quando a tarde chegou, a chuva tinha parado. Encaminhei-me para o local 
onde iria encontrar Vida. L chegando, para minha surpresa, quem me esperava no era Vida, mas aquela senhora que vivia me alimentando de esperana que desvendaria 
todo o mistrio.
- Como a senhora chegou aqui? Estava esperando por mim? Fui apeando do cavalo e formulando as perguntas.
- Calma! - ela disse. - Teremos toda  tarde para desvendar mistrios.
Peguei-a pelo brao, fiz com que se sentasse num tronco, e sentei-me ao seu lado, no lhe dando chance de ir embora.
- Uma parte da histria j lhe contaram - disse ela. - Agora vamos ver se voc acredita nessa velha de boa memria. Uma amazona bonita faz qualquer ser se apaixonar, 
ainda mais se for um sonhador, que tem corao com espao. Quando fazemos a passagem deste mundo, vamos por lugares diferentes. Uns para lugares tranqilos, por 
merecimento, outros ficam vagando, no tendo a paz de esprito at ter o entendimento de que viver no  fazer da vida dos outros um mar de sofrimentos, mas h aqueles 
que tm condies de voltar. Retornam ao mundo terreno e nem assim esto a vagar. Uma porta  sempre aberta e, se teve vida correta, pode ainda visitar os seus. 
Mas precisam saber que tm vida separada e que aqui no podem mais ficar.
- Minha senhora - disse - a senhora ficou cheia de rodeios, disse coisas estranhas que, para mim, nenhum significado tm. Quero saber de Vida, ou a senhora nada 
sabe e quer complicar mais ainda minha vida?
- Moo, tenha calma e preste bem ateno! No vou lhe dizer que no vs o que v, mas tome muito cuidado! Podes ficar embriagado e sofrer por causa dessa paixo. 
Procure uma moa num povoado. V viver uma vida tranqila e deixe os sonhos de lado.
- No entendi nada que me falaste. Era para nossa conversa dar o mistrio por terminado, mas eu fiquei mais confuso. Por que no posso me casar com Vida? Porque 
sou pobre, no tenho nada a oferecer? Porque sou pobre e ela  rica?
- Voc no entendeu nada! - Disse a boa senhora. - Vou falar mais explicado, mas no fique desesperado e contra mim por ter contado. Vida era uma moa, como j lhe 
contaram que a todos enternecia. Vivia a cavalgar e estava sempre sorrindo. Um dia, a febre a abateu. Seu pai mandou chamar doutores de todos os lugares, mas nada 
deu resultado. A febre a consumia. Delirava e a mais ningum ouvia. Assim se passaram sete anos. Sete anos em que todos se reuniam na igrejinha fazendo preces para 
que ela se curasse. Ento, numa manh ensolarada de setembro, ela partiu, conservando um sorriso nos lbios. A cidade ficou triste. O sino da igrejinha emudeceu. 
As flores perderam seu vio. Uma linda e meiga mocinha morreu.
- Mas de quem a senhora est falando? - perguntei. - Pedi que me falasse de Vida! Essa histria que a senhora contou deve ser de outra pessoa conhecida. Como pode 
Vida estar morta, se com ela falo quase todos os dias? A no ser quando some, mas s por um tempo. Quando aparece,  como se tivssemos nos vistos todos os dias.
- Filho, preste ateno! No estamos falando de alma penada, estamos falando de algum que partiu, mas que vive por estas paragens.
- A senhora quer me dizer que Vida no existe? Ento quem  que vem ao meu encontro, me abraa e me beija?  um fantasma? Mas no usa camisolo branco nem chapu 
pontudo na ponta. Acho que estamos falando de pessoas com o mesmo nome, mas com vidas diferentes.
- Ento, meu jovem, vou andando, mas eu era ama de Vida. Carreguei-a no colo e quase morri quando a perdi. Foram sete anos de sofrimento, vendo minha menina inerte 
como se no fizesse parte desta vida. Eu a alimentava acariciava e nem sei se ela o sabia. A ternura, a meiguice nunca saram de seus olhos, parecia que estava dormindo. 
s vezes me olhava, alguma coisa balbuciava, parecia querer ir embora e no podia: suas risadas ainda hoje ecoam pela casa, e as flores de que tanto gostava e cuidava 
nunca mais deixaram de florir na fazenda. Mas, se voc quer confirmar a verdade,  s seguir o riacho e vai encontrar a fazenda. Ali ainda moram seus pais, eu os 
conforto dizendo que ela ainda est aqui. Seus irmos foram pela vida espalhados, seguiram cada um seu rumo e para casa nunca mais voltaram. s vezes mandam lembranas. 
Escrevem cartas e o mensageiro demora tanto para entreg-las, que, quando contam que esperam a chegada de uma criana, a criana j est em andanas. Agora j vou 
indo, fique em paz e j sabes onde me encontrar se for preciso.
Eu fiquei mudo. Minha cabea parecia um pio. Algum puxou a fieira, e ela rodava sem parar. Meu Deus! Vida no existe? Como posso acreditar se j a tive em meus 
braos e senti seu corao pulsar! Mas como podem todos estar enganados? O ferreiro, o sacristo, o rapaz da hospedaria, at o proco, que no me deu chance de nada 
contar, com certeza j sabia do que iria falar, mas agora j tenho uma pista e vou segui-la para terminar minha agonia. E assim fui andando at encontrar o riacho. 
Fui seguindo seu crrego at dar numa cerca. Contornei-a e achei a porteira. Estava fechada, o silncio imperava. No havia ningum por ali. Bati palmas, chamei:
-  de casa, algum poderia me atender, por favor!
O silncio continuava, ento tomei a deciso, pulei a cerca. Fiquei todo arranhado. Era arame farpado emaranhado que fazia a cerca de construo. Fui caminhando 
at a casa quando ouvi uns latidos. Vieram diversos cachorros na minha direo, eu comecei a correr deles, que me perseguiam. Encontrei uma rvore baixa, galguei-a 
e fiquei sentado l em cima. Os cachorros faziam um escarcu, no sei como ningum estava ouvindo. Ento escutei um estalido. Era um senhor com a espingarda engatilhada.
- V descendo devagar! - disse ele. - Com as mos nas costas e sem pensar em correr, minha carabina est engatilhada e eu meto chumbo em voc!
- Foi uma senhora que disse que eu viesse at aqui.
- Senhora tem nome, sem nome h muitas por a.
- Ela no falou e eu me esqueci de perguntar.
- Esse trolol est ficando esticado. V andando at a porteira e d o fora de minha casa.
- Senhor, eu queria lhe falar. Conheci sua filha, amo-a e com ela quero me casar.
O velho se assustou, que at deu um tiro para o alto. 
- Ests de brincadeira! Ou o que pensas que pode fazer comigo? Minha filha est morta! E no tenho outra que possa se casar contigo.
- Vida, no  esse o nome de sua filha? Tenho-a encontrado quase todos os dias. Ela  linda! Morena clara, cabelos negros e olhos azuis que fazem inveja s estrelas...
O velho deixou cair  arma, e disse:
- Deixe de brincadeira! Meu corao no  to forte para escutar esse tipo de besteira. Vida se foi j faz trs anos. Fora os sete em que ficou inerte, sem fazer 
parte de nossas vidas. Era s febre e delrios que consumiram a ela e a toda a famlia.
- J me contaram tudo isso, e eu vim tirar a limpo para ver se trata da mesma pessoa.
- Peo desculpas, meu amigo! Venha, entre, que minha velha vai lhe preparar algo quente enquanto fazemos o dito esclarecido.
Entramos na casa e ele me apresentou a uma senhora que tinha todos os traos de Vida. Os olhos eram to parecidos, a maneira de olhar enternecida, fiquei parado 
em frente a ela sem dizer nada. Pediu que eu me acomodasse e logo, logo traria algo para que nos esquentssemos. Fiquei sentado parecendo uma esttua, pois emoldurado 
na parede estava um lindo retrato igualzinho ao que vi na sepultura, s que era maior a figura. Fiquei esttico, no consegui dizer uma palavra. O velho tinha voltado 
 sala, pois tinha ido guardar a sua arma. Ficou me olhando e disse:
- Ests passando mal? Ests plido! Acho que o assustei com minha espingarda.
No consegui balbuciar uma palavra. Coloquei o dedo em riste apontando para o retrato.
-  minha filha! - disse ele. - A moa mais bonita das redondezas, mas nos deixou.
- Foi dela de quem lhe falei.  a mesma pessoa que tenho visto. Todos a dizem morta, mas est mais viva que nunca.
- Filho! - disse ele. - Voc parece perturbado! Vida no existe mais, a no ser na lembrana destes velhos e de todos que tiveram a graa de conhec-la.
- Senhor, vou contar todo o acontecido.
E assim lhe narrei toda a histria. Quando acabei, ele estava chorando e, ao lado dele, sua senhora enxugava suas lgrimas.
- Nunca teria inventado tudo isso. Foi uma coincidncia nosso encontro. Por acaso estava no mesmo caminho que Vida sempre passava. Agora estou tonto, zonzo. No 
sei o que ser de minha vida. Fiz planos, comecei a construir minha casa e estou apaixonado por algum que no existe mais!
A senhora veio at mim e, me abraando, disse:
- Venha, vou lhe mostrar o que no foi mexido. Desde que Vida partiu, conservo seu quarto como se fosse voltar algum dia.
Era uma casa grande, de muitos quartos. O quarto que era de Vida ficava no final, a janela dava para frente da casa. Era um quarto todo rosa. Cheio de bonecas a 
enfeitar. Flores desenhadas na parede formavam lindos painis, como se todo o quarto fosse uma mata. Sua me ia mostrando tudo e dizendo:
- Foi ela mesmo quem o fez. Ela gostava de pintura, flores e natureza, para ela, era um casamento perfeito.
A cama, com uma colcha acetinada, parecia que tinha acabado de ser feita. Um par de chinelos no tapete e uma roupa dobrada na banqueta. Seu retrato estava em uma 
mesinha. Eram muitas fotos, desde o tempo de criana. Tinha fotos com seus pais e sempre os irmos  sua volta. A senhora foi falando todos os nomes, mas no consegui 
gravar nenhum deles, s olhava o retrato que emoldurava Vida, pois era igualzinho ao que no consegui mostrar ao ferreiro. Peguei-o e perguntei  senhora se poderia 
lev-lo comigo.
- Sinto muito, meu filho, mas tudo que vs neste quarto  para ficar resguardado. Todas as vezes que sentimos falta dela,  aqui que vimos buscar um pouco de alento, 
mas fique certo de que toda vez que quiseres podes vir, no precisas de permisso, se s amigo dela. Bem-vindos sejam os amigos!
E assim dizendo, foi saindo do quarto e me levando pelo brao. Quando cheguei  sala, o pai de Vida estava pensativo, perguntou-me como procederia. Se iria mandar 
rezar uma missa na igrejinha.
- Por qu? - perguntei. - S porque Vida est morta para vocs, acham que tambm estar para mim?
- Filho, pense bem! No ests na sua justa razo! No estamos falando de algum que est entre ns. Estamos falando de uma apario!
-  apario para vocs! - disse. - Se eu a abrao, a beijo, se a sinto em meus braos, como posso acreditar que esteja morta? Agradeo a bondade de vocs, no sei 
que explicao terei de tudo isso, mas de uma coisa tenho certeza: no deixarei de ir aos encontros com Vida.
- Deixe-me ir com voc - disse a bondosa senhora. - Se minha filha est de volta, quero abra-la e traz-la para casa de volta. De fato, nunca deixei de senti-la 
viva, por isso mantenho seu quarto, como se fosse voltar a qualquer momento. Irei com voc. Espere s um pouco que vou trocar de roupa e pegar um agasalho.
- Senhora, espere. A hora do encontro j passou e nem sei se hoje a encontraria. s vezes passam-se meses, dias ou ano sem que eu a veja. Eu, assim dizendo, tirei 
o leno que trazia guardado sempre perto de meu peito e o mostrei:
- Veja, ela me deu como lembrana quando ca do cavalo. Foi com ele que molhou minha testa.
A me de Vida pegou o leno e desatou a chorar, dizendo:
- Este leno era o que estava em seu rosto quando compus a mortalha. Trs anos se passaram e ele continua intacto, como se estivesse novo. Tenho certeza de que  
o mesmo. Eu mesma o bordei.
E assim dizendo me devolveu. Seu esposo estava mais calmo e disse:
- Se com Vida tu mantns contato, diga-lhe de nosso amor. O quanto nos falta e o tamanho de nossa dor.
Dei-lhe um abrao dizendo:
- No sei a que isso vai me levar, mas quero pedir segredo. No quero que a pensem fantasma e a comecem a procurar, mas, se desejam v-la, devem ir amanh ao meu 
encontro, quem sabe ela aparea e atenue sua dor.
Agradeci e fui embora. J estava se fazendo tarde. Agora passei com a porteira aberta, sentia-me mais um membro daquela casa. Cheguei  cidade cansado. Tomei um 
banho e fui dormir. Eram tantos os acontecimentos que nem me dei conta de que Vida s era realidade para mim. Dormi e sonhei com ela. Estava linda e me chamava.
- Esqueceu-se de nosso encontro? - dizia ela. - Esperei por ti at bem tarde. Estou te esperando - dizia ela.
E assim, repetindo diversas vezes, foi sumindo como fumaa. Acordei sobressaltado, com o corpo todo suado. Sentei na cama e fiquei pensando. Era ela mesma ou apenas 
um sonho? Peguei um pouco d'gua e molhei minha cabea. Sentia um calor danado, mas l fora o vento zunia com o frio, contraste com o que eu estava sentindo no momento. 
Peguei um livro para ler, pensando em me distrair. Logo pegaria no sono e deixaria o livro no abandono, mas no foi isso o que aconteceu. No consegui fixar uma 
pgina e o dia amanheceu como num passe de mgica. Estava cansado, todo dodo. Os arranhados inflamaram minha pele. Eu, quando cheguei, tinha at esquecido de que 
estava machucado. Fui me lavar, tomei um caf bem quente e peguei no servio. Jos chegou cedo. Reparou que eu j tinha trabalhado muito. Ficou pensativo e perguntou 
se atravessara a noite trabalhando.
- Tenho tanta coisa para te contar! - disse a ele. - Conheci os pais de Vida, sua ama e, pelo retrato, os irmos que fizeram parte da vida dela.
- Fizeram parte da vida dela? - perguntou ele. - Ento j sabes e confirmaste o que venho te falando h tempos. Vida est morta! O que vs  iluso!  algo que no 
consigo lhe explicar porque foge ao meu conhecimento.
-        Sabes o leno que ela me deu? Foi reconhecido por sua me. O bordado, ela mesmo o fez. Disse que era o complemento de sua mortalha e se espantou, pois trs 
anos se passaram e ele continua intacto. Sabes, no estou apavorado por amar algum que j partiu desta terra. O que me apavora  no saber quanto tempo ela ainda 
ficar por aqui. A, ento, no sei o que ser de mim. Sabe? No quarto de Vida, encontrei o tal retrato que quis lhe mostrar na sepultura. Quis traz-lo comigo, 
mas sua me no dispe de nada daquele quarto. E de Vida, e assim continuar como se ela ainda estivesse viva. No seu quarto senti seu cheiro, senti sua proximidade. 
Conheci onde teve seus momentos ntimos, onde tinha toda a liberdade. A pintura na parede  sua marca registrada, traz a calma para quem conhece e se transporta 
para a natureza. Vamos comigo algum dia? Tenho certeza de que seus pais vo receb-lo com alegria. Sua me disse que so bem-vindos seus amigos. E voc, como  meu 
amigo e participa das minhas emoes, tem todo o direito de compartilhar dos segredos de minha vida. Agora, deixe-me trabalhar, tenho de adiantar bem o servio. 
Vou hoje ao encontro de Vida e levarei os pais dela comigo.
E, assim dizendo, at cantarolei para fazer mais rpido meu servio. Quando Jos foi almoar e fiquei s na ferraria, apareceu, sem fazer barulho, aquela que eu 
j sabia fora ama de Vida.
- Filho - ela disse - de nada adiantou nossa conversa, era para voc dar tudo por terminado, mas agora at seus pais querem encontr-la em vez de fazer as preces.
- Senhora, nem sei seu nome, o que  uma indelicadeza. Se amares tanto Vida, tens de mim muito amor e apreo, mas lhe peo que me deixe em paz. Deixe-me viver como 
quero. Se for iluso amar Vida,  viver nessa iluso que eu quero.
- Meu nome  Antnia. Toninha, ela me chamava. Voc, meu bom rapaz, que ama quem muito amei um dia tem o mesmo direito de me chamar como ela. Se de eu precisar, 
sabes onde me encontrar, mas que o desespero no lhe tome conta se nunca mais a encontrar.
- Agradeo sua preocupao, Toninha. Quero preservar sua amizade. Quero contar consigo, para que me conte sobre Vida, e assim selaramos nossa amizade. Agora tenho 
de me apressar no trabalho, tenho um encontro  tarde e no posso faz-la esperar. Beijei-lhe a mo e ela foi embora. Era uma senhora estranha. Mas, se tinha o amor 
de Vida, com certeza era boa pessoa. O dia passou rpido, a tarde logo se fez chegar. Arrumei-me melhor, como nunca fazia. Era um encontro cerimonial com os pais 
de Vida. Quando l cheguei, eles j estavam me esperando. Tinha lhes falado da rvore e do tronco perto dela cado. Assim, foi fcil para eles encontrarem o lugar. 
Fiquei temeroso de Vida no aparecer e a iluso deles acabar. Cumprimentei o senhor e osculei o rosto da me de Vida. Eram to parecidas! Eram felicidades em minha 
vida! Ela me deu um abrao, dizendo ter chegado h pouco, e perguntou:
- Onde a esperaramos? Por onde ela ia passar?
- Como lhes falei, no tenho certeza de que hoje a encontrarei. Venho aqui todos os dias, mas nem todos os dias a vejo. Sentem-se, vamos esperar um pouco. Quando 
menos esperarmos, ela h de aparecer.
Em seus rostos eu via a ansiedade. Lembrei das palavras de Toninha. Estava com medo de decepcion-los e no acreditarem em mim, mas colocando a mo no peito e sentindo 
o leno... No precisava provar mais nada a ningum, a confirmao de que sempre a via estava juntinho do meu peito. Escutei um cavalgar. Meu corao disparou. Era 
Vida que vinha chegando e correndo ao meu encontro.
- Vida! - exclamei. - Estamos te esperando faz tempo! Ela, jogando-se em meus braos, fez expresso de surpresa e disse:
- Estamos quem? Voc e seu cavalo?
- No! - exclamei. - Trouxe duas pessoas comigo, voc no quer v-los? Esto sentados no tronco a esperando faz tempo.
- No lhe falei que no podia ser assim? - disse ela. - No fao mais parte de suas vidas, no posso mais ficar! Tenho de ir embora, volto outro dia. E, assim dizendo, 
se foi a galope. Eu fiquei ali parado, espantado. No sabia o que iria dizer aos seus pais quando me virei para encontr-los. Estavam a poucos passos de minhas costas.
- Voc estava falando com ela? - perguntaram - Mas no conseguimos v-la. S escutvamos suas palavras.
A me de Vida chorava, dizendo:
- Ela no quis falar conosco. Eu sei que ela estava ali, pude senti-la em meu peito. No sei por que no pudemos v-la, mas no queremos atrapalh-lo. Se Vida ainda 
tem com voc bons momentos, respeitaremos e no mais voltaremos. Mas com a condio de que v sempre a nossa casa, para nos levar notcias dela.
Dei-lhe um beijo, falei com o senhor e eles se foram, numa pequena charrete que estava a seu dispor. Fiquei ali acenando. No mais me contive e comecei a chorar. 
Meu Deus! Estava apaixonado por um esprito. Seria melhor de esta Terra me levar, assim poderamos ficar juntos!
- Nem pense nisso!
Escutei uma voz me dizer. Vir-me-ei e, com espanto, vi Vida. No a tinha ouvido chegar.
- Voc tinha ido embora. Pensei que nunca mais fosse voltar.
- No fui embora, apenas dei a volta. Sabia quem estava com voc, mas no podia falar com eles. Ficar, naquele momento, de nada iria adiantar. Se eu lhes falasse 
por seu intermdio, ficariam mais tristes. E a saudade deles, com certeza, aumentaria. Eu os amei muito, quando aqui estive. Agora sabes de tudo. Sabes que vivo 
agora s em esprito. Tenho permisso para minhas caminhadas, mas no sabia que por esses caminhos ia encontrar um prncipe encantado.
- Prncipe encantado, eu? Voc est brincando, sou um mero ajudante de ferreiro que se apaixonou sem ter direito de escolha. Sou escravo de meu corao, e ele fez 
sua escolha. Vida, meu temor  que voc me deixe, por isso tive tal pensamento. Se voc agora  s esprito, como posso a acompanhar, se nossos caminhos no so 
os mesmos? Todos da cidade sabiam de tudo. Que bom que no quiseram acreditar em mim, assim me sinto livre para continuar a encontr-la. Eu fui at sua casa, mas 
acho que no preciso lhe contar. Voc, com certeza, sabe de tudo.
- No tanto quanto voc imagina - ela disse. - No entro mais naquela casa. Sinto-os em pensamento. Suas rezas so meu alento. Por muito tempo, senti saudades, chorava 
muito... Queria voltar para eles... Queria ter meus irmos por perto e minha ama a me proteger. Mas, com o tempo e a dedicao daqueles que me ampararam, fui compreendendo 
que terminara o tempo de vida nesta Terra. Mas o meu sentimento por eles e o deles por mim continuaria. Esse amor todo no poderia se tornar um nada! Igual s flores 
que aqui distribua. Fao agora em outro lugar. S que agora levando a paz de esprito, e no para embelezar. Onde vivo existem vrios jardins, so cultivados com 
amor. As rosas recolhidas vo comigo quando caminho, levando aos que sofrem as palavras do Senhor. s vezes, o trabalho  muito! So tantos a chegar, e o sofrimento 
e o entendimento demora. S posso vir aqui quando as dores conseguir amenizar, mas era s para correr pelos campos, no sabia que o amor iria encontrar. J fui advertida 
por isso. Por isso, algumas vezes cheguei aqui triste. No poderia me relacionar com voc. Sou agora s esprito, mas quando estou com voc sinto como se ainda estivesse 
viva! No sei o que vai acontecer. Se vo me proibir de vir a essas paragens, mas, se compreenderem o quanto meu amor  sincero, talvez me dem a chance de continuar 
a v-lo. S tem uma pessoa que pode, alm de voc, comunicar-se comigo. Pode no me ver, mas em pensamento consegue conversar comigo. Toninha me conta tudo o que 
acontece, mas fiquei triste quando o aconselhou a se esquecer de mim. Sei que ela o estava resguardando e tambm a mim. Ela teme que tudo acabe em sofrimentos, mas 
tenho certeza de que no ser assim.
- Tambm vivo nessa certeza, Vida. No importa se terei de esperar pouco ou muito tempo, mas esperarei por toda a vida.
- Daniel, preste ateno! Meu tempo no  o seu tempo. Agora compreendo o que aconteceu quando voc disse que me esperou por um ano e eu me espantei. Para mim, s 
tinha se passado um dia, mas no foi o que aconteceu. No sei se voc ter a pacincia de me esperar e no me ver. Tenho medo de que minha ausncia me afaste de 
voc. Tem outras moas na cidade que podem fazer o que desejas. Casar na igrejinha e ter o filho que tanto almejas. Isso nunca ters comigo. Pense bem se vale  
pena vir ao meu encontro todos os dias. Se voc disser agora que est tudo terminado, continuarei a am-lo por toda a eternidade. Nunca vou querer-te mal. Voc foi 
uma apario em minhas caminhadas. Quando aqui vivi, tive vrios amores, mas diferentes do que sinto por voc. Amava meus pais, meus irmos, minha ama Toninha, meus 
animais, as flores e todos os que viviam na cidade, mas o que sinto por voc  como o sol da manh,  como a chuva caindo no corpo suado,  ouvir o cantar da passarada, 
 o badalar do sino da igreja, que acorda os fiis sobressaltados, mas traz nos acordes a melodia, como se dissesse: Deus est presente e te espera para orar. O 
que sinto por voc  maravilhoso! Mas no posso lhe pedir o sacrifcio de me esperar, se no sei por quanto tempo ainda poderei vir. No depende de mim. Ainda tenho 
muito que aprender, ficar do outro lado no  s um passeio.  ajudar os que precisam ajudar a si mesmo entendendo os erros desta vida vivida. Vou-me embora, fique 
com seus pensamentos. Procure Toninha e faa melhores esclarecimentos. Se puder, amanh estarei de volta, mas, se no vieres, saberei sua resposta. Assim dizendo 
foi-se em seu cavalo em disparada. Eu fiquei ali, parado, calado, sem reagir. Era um turbilho de acontecimentos. Quando eu pensava que tudo era um simples mistrio, 
que quando conseguisse desvend-lo tudo ficaria em paz, me vem essa incerteza no corao, esse aperto, de como conseguiria viver assim. Eu a amava, mas queria t-la 
em meus braos todos os dias. Queria uma casa arrumada e a correr pela casa muitos filhos. Sa dali e fui at a casa que estava construindo. V-la, para mim, era 
uma alegria. Cada madeira que comprava eu alisava com carinho. Eu queria que, quando estivesse acabada, o carinho que passava para cada tbua fizesse um isolante 
no ninho. Agora, olhando, tudo perdeu o significado. Nunca seria do amor, o ninho. Nunca poderia viver ali com minha amada! Fui para o meu quartinho, pois estava 
cansado. Como sempre, Jos colocou na mesa um prato de sopa a me esperar. Era calorosa a sua bondade. Na minha tristeza, nem vontade de tomar a sopa eu tinha. At 
pensava que era melhor deixar de me alimentar para ver o que acontecia. E isso aconteceu sem me dar conta.
No dia seguinte, estava eu no mesmo lugar esperando encontrar Vida, mas ela no apareceu. Entretanto, como ela mesma disse, nem sempre poderia ali estar. E, se eu 
quisesse continuar a v-la, tinha de aceitar. Fiquei muito tempo ali sentado, veio  chuva e minha roupa estava em meu corpo colada. Nem me dei conta, peguei meu 
cavalo e fui sem trotar de volta  cidade. Sentia-me meio esquisito. O corpo fraquejava, parecia estar febril, e ainda com toda aquela roupa molhada. Troquei-me 
e fui me deitar. A comida ficava esquecida no prato. Acordei com um pano em minha testa, gritei:
- Vida! Que bom que ests aqui comigo!
Mas no era ela que ali estava, era Toninha que de mim cuidava.
- Est melhor? - perguntou. - J faz quatro dias que aqui ests. A febre no queria deix-lo. Lembrei at de minha menina, que eu cuidei, quando a febre a consumia.
- Estou melhor - respondi. - A senhora falou quatro dias? E o meu servio? E Vida? Como foi que me acharam?
- Deixe de tantas perguntas - disse ela - ests fraco... Tome esse caldo quente que, aos poucos, vai reanim-lo. E, se voc fizer um esforo e tom-lo todo, vou 
lhe contando quem me trouxe e como o soube doente.
- Por favor, me diga se sabes de Vida!
- Foi ela quem aqui me trouxe. Estava dormindo, acordei assustada com algum me falando para vir at sua casa. Voc estava precisando de ajuda, estava doente e ningum 
a lhe cuidar. Estava frio e chovendo. Peguei meu xale e fui at a casa do ferreiro, pois aqui j tinha estado, mas no consegui entrar. Estava tudo fechado. Jos, 
a princpio, no quis acreditar, mas lhe disse que, se no viesse abrir a ferraria, quando amanhecesse, talvez fosse tarde. Quando aqui chegamos, voc ardia em febre. 
O prato sobre a mesa indicava que voc nada comera, e os restos que Jos viu na lata do lixo indicavam que pouco voc estava comendo. Fui buscar umas ervas e Jos 
me ajudou a administrar. Fiquei a lhe colocar as compressas, no deixando a febre aumentar. Mas, graas a Deus e a Vida, pude socorr-lo a tempo.
Agradeci a bondade dela para comigo. Fechei os olhos sonolento, ainda me sentia fraco. Adormeci e, quando meus olhos abri, tive uma grande surpresa, quem estava 
do meu lado era o padre. Sua fisionomia demonstrava tristeza.
- O senhor aqui? - perguntei. - J sei, veio me ministrar extrema-uno, mas no fique triste por mim. Ir embora desta Terra, para mim, ser uma bno!
- Nada disso! - respondeu-me. - Estou aqui porque o soube doente, mas trate de se levantar logo dessa cama que teremos uma longa conversa.
- Padre, se vais me falar de Vida, no  mais preciso, esquea o assunto. Foi tudo imaginao minha.
- No foi o que me contaram. Andam falando por a que voc vai l para os campos ver Vida em encontro marcado.
- O senhor acreditou? Como posso me encontrar com Vida, se faz trs anos que ela est morta!
O padre, enxugando o suor da testa, deu um enorme suspiro e disse:
- Fiquei preocupado  toa. Esse povo no sabe mesmo o que diz, mas, quando estiveres melhor, passe l na igrejinha, se no for para falar comigo, que seja para orar 
um pouquinho.
Pedi sua bno e ele foi embora. Ele estava aliviado e eu estava com medo. O que aconteceria se eu lhe contasse meu segredo? Toninha sentou-se ao meu lado e disse:
- Saiu-se muito bem! Se confirmasse tudo ao padre, que tens  tarde Vida ao seu lado, a histria seria diferente. Para ele, quem parte no volta. E quem tem vises 
est possudo. No tem ele entendimento de que s morre a matria, o esprito continua vivo, mas o contato que voc tem, nem eu tenho explicao para isso.
- Deixe isso para l! - disse - ele j se foi. Eu no me importo com o que pensem, mas tenho de que preservar Vida. Foi o que ela pediu e eu agora compreendido. 
No sei como vou viver daqui para frente. Tudo o que ambicionei um dia agora no tem mais importncia. Vou acabar de construir a casa e gostaria que voc ficasse 
com ela. Voc falou que mora com os pais de Vida, e agora tens a oportunidade de ter sua prpria casa.
- No, senhor! - disse ela. - Vais continuar a constru-la e vais para l morar, mas, se fizeres gosto, essa velha ama ir morar com voc. Assim poderei lhe cuidar. 
Sinto em voc a presena de minha menina, e cuidar de voc ser como se cuidasse dela.
Dei-lhe um abrao, dizendo:
- Toninha, suas palavras me trazem um pouco de esperana. Mesmo no tendo Vida comigo a morar, terei voc, que fez parte da vida dela. Construirei uma lareira, colocarei 
em frente dois bons assentos para nossas longas horas de conversas. O que eu no mais queria agora terei toda a pressa em terminar. E a decorao ficar em suas 
mos. Sabia que construiria a casa. Mas pensava que Vida a fosse decorar e, como isso  impossvel, deixo em suas mos o aconchego do nosso lar. Faa a lista do 
que for preciso e, assim, aos poucos, vou comprar. Voc me deixou animado! J at me sinto forte para comear no servio.
- Nada disso! - Ela disse. Tens ainda de repousar, para no ter uma recada, mas, j que melhoraste, vou at em casa, que meus patres querem notcias suas. Vou 
aproveitar para avis-los que, quando para a casa nova tu mudares, serei sua ama.
- No quero que seja assim! - disse para ela. - Quero que eu e voc formemos uma famlia. No  como servial que a quero morando comigo.
Ela beijou minha testa e foi embora sorrindo. Exclamou, quando j estava saindo.
- Voc  muito parecido com Vida!
A fui eu que comecei a rir. E, assim, fui devagar me levantando para viver, tinha agora um bom motivo. Quando no pudesse encontrar Vida, teria a companhia daquela 
que tinha muito para contar sobre ela. Fui at a janela, respirei fundo, escutei um barulho e fui at a serraria. Jos j tinha pego no trabalho.
- Jos, no faa todo o servio, deixe para mim um pouquinho, ou voc me quer na cama, como se j fosse um moribundo?
Jos se achegou e me deu um abrao.
- Filho, fiquei preocupado. A danada da febre no cedia. Pensei que tu fosses te juntar a Vida. No queria que isso acontecesse contigo!
- Por um momento, Jos, era isso que eu queria, mas j pensou se minha Vida aqui terminasse e para onde eu fosse no a encontrasse? Ela me falou de vrios caminhos. 
Toninha tambm me falou sobre isso, ento  melhor eu me cuidar e deixar as coisas acontecer por si ss. Sabes a casa? Queria termin-la o mais rpido possvel. 
Terei comigo uma boa companhia, e isso me d foras para continuar construindo. Mas preciso de um ajudante. Ser que me indicarias algum?
- Daniel, eu ia mesmo perguntar se querias ajuda, mas antes me fales quem  que vai morar contigo. No me digas que ests variando, pensando ser Vida!
- No, meu bom amigo. Toninha se ofereceu para morar comigo, assim no ficarei sozinho e terei algum que cuide de mim.
- Mas ela, depois de tanto tempo, vai abandonar seus patres? Desde que a conheo,  l que vive. Tens certeza do que dizes?
- Ela mesma se ofereceu, depois que eu disse que queria que ela ficasse com a casa, porque no a queria mais, assim ela teria sua prpria moradia. Pois eu pensava 
que sem Vida no fazia sentido viver naquela casa, mas agora  diferente. Vou t-la como companhia, todas as noites e naquelas noites frias de inverno. Com ela formarei 
uma famlia. Ao ter algum comigo que teve muito contato com Vida, ser como se ela tambm completasse o elo da famlia.
O tempo passou rpido. Eu me dividia entre o trabalho, as tardes para esperar Vida e a construo da minha casinha at tarde da noite. Jos me ajudava nos fins de 
semana. At Toninha ajudava. Ela nos levava alimentos, que colocava numa cesta. Tudo com muito carinho preparado.

CAPTULO 2
Assim o tempo foi passando...


Assim se passaram trs anos. Na casa, eu j morava. Toninha, como me prometeu, foi morar comigo. Dedicou-se a cuidar de mim e da casa. Colocou umas cortinas floridas 
na janela e vasos com plantas por todo lado. A casa ficava num lugar aconchegante, era verde para todo lado. E, como se no bastasse, Toninha tambm enchia de verde 
nossa casa. Isso tudo eu partilhava com Vida. Agora a via esporadicamente, mas, quando por aqueles caminhos dos nossos encontros cavalgava, era como se estivesse 
com ela do meu lado. s vezes, como sempre fazia, ficava horas a ler um livro, mas quando a tarde descia e eu sabia que ela no vinha, ia embora sem entristecer. 
Pois foi o que aceitei, contudo as noites eram reconfortantes. Constru a tal lareira e coloquei as duas poltronas. Ali, eu e Toninha ficvamos a conversar at o 
sono chegar. A ela se recolhia e eu ainda ficava ali a sonhar, vendo a madeira no fogo crepitar. Ampliei o retrato de Vida e o coloquei em cima da lareira. Todos 
os dias ali colocava uma flor. Era minha maneira de lhe dar boa-noite, e assim fomos vivendo. Na cidade, nada mudava. O proco sempre apressado, mas sabendo de tudo, 
nada lhe escapava. De vez em quando, visitava os pais de Vida. Contava-lhes os acontecimentos e como estava levando minha vida. Era agradecido por eles terem permitido 
que Toninha morasse comigo. Se no fosse ela, no sei o que teria acontecido. Numa tarde de domingo, estvamos eu e Toninha na varanda a conversar, quando veio em 
nossa direo uma menina que estava a chorar. Levantei-me rpido, alguma coisa tinha acontecido! Como foi parar ali aquela menina? Parecia estar sozinha. Fui at 
ela, peguei-a pela mo e a levei at Toninha.
- O que aconteceu? - perguntou ela. - Como chegou at aqui sozinha?
- A moa do cavalo disse que aqui encontraria abrigo. Disse que vocs eram boas pessoas e iriam cuidar de mim.
- Como era a moa do cavalo? - perguntei j com o corao disparado.
- Era muito bonita, usava um chapu, tinha cabelos compridos e os olhos pareciam como vidro - disse a menina.
- Foi Vida quem nos mandou a menina, mas por que ela o faria? - disse a Toninha.
Peguei a menina, a fiz sentar e pedi que me contasse tudinho. O que aconteceu para ela querer nossa ajuda? Onde estavam seus pais, que, com certeza, j estariam 
preocupados? A menina desandou a chorar dizendo no ter para onde ir. Sua me a abandonara, foi embora para longe; no a tinha levado por no ter dinheiro para isso. 
Deixou-a perto da cidade e mandou que procurasse o proco na igreja. Ela tinha certeza de que ele encontraria um bom lugar para ela morar.
- Mas, quando ela me deixou, depois de um tempo, me afastei da cidade - disse a menina. - Queria ir ao seu encontro. No queria morar com estranhos, e foi assim 
que encontrei a moa do cavalo.
A porta da sala estava aberta. A menina ficou ali parada e nos apontou.
- Foi aquela moa! A que est no retrato! Foi ela que me ensinou o caminho para que achasse sua casa.
Eu e Toninha nos olhamos e falamos no mesmo momento:
- Entre, que vamos cuidar de voc. Se Vida a mandou,  para cuidarmos de voc com muito amor.
Toninha preparou-lhe uma refeio. A menina estava esfomeada. Enquanto isso, preparei-lhe a cama, pois devia estar muito cansada. Depois de comer, foi logo dormir. 
Parecia um anjinho. Como pode to pequena criatura ser abandonada? Como podem colocar no mundo e depois deix-la no abandono, mandando se cuidar sozinha? Pois, se 
ela no encontrasse o padre, viveria nas ruas esmolando. Ficamos eu e Toninha a conversar sobre o que faramos. Levaramos o caso ao padre? Ou simplesmente a adotaramos? 
Toninha, de pronto, respondeu:
- Se voc permitir, cuidarei dela e, enquanto ela quiser, far parte de nossa famlia.
E assim constru mais um quarto. Ele foi todo decorado para Alice. Era uma menina alegre, esperta. Deu novo brilho s nossas vidas. Depois disso, quando encontrei 
Vida, ela agradeceu por termos atendido a seu pedido.
- Ela s lhes trar alegria - disse ela. - E assim, Daniel, ests formando aquela famlia que tanto querias.
As tardes em que eu encontrava Vida eram maravilhosas, mas ficou sendo segredo de famlia. Jos contribua para isso. Era assunto que, para ele, tinha morrido. Ele 
ficou encantado com Alice. Na cidade, todos a queriam conhecer. Disse-lhes que era parente afastada. Assim, no faziam muitas perguntas. S o padre sabia o que tinha 
acontecido. Se, por acaso, sua me voltasse, onde Alice estava j se sabia. Ela tinha algo em comum com Vida. Adorava cavalos e cuidava das flores com o maior zelo. 
Alice contava sete anos e j tinha o abandono marcado em sua vida. De sua me nunca mais falou. Pai, irmos, nada disso nos disse que tinha. E, como era uma histria 
doda, dissemos que tudo esquecesse e comeasse nova vida. Um dia, eu estava em casa a almoar. Agora, antes de ir aos encontros, Toninha tinha me feito prometer 
que iria antes passar em casa. Escutei umas risadas e percebi que Alice no estava sozinha, com ela havia dois meninos, um mais ou menos do seu tamanho, o outro 
bem menorzinho.
- O que est acontecendo? - perguntei.
O menor se escondeu, como se tivesse ficado com medo.
- Eles esto perdidos - disse Alice. - Dizem que a me morreu e eles ficaram no mundo sozinhos. Ento, quando eles estavam bebendo gua no riacho, a mesma moa que 
encontrei ensinou a eles o caminho.
Chamei Toninha, que estava nas tarefas de casa, dizendo:
- Prepare mais comida, que Vida acabou de nos mandar mais dois hspedes!
Toninha chegou apressada e se emocionou quando lhe narrei a histria dos dois irmos.
- Vamos, entrem - ela disse - vamos lavar as mos, que um bom prato de sopa os espera.
Foi a primeira vez que os vi sorrir, e o pequenininho, agora j parecendo sem medo, deu a mo a Alice, como se esperasse que ela o fosse conduzir. Sentaram-se  
mesa e tomaram a sopa com sofreguido.
- Podemos morar aqui? - perguntou o mais velho.
- Podemos, sim - disse o mais novo, sem esperar. - A moa do chapu disse que aqui teramos uma nova famlia. No  verdade, moo? - perguntou ele com muita graa.
E assim rimos todos, era uma linda tarde ensolarada! Fomos falar com o padre. Na opinio dele, se algum os procurasse, saberia onde estavam e, com certeza, bem 
cuidados. Disse ele que mais tarde passaria na minha casa, queria conhecer os dois irmozinhos. Despedi-me dizendo ter muita coisa para fazer. A famlia estava aumentando, 
e eu teria de dar conta. Fui at a casa dos meus sogros (era assim que eu considerava os pais de Vida). Tinha visto jogada no fundo da fazenda uma charrete, e eu 
tinha ideia para ela. Sempre que l eu ia, era uma festa. Colocavam logo a mesa do caf rpido para eu no ir embora. Sabiam que, assim, entabularamos conversa. 
Contei-lhes que tinha aumentado a famlia. Que Vida tinha nos mandado mais dois pequeninos. Eles ficaram felizes e perguntaram se eu no precisava de ajuda. A despesa 
da casa aumentaria e o meu ganho no era muito. Agradeci dizendo que toda ajuda era bem-vinda. Aproveitei e perguntei se ainda queriam a charrete abandonada.
- Ela no presta para mais nada, meu filho - disse o pai de Vida - est ali jogada por no ter mais serventia.
- Posso consert-la - disse. - Toninha vai precisar de um veculo para sair com tantas crianas.
- Podes levar, tomara que tenha conserto. Muito nos serviu, mas agora velha, quebrada, est ali a se acabar no tempo. Vou ajud-lo a amarr-la em seu cavalo. Com 
um pouco de esforo e trotando bem devagar, chegar a seu destino.
Agradeci ao pai de Vida pela fora que estava me dando. Como minha vida mudou! Tinha amigos e uma famlia formada. No esquecendo que ainda via Vida, mesmo que fosse 
por espaos longos, alternados. Mas, s vezes, nos vinham surpresas, como as crianas que ela nos mandava. Levei a charrete at a ferraria de Jos. Parecia que ia 
desmontar. s vezes, tinha de parar para catar alguns pedaos que caam na estrada. Quando Jos me viu, fez cara de espanto.
- O que pensas fazer com isso? Est acabada, no acho que tenha conserto!
- Jos - disse - tudo nesta vida tem conserto. Imagina se ns, que somos ferreiros, no daremos jeito numa simples charrete!
E lhe contei dos meninos e por que precisaria de consert-la o mais rpido possvel. Jos logo ficou entusiasmado. Disse que entre um servio e outro, logo, logo 
ela estaria pronta. E uma semana depois, ela estava como se fosse nova. S faltava forrar o assento, mas, para comprar material, o dinheiro era pouco. Fazendo uma 
busca em minha casa, achei um pedao do que sobrou da cortina. No queria perguntar nada a Toninha. Queria lhe fazer surpresa. Ficou uma maravilha! O estampado no 
banco deu alegria  charrete. Agora s faltava quem a puxasse. Meu cavalo no poderia ficar preso a esse servio. Precisava dele todos os dias, quando ia ao encontro 
com Vida, mas, para minha surpresa, chegou o padre  ferraria puxando as rdeas de um burrico. Foi ele dizendo:
- Este animal foi doado  igreja, mas para voc ter mais serventia. Ter de transportar as crianas quando vierem  escola ou  missa.
- Como o senhor sabia que eu precisaria do burrico?
- A me de Vida esteve na igreja e me falou da charrete. Andei espiando o conserto quando voc no estava aqui. E tinha certeza de que estaria pronta hoje.
- Muito obrigado, padre! - exclamei beijando suas mos - agradeo pelas crianas. E que o bom Deus lhe d muita proteo!
Ele me entregou as rdeas e foi-se embora, emocionado. Como sempre, acenando com a mo e dizendo:
- Estou muito apressado, mas, se precisares de ajuda, sabes onde me encontrar.
Eu estava feliz como uma criana! Dei um forte abrao em Jos e fui atrelar o burrico na charrete. Ficou uma beleza! Toninha teria uma grande surpresa! Amarrei meu 
cavalo atrs da charrete e fui embora para casa, feliz, cantarolando. Quando as crianas me viram chegar, fizeram uma festa! Gritavam: Pai! Pai!  nossa?...  nossa?... 
Pai... No consegui dizer uma palavra. Eles acabavam de me adotar, e eu estava emocionado. Toninha, com aquela barulheira toda, assistia a tudo na porta de casa. 
Enxugava com a ponta do avental as lgrimas que escorriam em seu rosto.
- Filho! Como conseguiu? No temos dinheiro para isso. Como ir pagar? Seu custo deve ter sido alto.
- Lembra da charrete abandonada na fazenda dos pais de Vida?  essa!
- No pode ser! - ela disse - aquela estava toda quebrada, fora abandonada por no poder ser mais usada.
- Venha perto, que lhe mostro uma coisa. Mostrei-lhe, ento, o assento florido igual s cortinas da casa.
Toninha me abraou sorrindo e disse:
- Voc  especial, Daniel! Por isso, minha Vida por voc, mesmo em esprito, se apaixonou.
Tirei o avental de Toninha, coloquei as crianas na charrete e fomos dar um longo passeio. Elas ficaram alvoroadas. Cantavam, riam e, de vez em quando, uma delas 
vinha em meu pescoo e me abraava. "Meu Deus! Obrigado por tudo isso!" pensava eu. H pouco tempo eu queria desistir da vida, e a vida tem me proporcionado to 
bons momentos que me entristeo quando penso nisso. A casa era uma alegria s. Meu pequenininho se chamava Pedro e o maior Joo. Formvamos uma linda famlia! Mas 
eu no sabia que no pararia a. Certa manh, ainda estava eu deitado. Era domingo e eu aproveitava para poder descansar um pouco, mas a casa j era toda movimento. 
Escutava as vozes das crianas e Toninha, s vezes, em resmungos lhes ensinando alguma coisa certa. Ento, escutei algum bater palmas e dizer:
- O de casa! - a voz parecia com a do padre. Levantei rpido e fui ver o que era. Minha turma l fora j estava e, no meio deles, mais trs crianas aumentavam a 
baguna.
- Daniel, precisamos conversar! - foi logo dizendo o padre. Pedi que entrasse em casa e indiquei-lhe uma cadeira para sentar.
- Vou logo entrando no assunto - disse ele - sei que j tens trs crianas para cuidar, mas esses trs me apareceram na igreja dizendo que seus pais os abandonaram. 
Moravam nas imediaes da cidade, mas, faltando-lhes o que comer, seu pai foi procurar trabalho em outra cidade e nunca mais conseguiram v-lo. Sua me, desesperada, 
sem ter como mant-los, achou melhor entreg-los para que no mais passassem fome. E, dizem as crianas, que ela foi embora  procura do marido. No sei o que fao 
com elas. Ser que sua moradia abrigaria mais trs?
Chamei Toninha, que tinha ficado l fora com as crianas. Fi-la sentar e perguntei:
- Toninha, ser que nossa casa tem condies de abrigar mais trs?
- Se at aqui elas chegaram... - ela respondeu -  porque aqui encontraro um lar, e Deus no nos desamparar. Nos dar condies de cuidarmos deles todos! 
Fui at ela, dei-lhe um forte abrao, pois ficar com as crianas tambm dependia dela. Era ela que, na maior parte do tempo, tomava conta deles. Alice era uma alegria 
s. Foi logo ajeitando um lugar para as crianas, parecia uma mocinha. At tomar conta da casa ela j sabia. Os trs eram meninos, de idade escadinha. O pior  que 
eles vinham sem bagagem, e isso estava me pondo aflito. Fui dar a Jos as trs novas notcias. Ele ficou a gargalhar.
- No era isso que querias! - disse ele.
- Era, mas estou ficando preocupado. So muitas bocas a comer. Tenho medo de no dar conta e de no conseguir suprir tudo o que precisarem.
- Aproveita o espao que tens nos arredores de tua casa e comece a plantar. Ensine os meninos com faz-lo, e para eles ser como se fosse brincar. E toda folga que 
eu tiver, l estarei para te ajudar.
- Jos, voc  um amigo! Sempre que te procuro com um problema, logo voc tem a soluo, mas ainda no lhe falei tudo. As crianas vieram sem nada. Nada tm para 
vestir, e nos ps nem um calado.
- V para casa - disse ele - cuide deles e deixe o resto comigo. Minha esposa tem muitas amigas, e essas amigas tm muitos filhos.
No fui para casa, fui ao encontro de Vida, talvez hoje a encontrasse. Devia saber dos meninos e, assim pensando, cheguei ao local do encontro. Fiquei ali sentado 
a pensar em como a famlia aumentara. Teria de aumentar a casa. Mais quartos teria de construir.
- Tudo vais conseguir! - escutei ela dizer.
Quando me virei, estava ela em seu cavalo, linda, sorridente.
- Estava a esperar - disse a ela - mas como sabes que conseguirei o que quero? Alm de uma princesa, tambm s adivinha?
- No sou nenhum dos dois, apenas algum que confia na bondade, na fora de vontade, na determinao de algum que conheci um dia.
- Vida, estou preocupado, a famlia cresceu muito. O que ganho no meu trabalho no  o suficiente para abastecer a casa de alimentos. Jos me sugeriu plantao, 
mas isso leva um pouco de tempo, e a fome das crianas no espera.
- Daniel, no desanimes agora. Tudo vai dar certo. Ters tudo de que precisas na hora certa, e podes ir mais adiante com o que Jos sugeriu. Plante mais do que o 
necessrio e oferea na cidade, sempre vai haver quem compre.
- Eu a amo muito! - exclamei. - Preciso de voc como do ar que respiro. Tendo voc, cuidarei de todas as crianas do mundo!
- Sua bondade me cativa, Daniel! Graas ao meu bom Deus, me permitiram continuar a v-lo. A nossa unio transformou-se numa misso. Agora tenho de ir embora. Quando 
as crianas perguntarem por mim, diga que estou sempre viajando, mas nunca deixarei de fazer parte daquela casa.
Beijei-lhe as mos e disse:
- Tem uma que parece com voc. No em aparncia, mas no gosto pela natureza.
Ela riu e foi embora. Era mais uma tarde como tantas outras que me dava nimo para continuar vivendo. Cheguei em casa e j estavam todos deitados. Toninha, sentada 
perto da lareira, como sempre fazia, me esperava para conversarmos.
- Demorou a chegar... - disse ela.
-  porque hoje Vida apareceu e ficamos a falar sobre o que est acontecendo. Falei de minha preocupao em no poder lhes dar o que precisam. Tanto ela quanto Jos 
deram soluo para isso. Sabes a continuao de nossa terra? Vou fazer um cercado, at chegar s bandas do arvoredo. Plantarei tudo que puder. Usaremos para nosso 
sustento e venderemos o restante, mas enquanto isso no d frutos, estou preocupado, no sei o que faremos. Sei que voc faz milagres na cozinha. s uma fada! No 
sei como consegues multiplicar os alimentos.
- Daniel! Venha at a cozinha que lhe mostrarei uma coisa.
Pegou minha mo e me carregou at l, e qual no foi minha surpresa! A despensa estava abastecida. Tinha alimentos de todo tipo.
- Como voc conseguiu? No tnhamos dinheiro para isso!
- Foi o padre quem trouxe, acompanhado dos pais de Vida. Eles ficaram aqui muito tempo e disseram que as crianas eram uma bno em nossas vidas e eles os consideram 
como netos! Viriam sempre trazer suprimentos. Que voc trabalhasse sem preocupaes que nada faltaria a eles!
Comecei a chorar. Estava muito emocionado, minha preocupao acabara mais rpido do que eu pensava. Abracei minha boa Toninha, era um anjo em minha vida. Era me, 
companheira, amiga de todas as horas. No saberia como fazer sem ela. Fomos nos recolher, pois logo amanheceria. Tinha muitas coisas a tratar. Teria de ver se conseguia 
vaga na escola para os meus filhos. O amanhecer era uma alegria, criana cantando, criana correndo, criana me chamando para ver o dia nascendo. s vezes, eu reclamava:
- Esperem um pouco! Ainda  cedo, voltem para a cama e durmam mais um pouco.
Mas era intil, eles eram, j cedo, todos energia. O jeito era levantar e comear logo a labuta. O cheirinho de caf percorria toda a casa. As canequinhas na mesa 
indicavam o quanto a famlia aumentara. Fui at a janela e agradeci por tudo aquilo. Prometi que todos os domingos, bem cedo, os levaria para orar na igrejinha. 
Fui trabalhar animado! As crianas me enchiam de energia. Meu servio no poderia ficar atrasado, pois meu pagamento dependia disso, e de minhas tardes livres nunca 
poderia abrir mo, era parte importante de minha vida. Cheguei  ferraria bem antes de Jos. Quando ele chegou, foi gritando:
- Estou precisando de ajuda! Ser que o pai de muitos filhos teria um tempo para mim?
Pensei que ele estivesse brigando, mas me abraou e deu um largo sorriso.
- Venha - disse ele - minha esposa conseguiu mais do que esperava. E me mostrou no canto da ferraria um monte de tralhas.
- Nossa! De onde saiu tudo isso? - perguntei.
- So coletas de minha esposa, espero que voc faa bom proveito.
Fui mexer na pilha e vi que ali tinha de tudo: material escolar, roupas de todos os tamanhos, panela de barro e at um filtro de barro ela conseguiu. Pedi licena 
a Jos, queria j levar tudo para Toninha. Os trs meninos que chegaram nem roupa para trocar tinham. Toninha improvisou alguma coisa, pegando o que de nossos dois 
outros filhos j havia l em casa, mas era coisa pouca e ficava difcil dividir entre os cinco. A menina j chegou com sua trouxinha. Fiz um embrulho de tudo, aproveitando 
uns lenis que tinham doado, e coloquei uma trouxa de cada lado do cavalo. Fui para casa e, quando entreguei tudo a eles, foi uma festa! Parecia at que eram embrulhos 
de presente. Dei um abrao em Toninha, nem precisei falar nada, nossos olhos conversavam, substituindo palavras. Voltei ao trabalho, no poderia abusar da boa vontade 
de Jos. Dependia de nossos servios o ganho no final do ms. Tudo estava correndo melhor que eu esperava. Agora era conseguir as sementes para comear a fazer o 
roado. No domingo, comecei a preparar a terra. Fiz uma enxadinha para cada criana, mas elas se distraam em fazer buracos, morros com passagem e at castelos, 
que diziam que era para Alice morar. Tudo em meio a muita alegria! Como tanta alegria podia ter sido abandonada? Se quem cuidava deles os tivesse acompanhado, com 
certeza tambm teria sua morada. Mas agora eram meus filhos e eu estava orgulhoso disso, e mais nimo tinha para afofar a terra para conseguir o que me propunha. 
Estava trabalhando distrado, s vezes alguma criana pedia minha ateno, e de pronto eu largava tudo. Queria ser um pai constante. Quando chegou o padre com vrios 
acompanhantes, foi logo dizendo:
- Daniel, trouxe-lhe ajuda. Eles trouxeram sementes e adubo.
- Como o senhor sabia o que eu estava fazendo?
- Aqui na cidade, mesmo que seja nos arredores, vai tudo parar nos meus ouvidos. Acho que so notcias por Deus endereadas para eu poder trazer a ajuda precisa.
Todos comearam a rir, o proco era uma boa pessoa. Tanto tem me ajudado e, no princpio, quando cheguei  cidade, pensava que ele no se importava muito com minha 
pessoa. Mas no devemos julgar ningum, a vida nos surpreende. Trabalhamos at tarde. Toninha providenciou um almoo e colocamos fora de casa uma imensa tbua que 
nos serviu de mesa. O padre fez a refeio conosco, pois ele tinha ficado e ensinava as primeiras oraes s crianas. Eu era um sujeito afortunado. A vida estava 
me dando mais do que merecia. Enquanto comamos, entabulvamos conversa. Um dos homens, que parecia ser o mais velho de todos, disse:
- Daniel, desculpe minha intromisso, mas, com tantas crianas, no  melhor ampliar sua casa?
- Bem que gostaria - respondi - mas o que ganho  pouco e, no momento, no posso comprar material para isso.
- Padre - disse ele - no poderamos fazer uma quermesse? As mulheres se encarregariam das comilanas e ns faramos o refresco, e alguns trabalhos artesanais tambm 
poderiam ser vendidos. Acho que daria para arrecadar um pouco para a igreja e para ampliar a casinha de Daniel.
- tima ideia! - exclamou o padre. - Estou mesmo precisando de repor uns trocados no cofre e Daniel precisa de mais espao para os seus filhos.
E assim ficou marcado que dali a dois domingos haveria a festa na igrejinha. Na prxima missa, ele convocaria seus fiis. Era para fins justssimos a tal quermesse. 
Estvamos todos cansados. Tinha sido um dia atarefado, mas com bons frutos a ter. Toninha deu banho nas crianas, alimentou-as e colocou-as para dormir. Ento chegava 
aquela hora em que ficvamos um ao lado do outro, em frente  lareira, com o retrato de Vida, como se estivesse tambm participando da conversa. Toninha estava cansada, 
mas feliz! O dia tinha sido proveitoso. As crianas j se adaptando umas s outras e Alice tomando conta de tudo. Ela era maravilhosa, parecia ter mais idade do 
que disse que tinha. Trazia o quartinho organizado e ainda tomava conta dos pequeninos. Joo era o mais arteiro, mas ao mesmo tempo nos cativava pelo sorriso sincero.
- Daniel - disse Toninha - amanh cedo vou com voc  cidade ver escola para os meninos. Enquanto voc trabalha, vou vendo se arranjo escola e, se conseguir algo, 
chamo-o na ferraria para voc matricul-los. J estamos no meio do ano, no sei se vo aceit-los, at porque no temos documentos para isso.
- Meu Deus! - exclamou Daniel. - No tinha pensado nisso! Pensei que ser pai era s tomar conta das crianas. Estava esquecendo da educao em escola, mas, se no 
os aceitarem por falta de documentos, irei falar com o proco.
- Tambm tem as caminhas... - disse Toninha. - Esto a dormir, um para cada lado, mas, se tiverem um sono mais pesado, com um simples esbarro, com certeza, amanhecero 
no cho. As camas so poucas. Precisamos dar um jeito de arrumar outras tantas.
- Vai ser difcil - disse - mas no  impossvel. Falarei amanh com Jos e, de repente, ns mesmos, com a madeira que h no antigo quartinho que eu dormia, aos 
poucos, devagarinho, entre um servio e outro, poderemos fazer. Sabe, Toninha, essas crianas so a razo de minha vida. Foram chegando aos poucos e, devagarinho, 
tomando conta de tudo, mas agradeo todos os dias por ter voc ao meu lado. Sem voc, com certeza, eu no conseguiria.
Toninha enxugou os olhos, emocionada. Eu sabia do sentimento dela por mim, e esses momentos, com ns dois ali sentados, me davam a chance de lhe mostrar o que sentia. 
Ela levantou e, me abraando, disse:
- Venha, vamos descansar. As crianas acordam com as galinhas. A, ento, ningum consegue mais dormir nesta casa.
E assim, rindo os dois, fomos nos recolher. Agradecidos por mais um dia exaustivo. Acordei cedo, arrumei a charrete e aprontei tudo para Toninha ir comigo  cidade. 
Dentro da casa era uma farra. Parecia uma festa, mas era s eles se arrumando para irem at a cidade. Acomodei-os um a um. Joo sempre queria ir na frente, falava 
que sabia de tudo e a charrete guiaria. A comeava a confuso. Todos queriam ter o mesmo direito, mas Toninha era sbia e dizia que aquela charrete com banco florido 
s ela guiava. Conseguimos, com a ajuda do padre, colocar as crianas na escola. Primeiro eles dificultaram, pois no tnhamos documentos, mas o padre se responsabilizara 
e sua palavra era mais que uma certido de nascimento.
Ento ele props que no dia da quermesse batizasse todos eles. No entanto, se pensvamos que aqueles eram todos que tnhamos, estvamos muito enganados, pois mais 
crianas chegariam. Ns, que j tnhamos seis e pensvamos j ser um bom nmero, no sabamos que naquela tarde aumentaramos a famlia. Chegou uma senhora carregando 
trs crianas. Uma trazia no colo, essa ainda nem desmamara. Disse que, quando acordara, escutara um choro em sua porta. Pensou que fosse at um animal, mas depois 
escutou outras vozes. Ela chegou  janela e deparou com aquele quadro. Duas menininhas estavam atrapalhadas tomando conta de uma terceira. Abriu a porta e as mandou 
entrar. Perguntou se tinham se perdido e onde estavam seus pais. Disseram que moravam longe. Caminharam a noite toda. Sua me tinha morrido depois de dar  luz a 
terceira menina. O pai ainda tentou cuidar deles, mas era difcil, pois saa muito cedo para trabalhar. No tinha quem lhes fizesse comida e, da pequenina, era ainda 
mais difcil cuidar. Ele, ento, as levou at aquela casa e foi embora, dizendo que um dia voltaria, mas agora outra pessoa iria cuidar deles.
- Eu fiquei apavorada. Estou velha. Vivo minha vida isolada. Estou doente. Com certeza, no poderei cri-los, mas escutei falar que vocs aceitam crianas. Se puderem 
ficar com elas, eu prometo que todos os dias virei e darei a ajuda que for preciso.
Olhei para Toninha como se perguntasse: E agora? Como poderamos negar ajuda, mas como criaramos mais trs crianas?
Toninha, como resposta, foi logo pegando a pequenininha, acalentando-a em seus braos e carregando-a para dentro da casa.
- Entre - disse - ns ficaremos com elas e agradecemos a ajuda. Quando a senhora puder, venha, as portas esto sempre abertas.
Agora eram nove crianas. Alice no cabia em si de contentamento. Agora no seria a nica menina da casa. Toninha as alimentou e as prprias crianas se encarregaram 
de aloj-los. Quando a senhora foi embora, disse a Toninha:
- Agora a escadinha est completa. Temos um beb e vamos brindar a Deus este acontecimento.
A notcia correu depressa, logo estava o padre em minha casa. Queria conhecer as crianas e saber se j tinham sido batizadas. Como as crianas no tinham documento 
e de batizado nunca tinham ouvido falar, o padre foi logo dizendo:
- Temos mais trs a acrescentar.
E, como veio, foi embora, com a mo acenando e dizendo:
- Daniel, no se preocupe. Acomode-as, que ns o ajudaremos.
Nessa tarde fui at o local de encontro. Estava com saudades de Vida, tinha tanto para lhe contar. Fiquei sentado a ler, encostado na rvore, quando a escutei me 
chamar.
- Daniel! Venha at o riacho, e ento irs me encontrar.
Peguei meu cavalo e fui a galope. Quando l cheguei, encontrei Vida sentada rodeada de flores, parecia uma miragem. Corri ao seu encontro, abracei-a confessando 
que estava morrendo de saudades.
- No morra por to pouco. Agora tens nove bocas que precisam de alimento. E voc  o guardio. Todas elas agora dependem de voc.
- Vida, queria tanto lhe encontra-l! Preciso tanto de sua ajuda. Preciso da certeza de poder criar esses filhos mandados por Deus.
- Lembras de um tempo atrs que falaste em construir uma famlia? Deus te deu uma mozinha, lhe mandando as criancinhas.
E assim falando comeou a rir. Ela era maravilhosa e eu perdidamente apaixonado!
- Voc leva tudo na brincadeira. Eu estou preocupado de fato. Pensei em ter no mximo dois filhos, mas nove! No sei se serei capaz. Sou um simples ajudante de ferreiro, 
como vou dar sustento a essa grande famlia?
- Esqueceu de domingo? No ficaste s. Lembre: voc tem muitos amigos. Tenho certeza de que te ajudaro no que for preciso. A comear pela quermesse.
- Como sabes? Ah! s vezes esqueo que voc  s esprito. 
Vida deu um pulo, e ento eu senti que a tinha magoado.
Ela sabia disso, eu no precisava ter mencionado. Abracei-a pedindo desculpas, amava-a demais e no podia, naqueles poucos encontros, dizer algo que pudesse nos 
separar. E, assim, logo chegou a primavera. Depois daquele encontro, fiquei um bom tempo sem encontrar Vida, mas sua foto em cima da lareira me dava certeza de que 
iria de novo encontr-la. O plantio dera certo. Dali saa boa parte da alimentao das crianas. Agora, quando eu ia para o trabalho, levava as maiores comigo. Deixava-as 
no colgio e acertava minha hora de almoo com a sada delas do colgio. A quermesse foi um sucesso. Deu para comprar as camas e construir mais quartos. Os pais 
de Vida sempre nos visitavam, sempre abastecendo a despensa. Todos foram batizados. Convidei Jos e sua esposa para serem os padrinhos. Pedi que batizassem todos 
eles, excluindo a menorzinha. Essa foi apadrinhada por meus sogros e, certamente, batizada com o nome de Vida. Foi uma linda cerimnia. Depois almoamos na fazenda, 
onde as crianas descansaram um pouco, pois logo voltaramos para a cidade para participar da quermesse. Tudo ia correndo tranquilo. Meu beb, a quem chamvamos 
de Vida, j comeava com suas primeiras gracinhas. Aos poucos, fomos decorando os quartos, separando meninos e meninas. E, para nossa surpresa, um dia os pais de 
Vida trouxeram toda a moblia e tudo o que fazia parte do quarto de Vida. Fiquei emocionado.
- Como? - perguntei  me de Vida. - A senhora disse que nunca mexeria em suas coisas... no entendo, agora a senhora trouxe tudo para as crianas!
- As crianas estavam precisando - disse ela - e tenho absoluta certeza de que estou fazendo o que Vida gostaria.
Alice no cabia em si de tanta alegria. Ajudava Toninha a decorar o quarto rosa e, por incrvel que parea, mesmo no tendo a pintura na parede, parecia o quarto 
de Vida. As coisas foram acontecendo, e eu agradecia a Deus todos os dias. Eu ia sempre ao encontro de Vida, mas ela no aparecia, e eu voltava desanimado. Entretanto, 
quando chegava em casa, as crianas me envolviam tanto que no tinha mais tempo para ficar triste. Eu aproveitava para pensar em minha vida quando estava a esperar 
Vida. Pensava no dia em que cheguei sozinho procurando emprego, sem uma situao definida. Depois do encontro com aquela bela amazona, minha vida virou um turbilho 
de acontecimentos: me apaixonei, fiquei perdido em meio a perguntas, conheci Jos, que mais que meu patro, era meu amigo, e agora tambm compadre. Tinha a ama de 
Vida comigo. Um lar com vrias crianas e estava apaixonado por algum que s eu via, mas que no era imaginao. Era uma felicidade doda, mas que me dava foras 
para continuar criando meus filhos. Um dia, estava eu sentado na relva a esper-la. Comecei a delinear sua imagem na relva como se estivesse contornando seu retrato. 
Minha mo no parava, e naquele momento eu queria ter mais que a relva, queria um papel para poder retrat-la. No dia seguinte, quando sa do trabalho, fui at a 
fazenda dos pais de Vida. Queria ver se me emprestavam o material de pintura de Vida. Eu nem sabia o que iria fazer com ele, mas uma sensao estranha me empurrava 
como se tivesse necessidade disso. Eles prontamente me atenderam. Perguntaram se fora ela que tinha pedido. E, sem querer, me vi respondendo que sim. No sabia por 
que estava mentindo. No dia seguinte, l estava eu no mesmo lugar. S que dessa vez levei toda a parafernlia. Coloquei tudo em ordem, a tela sobre o cavalete e 
fiquei a olhar tudo, sem saber o que fazer. Ento me sentei na relva e fiquei a pensar para que tinha trazido tudo aquilo, se no sabia pintar. A senti as mos 
em meu cabelo e levantei assustado.
- Vida! Como chegou? No escutei o cavalgar.
- Voc estava disperso. Nem uma cavalaria o desviaria dos seus pensamentos.
- No se espante. Trouxe todo o material de sua casa. Lgico que deve reconhec-lo, mas s pedi emprestado. Na verdade, depois que o trouxe, no sei o que fazer 
com tudo isso. 
Vida pegou minha mo e me levou para perto da tela.
- Sinta - disse ela. - Faa os contornos com sua mo. Os mesmos contornos que fez na relva.
- Mas o fiz sem sentir - respondi. - Estava distrado e minha mo comeou a se mexer sozinha. Podes at no acreditar, mas no tinha controle sobre ela. Vida pegou 
minha mo, colocou um pincel em que j tinha colocado tinta e comeou junto comigo a delinear algumas figuras. Eu estava anestesiado.
No sentia a mo dela. A minha corria sobre a tela e figuras iam surgindo. Quando parei, fiquei surpreendido. Tinha desenhado as crianas e, por detrs delas, o 
retrato de Vida.
- Como consegui? - perguntei. - No fui eu... foi voc!
- Daniel, no conte, por enquanto, a ningum, mas prometa: mesmo que eu aqui no esteja, vais fazer como lhe ensinei.
Eu estava perturbado. Era lindo o que estava retratado.
- O que fao com esta tela? - perguntei.
- Leve-a para casa. Toninha a guardar at o momento preciso. A ela podes contar,  nossa confidente. Agora preciso ir, fiquei mais tempo do que podia. E me abraando 
fortemente foi ela embora to rpido como tinha vindo. Depois daquele dia, aps deixar as crianas em casa, para l eu corria. Ficava ansioso. Todos os dias eu fazia 
uma nova tela. Era o campo com toda aquela paisagem. Era a cidade com a igrejinha. Era Alice com Vida no colo e Toninha com seu avental em p  porta de casa. Eu 
fechava os olhos e via a imagem do que seria retratado. Minha mo deslizava sobre a tela, eu no tinha controle sobre ela. Tudo era muito rpido. Depois que acabava, 
ficava impressionado. Conversando com Toninha, ela disse que pareciam as telas que Vida pintava. s vezes, quando estava a pintar, sentia que Vida chegava. Sentia 
sua mo pousar em cima da minha. Quando j tinha muitas telas prontas, Vida surgiu.
- Mostre a Jos e ao padre e pea ajuda para vend-las.
- No vai dar certo - disse. - Quem vai querer comprar um quadro pintado por um ferreiro?
- Tenha mais determinao, Daniel! E lembre-se do todo j conseguido.
- Tens razo - respondi - s vezes penso que no te mereo. Fraquejo e no sei o que seria se voc no estivesse aqui. Vou logo agora fazer o que voc falou. Vou 
aproveitar que as crianas j devem estar recolhidas, e isso me dar tempo de procurar Jos e o padre, mas antes tenho de passar em casa e pedir a Toninha os quadros.
Vida me abraou, dizendo:
- Tenho certeza de que vais conseguir, mas essa certeza tambm tem de estar com voc, ou, ento, tudo estar perdido.
E, assim, fiz o que ela mandou. J eram dez as telas pintadas. Peguei-as, fiz o embrulho e fui at a cidade. Primeiro fui  casa de Jos. Quando me viu chegar, foi 
logo perguntando:
- Quantas chegaram agora? No me diga que chegaram mais crianas?
- No, Jos! Hoje vim por outro motivo. Se me der licena de entrar em sua casa, lhe mostrarei o que estou fazendo.
Jos ficou encantado com as telas. De pronto disse que ficaria com duas. Queria que eu botasse o preo. Disso, eu tinha esquecido. No sabia quanto pedir. Ento 
disse a ele que me desse quanto achasse que valia. Jos pegou o correspondente ao pagamento de um ms. E entregou-me, dizendo:
- Sei que vale mais do que isso, mas  s o que posso pagar no momento. Fiquei com o dinheiro em minha mo. Nem fiz gesto de guard-lo.
- Jos! - disse - voc est com pena de mim. Deu-me o correspondente ao meu ordenado.
- Vale mais do que isso, Daniel! So lindos! Vou coloc-los na sala e voc ver o efeito que far no ambiente.
Agradeci e fui at a igreja. Ainda tinha oito telas. As pessoas estavam saindo da igreja. Tinha acabado a missa. Fui at o padre.
Assim que me viu, perguntou:
- Aconteceu alguma coisa s crianas? Voc nunca veio  cidade a essa hora.
- Vim lhe mostrar o que ando fazendo, quando passeio pelo campo. O senhor sabe que fico as tardes passeando ou lendo, como se estivesse recolhido.
- Todos na cidade comentam que, s vezes, voc parece um eremita. J passaram ao largo onde voc fica e o viram disperso em seus pensamentos.
- Pois  - disse ele - mas agora  diferente, comecei a me ocupar e gostaria que o senhor me ajudasse a vend-los.
E, assim dizendo, fui lhe mostrando as telas. O padre, tal qual Jos, ficou impressionado. Perguntou de cada uma o preo. E me afirmou que venderia todas.
- No coloquei preo em nenhuma. Jos me pagou por duas telas o que falou que seria justo. Ento, por favor, faa do mesmo jeito. Deixe que avalie quem quiser comprar. 
Confio na honestidade das pessoas desta cidade.
- Deixe comigo - disse o padre - amanh certamente lhe darei a resposta do bem-sucedido.
Agradeci a ele dizendo ter de ir embora. Com certeza, Toninha estava me esperando. Nunca falhvamos de conversar diante da lareira. Cheguei em casa cansado. Tinha 
sido um dia exaustivo, mas foi compensador. Pensei nisso quando encontrei o dinheiro pago por Jos em meu bolso. Toninha me esperava na porta de casa. Disse estar 
preocupada, pois havia demorado demais. Mostrei a ela o dinheiro, contei da venda dos dois quadros e que o padre tinha ficado com os outros para vender.
- Filho, tinha certeza que irias conseguir. Quem olha aquelas telas sente todo o amor que h em voc. Vida deve estar radiante de felicidade, porque o que ela queria 
voc conseguiu. Ela adorava pintar. Ficava horas trancada em seu quarto, pintando as paredes, como voc mesmo viu. Pintou alguns quadros. Aqueles que esto emoldurados 
enfeitando a sala de jantar da casa da fazenda.
- Sabe, Toninha, nunca pintei nada em minha vida.  misterioso como minha mo corre sobre a tela.  um momento mgico, nem sei como lhe explicar. Fao tudo de olhos 
fechados. E como se estivesse anestesiado. E, quando desperto, a tela j est pronta. So figuras para todo lado. O que sinto tambm nesse momento  a presena de 
Vida, mesmo ela estando ausente. Agora me fale das crianas. Como passaram o dia? Eu sinto no poder lhes dar mais ateno, mas no posso me afastar de Vida. E, 
se no for as tardes para encontr-la, pensarei que est me esperando e fico com o corao apertado. Agora,  melhor nos recolhermos. J se fez tarde e as crianas 
acordam cedo. Na manh seguinte, acordei com o corpo todo dodo, quase no podia me mexer. Depois  que fui me dar conta de que no estava sozinho na cama, Pedro 
tinha ido dormir comigo. Eu, como estava muito cansado, nem percebi. A, vendo aquele corpinho aninhado, reconheci o quanto precisava de mim. E ali fiz a promessa 
de que quantos viessem iguais a ele por mim seriam adotados. Adotados de corao, como se quem tivesse dado  luz tivesse sido eu. Eram meus filhos. E eu os amava 
muito. Sa da cama devagarinho, tentando no acord-lo, mas, quando sentiu que eu me levantava, meio tonto ainda de sono, grudou em meu pescoo dizendo:
- Pai, pensei que tivesse ido embora.
Encostei-o em meu peito. As lgrimas desciam em meu rosto. Jurei que nunca o deixaria e senti que ainda tinha no peito a dor do abandono. Fui trabalhar mais animado. 
Vida tinha razo. Nos quadros, estaria o sustento das crianas. Fiquei a fazer planos. O que faria com o dinheiro? Eram tantas as necessidades, que s Toninha para 
me orientar. Jos, que era normalmente calado, ficou o tempo todo falando sobre as telas. Mandaria emoldur-las e depois me mostraria o efeito. Eu estava ansioso 
para o dia passar. Pegaria as crianas na escola e iria encontrar Vida. A espera por ela agora era diferente. Ficava absorto pintando e sentindo sua presena. Uma 
nuvem escura pairou na minha mente. E se no conseguisse mais pintar? E se Vida no mais aparecesse? Quando assim pensava, logo ficava amuado, com o corao parecendo 
explodir no peito. Jos percebeu que fiquei calado, perguntou qual era minha preocupao. Se tinha alguma criana doente, ou se eu estava precisando de alguma coisa.
- Fico preocupado, agora muitos dependem de mim. No sei se vou corresponder  altura. No sei o que eles esperam de mim. s vezes, temo no ser o pai que precisam. 
Meu tempo  pouco para dar ateno a eles. Esta manh, Pedro amanheceu aninhado comigo.
- Daniel, pense diferente e voc vai ficar melhor. Onde estariam agora essas crianas se no fossem buscar abrigo em sua casa? Estariam perdidas no mundo. Sem acreditar 
em mais nada. Pois j pequeninos conheceram o abandono. Foi como se os tivessem posto numa balsa e os largado no mar. Em sua casa, eles tm a segurana de terra 
firme. O carinho de Toninha e o seu vo apagar da memria o que sofreram j pequenininhos. No precisas ficar mais aqui do que o necessrio. Assim que acabar o servio 
do dia, fao questo de que v ter com as crianas em casa. D o seu passeio de sempre, faa as suas pinturas e no se preocupe em voltar. Eu fecho o estabelecimento.
Agradeci a Jos, emocionado. Eu no estava bem, sentia uma forte angstia no peito. Acabei o servio, peguei as crianas na escola e fomos para casa. Elas no paravam 
de falar. Contaram como tinha sido o dia na escola e como estavam ansiosas para chegar em casa. Comearam a cantar e, assim, foram dissipando minha angstia. Agradecia 
a Deus por t-los posto em meu caminho. No poderia viver sem nenhuma delas. Toninha j nos esperava com a mesa posta. Os pequeninos j tinham almoado e estavam 
brincando. A casa toda organizada. Toninha fazia milagres. Contei-lhe que no precisava mais voltar ao trabalho. Iria ver Vida e depois voltaria e trataria do cultivo 
da horta. Quando estvamos no meio do almoo, nos chegou uma voz bem conhecida.
- O de casa...
Toninha logo se levantou-se e foi atend-lo. Era o proco. Tinha chegado em boa hora. Toninha foi colocando mais um prato  mesa sem dar importncia  sua negao.
- No posso comer muito! - disse ele. - Um padre tem de andar muito. E, se muito comer, fica sem disposio.
Todos rimos e continuamos nossa refeio.
- Que bons ventos o trazem? - perguntei. - J estava ficando com saudade, depois que fui lhe procurar na igreja, no o vi mais.
- Eu estava numa misso importante - disse ele - fui aos arredores da cidade visitar uns fazendeiros que pouco vo  parquia. Fui mostrar a eles umas telas feitas 
com muito bom gosto, e eles ficaram impressionados. No s impressionados, como pagaram por elas um justssimo valor. Depois que acabarmos de almoar, temos muito 
o que conversar.
Fiquei ansioso para saber se foram todas vendidas, mas o padre, ali  tarde, significava que no poderia ir ao encontro de Vida. Toninha, assim que acabamos, nos 
serviu um cafezinho, e o padre comeou a falar:
- Tenho vrias encomendas para voc. Vendi todos os quadros. E por cada um mais do que Jos lhe pagou.
E assim dizendo me estendeu um bolo de dinheiro. Por um momento fiquei esttico. Depois peguei-o e fui contando. Para mim, era uma pequena fortuna. Separei do bolo 
algumas notas, entreguei ao padre, dizendo:
-  para obra da igreja. Se no fosse o senhor, as telas ainda estariam comigo.
- Isso no! - respondeu ele. - Voc foi me procurar, do contrrio como poderia vend-las? O xito  todo seu, estou satisfeito com o conseguido. Agora tenho de ir 
embora. J deixei minha parquia muito tempo abandonada.
Entregou-me o papel com as encomendas, abenoou as crianas e foi embora. Era uma boa pessoa esse padre. Quando cheguei  cidade e conheci Vida, nunca conseguia 
encontr-lo, ou, se o encontrava, estava sempre de sada. Nunca me dava ateno. Agora era ele que me procurava. Como as situaes mudam. Fiquei pensativo. S depois 
de muito tempo fui ler o papel. Levei um susto! Tinha encomenda de trinta telas e o endereo de para onde lev-las quando estivessem prontas. Mostrei a Toninha e, 
abraados, comemoramos o acontecimento. As crianas, nos vendo assim, correram todas para nos abraar, e assim todos unidos formvamos uma forte corrente de amor 
naquele lar. Algumas peas eu j tinha prontas. Com certeza, em um ms, todas estariam entregues. Entreguei o dinheiro a Toninha para que ela guardasse. Pedi que 
fosse juntando e usasse o que precisasse. Fui at a lareira e fiquei olhando o retrato de Vida.
- Sabes - disse para ela - tudo aconteceu conforme previste. No pude hoje ir ao seu encontro, mas amanh, com certeza, encontrarei-me contigo.
Coloquei um beijo em meus dedos e o depositei em seu rosto. Quando me virei, estava Toninha chorando, com as crianas agarradas em sua saia. Abracei-a, sabia que 
ela tinha saudades. Vida foi para ela a filha que no teve. E t-la perdido foi uma consumio de tristeza.
- Vamos - disse para ela - vamos l fora que temos muita coisa para fazer. Vou colher o que quiseres e as crianas vo recolhendo com os cestos.
Ento eu me dei conta do que no tinha percebido. Estava to envolvido com quadros, que esqueci o todo que fora plantado.
- Toninha! Como cresceu!  muito mais que precisamos, mas, se no colhermos, vo estragar e no ter valido a pena tanto esforo.
Para as crianas era uma festa. Alice brigava com os pequenos, que faziam guerra de terra e ficavam cheiros dela at nos cabelos. Fomos recolhendo tudo e havia uma 
grande quantidade. Pedi a Toninha que separasse o que precisava, e o resto coloquei com Joo na charrete e levei tudo para a cidade. Joo parecia um rapazinho. Incumbia-se 
das tarefas como se fosse um adulto. Quando chegara, era muito levado, mas aos poucos viu que no precisava chamar a ateno para ter o que precisava e foi se acalmando.
s vezes queria ir comigo para o trabalho em vez de ir  escola. Era difcil convenc-lo de que mais tarde precisaria dos estudos, mas lhe prometi que, quando no 
tivesse aula, lhe ensinaria o ofcio de ferreiro. E assim fomos levando nossa vida.
Sempre que encontrava Vida, ela me falava das crianas. Era para ser o contrrio, mas ela contava as gracinhas da nossa Vida e como era esperta e gentil nossa filha 
mais velha. Era assim que ela a eles se referia. Continuei a pintar muitos quadros. Agora j os emoldurava, contando com a ajuda de Jos. Coloquei um enfeitando 
minha casa e, quando o olhava, achava graa. Como podia ter sido eu a retratar o que estava na tela? Mas sabia que quem o fazia, na verdade, era a fora e a intuio 
que o esprito de Vida me dava.
Um dia estava eu trabalhando, quando chegou o proco, acompanhado de um homem bem vestido. Chegou, nos cumprimentamos e ele me apresentou dizendo:
- Este  o artista!
- Artista, eu? Sou um simples ferreiro que coloca na tela com tinta e pincis as emoes que est vivendo.
- Vi seus quadros - ele disse - no so pinturas de principiante. H muito que no vejo obras to perfeitas. Parecem feitas por um grande mestre. Queria que voc 
me mostrasse outros trabalhos. E tenho uma proposta a lhe fazer.
Convidei-o a ir a minha casa, l conversaramos sossegados e poderia lhe mostrar outras telas. Chegando em casa, percebi que o sossego no seria tanto. As crianas 
estavam em prantos por algo acontecido. Entrei rapidamente em casa. Toninha estava assustada, com Vida no colo, que chorava sem parar. Os menores tambm, assustados, 
agarravam em sua saia, querendo ganhar colo. Peguei Vida no colo e a senti ardente, estava com muita febre. Devia estar com uns 40 graus. Fiquei aflito. Pedi desculpas 
ao meu visitante, pois teria de atrelar a charrete para levar a menina no mdico. Ele prontamente se ofereceu em ajuda. Disse que me acompanharia e seguraria a criana, 
enquanto eu guiasse. Toninha tinha de ficar com as outras crianas, que estavam assustadas. Alice era a mais compenetrada e disse:
- Pai, volte logo e traga Vida curada. Eu tomarei conta da casa e Toninha pode descansar um pouco, indo deitar com os pequenos.
Dei-lhe um beijo e agradeci.
- s uma boa menina, cuide de tudo que logo estarei de volta.
Joo, com cimes, ficou me olhando afastado. A diferena de idade entre eles era s de um ano, mas em amadurecimento muito mais. Ele ainda, s vezes, era um levado 
meninote, e Alice uma mocinha que cresceu antes do tempo. A dor amadurece por meio do sofrimento. A marca que lhe foi deixada pelo abandono dificilmente seria apagada. 
Chamei Joo e pedi que ajudasse Alice. Disse que estava contando com eles, que ajudassem Toninha a tomar conta de tudo. Joo logo mudou de expresso, seu rostinho 
se iluminou. Ficaram os dois acenando, enquanto nos dirigamos  cidade. Fomos apressados  casa do mdico. Eu estava preocupado, nunca as crianas tinham adoecido. 
Meu companheiro de assento viajou o tempo todo calado. Tambm estava preocupado. Vida era pequenina, e suas bochechas estavam rosadas de tanta febre. Fiquei temeroso 
pensando na febre que quase me levou e a que tirou de seus entes queridos a doce Vida. Graas a Deus, o encontramos em casa. Foi logo a examinando e dando o resultado.
-  sarampo - disse ele. - Terei de ver as outras crianas e p-las todas em quarentena.
- Quarentena? - perguntei. -  to grave assim?
- Dizem - disse ele - que sarampo  doena de criana, mas eu trato com cuidado, como se fosse uma grave doena. Sarampo tem suas preocupaes.  necessrio ter 
cuidado com as vistas e a garganta. Vou ministrar-lhe um remdio e seguirei at sua casa fazer o mesmo com as outras crianas. Ficamos com ele duas horas, a febre 
abaixava e subia, agora j tinha um tempo que ali estvamos. No sabamos se Vida chorava de fome ou pela doena. Fomos para casa levando o mdico conosco. Meu novo 
amigo ficara esquecido at por mim. Pedi desculpa pelo transtorno, dizendo que outro dia conversaramos. Agora minha preocupao era com as crianas; cuidar delas 
era prioridade. Cheguei em casa, Toninha foi logo alimentando Vida. O mdico falou a ela do diagnstico e a maneira como teria de cuidar das outras crianas. Com 
certeza, teriam a doena tambm. Toninha me acalmou, dizendo:
- Todas as crianas tm sarampo. Eu no percebi o que era, e olha que tratei de Vida sozinha.
Fiquei mais descansado e fui cuidar das outras crianas. Verifiquei se tinham manchas ou se estavam febris. E, nesse corre-corre, at me esqueci do moo, que acabou 
ficando na cidade, pois eu voltara para casa com o mdico. Quando ele acabou de examinar as crianas e dar as recomendaes, levei-o de volta para casa.
Fui dispensado por Jos do servio. Aquela semana foi atribulada! Tinha criana choramingando para todo lado. S Joo e Alice no pegaram a doena, mas parecia que 
eu tinha usado tinta para pintar os corpos dos outros sete. Sobre os dois mais velhos, conversando com Toninha, nos pareceu que j podiam ter tido a doena. Nada 
sabamos sobre eles. E os muito pequenos era difcil lembrarem de alguma coisa.
A semana toda no pude ir ao encontro de Vida. Tambm nas telas no pude pegar. Eram muitas crianas e s Toninha a cuidar delas. Aquela senhora que se ofereceu 
para, de tempos em tempos, ajudar um pouco nunca aparecera, mas teria, com certeza, seus motivos. Era adoentada e eu, s vezes, me culpava por no ter pego o endereo 
de sua casa e ter ido visit-la, para ver se precisava de alguma coisa.
Voltei ao trabalho. As coisas em casa j estavam melhores, mas elas no podiam ir  escola, estavam suspensas das aulas. Nem me lembrava mais do visitante, quando 
me apareceu o padre, perguntando qual tinha sido o trato.
- No tratamos de nada! - respondi. - O senhor sabe que as crianas pegaram sarampo e eu no tive tempo para mais nada. Hoje  que eu iria passar na igreja para 
lhe perguntar onde posso encontr-lo.
- Agora vai demorar um pouco, meu filho. Ele no  desta cidade. Na verdade, ele est sempre viajando. Conhece o mundo e seus arredores. Ele  um conhecido marchand. 
Sai pelo mundo  procura de talentos desconhecidos. Por acaso, nas minhas andanas, encontrei-o nos arredores, na casa de um poderoso fazendeiro. Ele tinha ido lhe 
levar uns quadros de um pintor famoso. Eu l estava tambm pelo mesmo objetivo, mas com a diferena de que as telas por mim ali vendidas eram obras de um ferreiro 
"desconhecido", mas a importncia era a mesma, para falar a verdade. Sem querer bajul-lo, suas telas eram melhores do que as que ele tinha levado. E, assim que 
viu as suas, ficou impressionado. Queria logo te conhecer, mas disse que esperasse, pois eu tinha muita coisa para fazer. At que naquele dia que o trouxe a sua 
casa foi ele que me procurou na igreja. Disse estar ansioso para conhecer to exmio pintor. Agora no sei quando voltar, mas, se de fato ele tem interesse, no 
tardar a voltar. Agora, as que voc tiver prontas, vai guardando. Assim, quando ele voltar, ter muito o que apreciar. Agora tenho de ir. Que Deus aqui esteja e 
com suas criancinhas. Pedi sua bno e ele foi embora.
Qual proposta teria para mim aquele homem? Mas agora no podia ficar pensando nisso. Tinha de me concentrar no meu trabalho. Havia muito servio atrasado.
No horrio de sempre, passei em casa para ver como estavam as crianas e fui ao encontro de Vida. Estava morto de saudades, foi uma semana corrida. Fiquei a esper-la. 
Nem levei as telas comigo. Queria estar livre, se ela viesse. Fazia tempo que no passevamos pelos campos. Estava cansado, comecei a cochilar, quando senti em meu 
rosto algo formigar. Esfreguei-o, mas no abri os olhos. Senti que era pelo corpo todo, mas tambm trazia uma leveza, como se tivesse tomando um banho. Respirei 
fundo e abri os olhos. Qual no foi minha surpresa. Eu estava coberto de ptalas de rosa. A foi que eu senti o aroma. Era o cheiro de Vida. Levantei, rpido, mas 
no a encontrei em lugar nenhum. Comecei a cham-la.
- Vida! Deixe de brincadeira! Estamos h muito tempo separados. Quero v-la, falar-te das coisas que esto acontecendo.
E nada de ela aparecer. Continuei a gritar mais alto.
- Vida! Vida! Pare de brincadeira! Hoje meu tempo  pouco, as crianas esto doentes.
Ento, s escutei sua voz. Recolha todas essas ptalas de rosas e d um banho em todas as crianas. Logo elas ficaro bem. D um beijo em Toninha, hoje no posso 
estar com voc.
Quando me virei para catar as ptalas, no  que dei de cara com o padre! Ele estava parado me olhando e para todas as ptalas que tinham se espalhado.
- Daniel, por que despetalaste tantas rosas? Por que estavas a gritar por Vida? Por acaso trouxeste a pequenina e ela se perdeu?
Fiquei mudo. No sabia o que responder. No queria mentir. Vida era uma verdade em minha vida, mas, se falasse para ele, certamente no acreditaria e talvez me tivesse 
como louco e poderia at me tirar as crianas. Ele j achava estranho ter um retrato de Vida to grande em minha sala. O nome da pequena Vida se justificou por os 
pais de Vida terem-na apadrinhado, mas me encontrar aos berros, chamando por ela, certamente no entenderia. E eu ali parado, mudo, pensava que explicao daria.
- Algum deve ter debulhado muitas rosas - disse. - Ia cat-las e levar para casa. Talvez, colocando em algum lugar apropriado, pintarei um lindo retrato.
- E por que chamavas por Vida? Onde est ela? Com certeza no estar sozinha. Comeou a dar os primeiros passos. No acredito que ficou disperso e ela se afastou 
sozinha.
- Padre, nem a trouxe comigo. Acho que estava a pensar alto e pedia a Deus que no a tirasse de mim. Apesar de dizerem que  molstia de criana, fiquei com muito 
medo de perd-la.
O padre coou a cabea, como se no tivesse acreditado, mas no encontrei outra maneira de lhe dar a explicao. Acabei de catar tudo e disse que iria acompanh-lo. 
No tinha ido a cavalo, precisava caminhar. Fomos andando e ele estava taciturno. Tentei entabular conversa, mas ele nem me escutou. Coava a cabea, era o seu hbito, 
acho que assim pensava melhor. Falava sozinho, como em resmungos, e eu no entendia as palavras. Fiquei quieto e fui caminhando ao seu lado. Quando chegou num certo 
pedao, a estrada se dividia, tinha de ir um para cada lado. Ele seguiu certo seu caminho. Ainda tentei me despedir, mas ele nem percebia se eu estava mais ali. 
Fui embora preocupado. No sei o que passava na cabea do padre, mas, com certeza, no tinha aceitado a explicao dada. Cheguei em casa e entreguei as ptalas a 
Toninha. Contei tudo o que se passara e ela me acalmou. Disse que, com certeza, o padre a procuraria, e uma boa desculpa para tudo aquilo arranjaria. Falei do banho 
das crianas e ela prontamente o fez. Ajudei arrumando as crianas e as pondo na cama. Uma por uma, logo adormeceram.
Fomos para a sala conversar, mas antes Toninha me serviu um prato de sopa bem quente. Aquilo me reanimou, eu tinha levado um baita susto! Ficamos a conversar at 
bem tarde. Fiquei intrigado porque Vida no veio, mas mandou as ptalas de rosa.
- Filho, ainda no percebeste que ela o ajuda a cuidar das crianas? Ela as sabia doentes e achou uma maneira, mesmo no indo ao encontro, de ajud-lo.
Comecei a chorar compulsivamente. No sei quanto tempo poderia aguentar ficar tanto tempo sem v-la. Eu a amava tanto, queria t-la comigo todas as horas do dia. 
Sabia ser isso impossvel, aceitei que assim seria, mas no pensei que fosse ser to difcil. Toninha tambm chorava. Chorvamos uma saudade. Chorvamos por algum 
que tinha partido, mas que fazia parte de nossas vidas, como se conosco ali vivesse. Era como se tivssemos algum que em casa no parasse, estando sempre a viajar, 
mas a saudade doa no peito. s vezes achava que no ia mais aguentar.
Dois anos tinham se passado, desde que chegou a primeira criana. Muita coisa tinha mudado. A casa agora era grande, tnhamos uma horta bem plantada e o carinho 
de muitas crianas. Eu e Toninha,  noite, agradecamos por isso. Sem as crianas, acho que no teramos tanta fora para continuar vivendo. Alice e Joo estavam 
sempre juntos. Era uma linda amizade, em tudo combinavam. Um ajudava o outro nas lies de casa. E, quando acontecia de um se machucar, nem nos preocupvamos, um 
logo tratava do outro. Dos pequenos tomavam conta. A pequena Vida ficava mais ao encargo de Toninha. Ainda queria muito colo e o aconchego que muito cedo perdera. 
Os pais de Vida continuavam sempre nos visitando. Enchiam as crianas de presentes. Eu at os alertava, se no os estariam estragando com tantos mimos.
- Assim fizemos com todos os nossos filhos - me responderam - e graas a Deus so todos bons meninos. J esto com suas famlias formadas e de desgosto nunca sentimos 
o gosto.
Eu me desculpava, acho que estava com cimes. Tinha medo de que a eles mais que a mim se apegassem e ficava arranjando desculpas, mas era uma bno a visita deles. 
Traziam tortas, guloseimas que as crianas adoravam. Eu no tinha tempo para comprar e, s vezes, tinha medo de gastar demais e faltar o principal na mesa. Tinha 
conscincia da minha responsabilidade para com elas. Depois de conversar com Toninha, sempre ia dormir mais aliviado. Colocava como sempre um beijo no rosto de Vida 
e ia dormir, pedindo a Deus que com ela sonhasse.
O dia amanheceu com as crianas numa algazarra. Levantei de um pulo! A doena ainda rondava aquela casa. Quando cheguei ao quarto das meninas, estavam todos juntos. 
Os meninos pulavam na cama, sacudiam os travesseiros e Alice tentava cont-los, mas sem xito. Perguntei:
- O que est havendo? Alice, pode me falar por que j esto acordados e nessa farra toda?
- Pai, as manchas sumiram e a febre tambm. Esto todos fresquinhos e contentes porque voltaremos  escola.
Fui olhar um por um. De fato, nem vestgios do que tinham na vspera. Fiquei com os olhos rasos d'gua, agradecendo em pensamento a Vida. J que tinha acordado, 
fui cuidar delas. Quanto mais cedo comeasse, mais depressa iria trabalhar. Toninha j estava na labuta. A pequena Vida ainda dormia. Ela ficava no mesmo quarto 
que Toninha; era melhor t-la perto para poder cuidar dela. Fui trabalhar aliviado. Graas a Deus, tudo tinha passado. A nossa Vida voltaria ao normal. Assim que 
cheguei  ferraria, Jos me disse que tinha algum me procurando. Pensei logo no visitante do padre, e isso mais ainda me reanimou. No podia ir procur-lo, no 
tinha certeza de quem fosse. Fiz meu trabalho compenetrado e nem senti quando entraram no estabelecimento. S me dei conta, quando tocaram em meu ombro.
- Bom dia, Daniel! Estava a esper-lo. Antes, deixe me apresentar primeiro. Sou o fazendeiro que comprou suas telas e gostaria de adquirir outras.
Fiquei sem saber o que dizer. Com toda aquela histria de doena das crianas, nem tive tempo para pintar.
- No tenho mais nenhuma comigo - disse - tive uns contratempos e no pude me dedicar  pintura.
- Posso ajud-lo em seu problema? - perguntou. - Se  monetrio, eu lhe dou adiantamento pelo que me ser entregue e estamos conversados.
- No! Dinheiro, graas aos cus, no nos tem faltado, mas meus filhos tiveram sarampo e no podia deix-los. Eu me isolo para pintar, preciso estar s, comigo mesmo.
- Se  assim, quando posso voltar? Queria de voc umas dez telas, pois os visitantes de minha casa, quando veem suas obras, me pedem para compr-las. Das minhas, 
que adquiri com o padre, no vou me desfazer, mas queria um bom nmero do seu trabalho, pois farei com elas uma exposio em minha fazenda. Ter uns comes e bebes, 
e gostaria que voc estivesse presente a esse acontecimento. Agora tenho de ir, pois ainda vou  igrejinha fazer o mesmo convite ao padre. S quero que voc mande 
o recado por ele, a data certa da entrega.
E, assim dizendo, tirou um mao de notas que nunca tinha visto na minha vida. Entregou-me e disse:
- J  por conta da metade do trabalho. Despediu-se e saiu apressado.
No quis nem papel firmado com a quantia que acabara de me entregar. Jos, que a conversa toda acompanhou, me abraou dizendo:
- Temos, em nossa cidade, um grande artista!  uma honra para ns!
Comeamos a rir abraados, deixei o mao cair e se espalharam pelo cho notas para todo lado. Ficamos agachados catando, quando me dei conta de como a ferraria precisava 
de cuidados. O cho estava esburacado, era at perigoso para ns trabalharmos.
- Jos, no ests precisando de um scio, que invista aqui algum dinheiro para reformas?
- Se ests falando do homem que acaba de sair, ele j deve estar longe. Com certeza, na igreja com o padre conversando.
- Estou falando de mim. J somos compadres, no queres aumentar o seu negcio, me tendo como scio?  aqui que trabalho mesmo. Ento poderamos investir um pouco 
e at alugar montarias. Como eu, muitos precisam, e onde tem o servio  pssimo. Poderamos at adquirir uma charrete. Quem vem  cidade fazer compras precisa dela. 
Quem sabe contratamos algum que possa fazer esse servio? Leva o dono e as compras at os arredores da cidade e depois volta deixando a charrete aqui recolhida. 
Tambm poderamos deix-la para ser usada por quem vem  missa aos domingos, depois de uma caminhada para chegar  igreja. Depois da missa, para voltar paras suas 
casas, com certeza alugaro nosso servio.
- Daniel, tima ideia! Estou mesmo precisando de dinheiro, tenho de aumentar o ganho, pois chegar mais um herdeiro. Mas de onde vir esse investimento?
- Dos quadros! - disse. - E entreguei a ele todo o dinheiro que tinha recebido e firmei com ele a sociedade naquele estabelecimento.
Nem sabia eu que j estava investindo no futuro de Joo, que mais tarde tomaria conta de tudo naquele lugar. Toninha ficou feliz com o acontecimento. Disse que agora, 
mais do que nunca, teria de me dedicar aos quadros.
No prazo exato, tudo estava pronto. Fui falar com o padre e pedi que transmitisse, por mim, o recado. Ele respondeu que eu tivesse pacincia, ia demorar um pouco 
ele ir para aquelas bandas da fazenda.
- No tem importncia - respondi - se realmente ele estiver interessado, vai vir me procurar, e  o senhor que ele procurar primeiro, com certeza.
Agradeci ao padre e fui embora, pedindo sua bno. Jos me esperava na ferraria, para conversarmos sobre as reformas. Ficou tudo acertado. Contratamos um homem 
que morava nos arredores que de tudo fazia. Estava desempregado e aceitou bem o servio. Tudo estava correndo maravilhosamente bem. S Vida que havia tempos no 
via. Estava com saudades, ficava tonto s em pensar nela.
Fui, como sempre, esper-la, mas dessa vez compenetrado, colocando nas telas todo o amor que sentia e a falta que me fazia. Numa tarde s, s vezes, cinco telas 
ficavam prontas. Minha mo deslizava mais rapidamente do que meu pensamento. Estava pintando uma paisagem, era do lugar de onde eu tinha vindo. Quando senti o toque 
suave de uma mo em cima da minha, virei o rosto e dei de encontro com Vida. "Meu Deus! Como s divino, eu retratando toda sua criao, e ao meu lado algum que 
permites que venha estar comigo. Como sou agradecido!" Larguei o pincel no cho e quase derrubei o cavalete com a tela. Abracei-a tanto, tanto, que quase perdi o 
flego. Queria senti-la em meu peito. Queria ter certeza de que realmente ela estava ali. Tinha medo de, por estar saudoso, minha imaginao me pregasse uma pea.
- Daniel! S no te digo que vou sufocar porque isso no pode acontecer comigo, mas voc pode ter um troo e no quero que nada de mal lhe acontea. No tema. Eu 
nunca te deixarei, a no ser que voc no mais me queira. A, sim, mesmo doendo, nunca vou prend-lo. Eu sei o quanto  difcil para voc ficar me esperando todos 
os dias. Recebi a vibrao de seu agradecimento pelas crianas, e sempre as protegerei. Lembre-se de que so como meus filhos. Amo-as como amo todas as crianas 
deste e do outro mundo. Mas, para mim, elas so especiais. So o elo entre mim e voc, e fazendo o fechamento est Toninha. Sei que est trabalhando muito, mas no 
descuide de sua alimentao. Pense que as crianas tm em voc o seu abrigo. Se voc faltar a elas, no acreditaro em mais nada. Mas continue, no quis atrapalh-lo. 
J o estava observando h tempos, mas no resisti. Tambm estava com muita saudade.
- Agora que voc chegou fica difcil! Quero v-la, toc-la, senti-la, apertada em meu peito. No sei quando voltarei a v-la.
E passei aquela tarde maravilhosa com Vida. Falei a ela do desconhecido que adquiriu minhas telas, mas sumiu. Falei do fazendeiro que encomendou outras tantas, mas 
eu dependia do padre para entreg-las. Falei da exposio proposta pelo fazendeiro e da sociedade que fiz com o ferreiro. Da horta que estava produzindo mais do 
que precisvamos e de como a casa estava alegre com toda aquela crianada. Vida me beijou, e eu fiquei extasiado. Era uma sensao inebriante. Eu era o mais feliz 
dos homens. Como sempre, ela no podia se demorar. Eu tinha de ir para casa, pois Toninha me esperava. Recolhi todas as peas, amarrei-as em meu cavalo e, quando 
j ia montar, escutei algum me perguntar:
- Com quem falavas? No podes pintar calado? Ou primeiro ficas a imaginar?
Levei um susto e tanto! Dei de cara com o padre, aquilo j estava se tornando um hbito!
- Do que o senhor est falando? Estava eu a cantar, pois estou feliz e estava descansando. J lhe falei que aqui  meu refgio, mas, e o senhor, o que est fazendo 
por estas paragens?
- Vim procur-lo. Entreguei as telas e o fazendeiro mandou o restante do dinheiro. Quero que voc confira se  realmente o tratado.
E assim dizendo me entregou um mao de notas. Eu no estava ainda acostumado com tanto dinheiro. Ficava sem ao quando me deparava com tantas notas. Peguei de sua 
mo e separei um bocado. Entreguei a ele, dizendo:
-  para a obra da sua igreja e agradeo pela ajuda dada.
- Mas ainda tenho um recado. Vamos andando que j se faz tarde, pelo caminho vou lhe falando.
E assim soube da festa. Era a tal exposio de que tinha me falado o fazendeiro.
- Ser no sbado - disse ele - v bem arrumado, pois encontrar pessoas da mais alta sociedade. Essa festa poder mudar sua vida. Eles contam com sua presena. Eu 
nem convidado fui. Deram a desculpa de que haveria vrios tipos de bebida, e eu iria ficar constrangido. Acho que foi uma boa desculpa para afastar o padre da orgia.
- Vou falar com Toninha. Tenho compromisso com ela. No posso deix-la uma noite sozinha com as crianas. Apesar de ter a Alice, que muito ajuda, se algo acontecer, 
e ela tiver de sair, no ser possvel para ela levar todos. Mas verei o que posso fazer. A oportunidade me foi dada e no posso desperdi-la.
Assim nos despedimos, o padre suava, parecia cansado. De vez em quando, parava para enxugar o rosto com o leno que trazia na batina guardado. Tinha eu lhe oferecido 
minha montaria, mas ele disse que estava acostumado e era bom caminhar. Assim que dele me afastei, fui logo montando em meu cavalo para levar a notcia mais depressa 
para Toninha. Eu estava confuso. No sabia se realmente queria ir a essa festa. No tinha interesse em conhecer outras pessoas. As que eu j tinha em meus relacionamentos 
eram suficientes, mas tambm no era ingnuo a ponto de no saber que talvez fosse a nica chance de melhorar o futuro. No para mim, pois como estava, estava timo, 
mas para as crianas. Vida, ento, precisava ainda de muito. Nem me dei conta de que j tinha chegado em casa. Joo veio me receber em desabalada carreira, pedindo:
- Pai, deixa que eu cuido para voc do cavalo! V descansar, que eu deixo tudo arrumado.
E assim, j conduzindo meu cavalo pela rdea, ficou a chamar Alice. No fazia nada sem ela. Beijei-o e lhe agradeci o cuidado comigo. Era para ser o contrrio. Eu 
estava comovido. Com toda a gritaria de Joo, Toninha chegou  porta, estava com Vida nos braos. Se eu estivesse agora com meu cavalete arrumado, as teria retratado. 
Abracei-a e fomos entrando. Alice, para atender ao chamado de Joo, passou que nem um furaco, quase nos derrubando.
- , mocinha, para que tanta pressa? Nada vai sair do lugar! E quem te espera no vai embora, ento ande devagar, pode acontecer um acidente se andares por a aos 
tropeos. - E, assim dizendo, peguei-a no colo.
- Pai, solte-me! No sou mais criana de colo. Mais um pouco e estarei do seu tamanho! E dizendo isso se pendurou em meu pescoo, me deu um beijo e se soltou correndo 
em direo a Joo. Eu e Toninha comeamos a rir. No tinha adiantado de nada o meu discurso. Fui ver as outras crianas, umas dormiam, outras no cho aninhadas e 
Pedro, o meu arteiro, com alguma coisa se embolava. ramos uma famlia feliz! Dos pais deles, nunca mais tivemos notcias. Pedia perdo a Deus, pois, quando rezava, 
pedia para que nunca mais aparecessem. Se uma criana me fosse levada, iria com ela um pedao de mim. Ainda mais que nunca teria certeza de, que de novo, no seriam 
largadas. Tomei meu banho e, quando  sala cheguei, Toninha j tinha colocado minha refeio  mesa. Sentei e pedi que me acompanhasse. Precisvamos ter uma difcil 
conversa. Toninha arregalou os olhos e me arrependi por ter falado assim. Fui logo acrescentando:
- No  nada de mau, ao contrrio,  uma deciso a ser tomada. E contei-lhe tudo. Falei que a festa seria no prximo sbado, mas estava descartada a ideia. No podia 
deix-la sozinha em casa a cuidar das crianas.
- Vou agora mesmo providenciar sua roupa! Acho que no encontrar nada decente, que esteja  altura do acontecimento, mas amanh ainda  quinta-feira, tens tempo 
de sobra para providenciar tudo. Tens de ir de palet e gravata. No quero que faas feio. Tens de deixar eles impressionados, como ficaram com suas telas. s um 
belo rapago, s precisas se arrumar um pouco, deixar de lado essa roupa caipira. Pea ajuda a Jos, ele deve saber onde podes encontrar algo que lhe sirva e que 
tenha bom preo. No v perder essa oportunidade. Joo e Alice so timas companhias e posso contar com eles para me ajudar com as crianas. Precisas ter uma mala 
ou uma bolsa que lhe sirva. Depois da caminhada, ters de tomar um bom banho, se perfumar e se vestir a contento.
- Nossa me! Voc  rpida, Toninha! Eu ainda estava me decidindo e voc j est fazendo minha mala! Est bem. Assim fica acertado, mas voltarei domingo bem cedo. 
Sairei de l ainda madrugada. Tenho de pegar o endereo com o padre. Se possvel, que me faa um mapa da estrada a tomar. Agora, deixe-me ver o que Joo e Alice 
esto aprontando, so capazes de afogar o meu baio.
E, assim, mais um dia se passou.
Como Toninha falou eu fiz. Pedi a Jos orientao e, mais do que isso, ele se ofereceu e foi comigo percorrer as poucas lojinhas que havia na cidade para adquirir 
o que eu precisava. Eu, com toda aquela parafernlia, me sentia esquisito. Aquela gravata no pescoo me enforcava e eu discutia com Jos, pois queria desistir de 
ir assim vestido.
- No podes chegar l vestido de qualquer jeito, Daniel! Eles esto esperando um pintor! No podes aparecer vestido como se fosse ferreiro! - e, rindo, continuou. 
- No que no seja verdade, mas  melhor aparecer como um ferreiro melhorado.
Aceitei o que dizia, mandei fazer o embrulho das roupas e levei tudo para casa. Ia pensando no caminho que tinha sido um dinheiro desperdiado. Depois da festa, 
com certeza aquela roupa nunca mais ia ser usada. Toninha adorou!! Me fez vestir toda a roupa, chamou a crianada, e eles, me rodeando, aplaudiam. Eu estava me sentindo 
um bobo! Toninha j tinha feito minha mala, dei uma olhada, estava de dar gosto! Tudo arrumado com muito cuidado. As peas passadas estavam impecveis. Agradeci 
a ela dizendo:
- Nunca se importaram tanto comigo. Cresci em meio a tantos irmos que, s vezes, era esquecido.
Mas isso tinha ficado longe, e eu teria o cuidado para no acontecer o mesmo com minhas crianas. Apressei-me em casa, pois tinha de voltar ao trabalho e ainda queria 
ir ao encontro de Vida. Ela teria de saber que por dois dias no compareceria ao encontro. Quando a tarde estava descendo e eu, como sempre, encostado na rvore, 
fiquei relembrando quando pintei pela primeira vez. Foi sem pincel ou tinta. S o meu dedo na relva o rosto de Vida delineando. Esperei, esperei, ela no apareceu. 
O dia seguinte seria a vspera de minha viagem. Seria um dia atrapalhado, talvez nem pudesse ali estar. Fui embora antes que a noite descesse. Quando muito me demorava, 
Toninha ficava preocupada. Ela sabia que, s vezes, Vida no aparecia e temia que, pelo meu cansao, acabasse pegando no sono e dormisse por ali mesmo. Fui cavalgando 
devagar, a expectativa dessa festa me deixara meio desorientado. Eu era meio bronco, no gostava de reunies sofisticadas. No saberia como mexer com as mos, no 
saberia comer com tantos talheres. No gostava de bebidas finas. Gostava, mesmo, era de tomar um bom vinho no inverno, em frente  lareira conversando com Toninha. 
Aquilo, sim, que era vida boa. Ficava relaxado esquentando o corpo e saboreando com gosto aquela bebida que se fabricava ali mesmo, na cidadezinha. Mas no podia 
fugir  oportunidade que surgia. As crianas precisavam de amparo, e a soluo poderia estar naquele encontro. A sexta-feira passou rpida! Queria deixar tudo a 
contento para Toninha. No queria que em casa faltasse um remdio ou alimento. Fora minha presena, no queria que Toninha sentisse falta de nada. Sa de madrugada, 
na vspera j deixara tudo arrumado. Beijei as crianas uma a uma e mandei de longe, para no fazer barulho e acordar Vida, um beijo para Toninha, mas ela acordou 
dizendo:
- Espere, vou lhe fazer um caf e aprontar um farnel.
- Fique a quietinha, j me alimentei, e no  to longe a fazenda para que eu precise levar alguma coisa para comer no caminho.
- V com Deus - disse ela - que a Senhora do Amparo lhe cuide e o traga de volta so e salvo!
Fui puxando meu cavalo at longe da casa. No queria que o trotar do cavalo acordasse as crianas. Peguei o mapa que me dera o padre e fui seguir meu rumo. Ia sem 
saber o que me esperava, mas j tinha sido assim nesta cidade onde agora morava. Estava escuro, mas aquelas paragens eu j conhecia bem. J estava bem claro o dia 
quando me aproximei da fazenda. Rodeei a cerca e fiquei contemplando. Era uma casa suntuosa. Na verdade, uma manso. Tive vontade de puxar as rdeas de meu cavalo 
e voltar. Tanto luxo me inibia. No meio do gramado tinha um lindo chafariz! E esttuas espalhadas por todo o canto. O gramado parecia recm-plantado, as flores, 
de qualidades por mim desconhecidas. A manso assustava por sua altura, perto de tudo aquilo me sentia uma formiga. Nem me dei conta de que se aproximavam de mim. 
Estava to distrado que nem percebi a presena deles. Eram vrios homens com carabina em punho. Perguntaram o que eu estava a espiar, se era olheiro de outra fazenda, 
que fosse dando o fora! E, assim falando, me rodearam como se fossem fazer alguma coisa. Ento eu escutei algum gritar:
- J perguntaram, por acaso, o nome? No sabem que o patro est esperando agora cedo um visitante?
Um deles, cutucando minha perna com o trabuco, disse: 
- Escutou o que disseram? Trate logo de responder ou vai ficar difcil daqui a pouco poder falar alguma coisa!
Eu nunca fui medroso, mas eles me pegaram distrado. Dei um empurro em sua arma e perguntei:
-  assim que seu patro recebe quem ele convida? Meu nome  Daniel! J estou arrependido de ter vindo.
Mas nisso j tinha se aproximado outro homem, o que falara com eles. Pediu mil desculpas e solicitou que o acompanhasse. Eu, que j estava nervoso com toda aquela 
confuso, sentia at minha barriga doer. Fui seguindo o homem e, cada vez mais, me intimidando com o que via. A porta de entrada era quase toda a frente de minha 
casa. Pediu que eu entrasse, foi o que fiz, pedindo licena. Agora at minhas pernas bambeavam. Eu estava entrando num palcio! O salo era enorme! Cheio de peas 
brilhantes, quadros ornamentando as paredes, com um foco dourado de cada lado. O material da cortina pensei que s se usava para fazer casacos. Era em veludo vinho, 
cheia de penduricalhos e presa na parede por grossos cordes de seda. O lustre eram camadas de cristais. O cho todo forrado em tapetes e, ao lado, uma austera mesa 
cheia de cadeiras perfiladas com seus botes dourados. Eu estava parado observando tudo, quando ouvi uma tosse. Olhei para o lado e me deparei com um senhor rechonchudo 
de colete e barriga empinada. Suas mos estavam postas no colete mexendo em uma correntinha dourada.
- Daniel? - perguntou. - Esperava que fosses chegar mais tarde. Desculpe a indelicadeza de meus homens, mas faz parte do trabalho. Tenho, nesta casa, obras de grande 
valor. Algum pode ficar tentado, e  melhor ficar prevenido.
- Na verdade, me assustei um pouco, estava at pensando em retornar. No sabia que tinha bandidos nestas paragens e que era preciso andar armado.
- No  necessariamente assim. Eu  que sou prevenido. No vou chorar depois que o leite ordenhado da vaca derramar do balde. Prefiro me precaver e fazer a ordenha 
ser automtica.
No estava entendendo nada do que aquele homem falava. No gostava de seus modos nem daquele ambiente. "Como pode o padre visitar essa fazenda e no questionar, 
deixando esses homens todos armados?", eu me perguntava. Ele me pediu que me sentasse, pois tnhamos muita coisa a conversar antes da festa. Disse que gostou muito 
dos meus quadros e que a exposio que hoje seria dada era para me introduzir no mundo artstico. Disse que j viajara muito. Conheceu vrios pases e muitas pessoas 
influentes. Comprou aquela fazenda, pois se cansou de badalaes. Agora queria viver sossegado. Festas? S quando tivesse vontade ou algum motivo importante. Hoje 
era eu o grande motivo. Perguntou se eu estava com fome e logo me serviu um suco com biscoitos. O copo, tive medo de apertar, de to fino que era. Comi um biscoito 
s, pois a vergonha era maior que a fome. Chamou um empregado e mandou que me acompanhasse aos meus aposentos. Disse j estar tudo preparado, j tinham providenciado 
at um bom banho quente. Fui subindo as escadas, sem tocar o corrimo. Era todo dourado, tive medo de manch-lo. Terminando a escada, cheguei onde disseram ser o 
saguo. Tinha vrias portas de quarto, todas com enfeites dourados. Fomos at o final do corredor, quando o empregado me indicou a porta. Fiz meno de abri-la, 
mas ele logo se adiantou e o fez primeiro. O quarto era um luxo! Tudo que o quarto continha era no tom azul, mas o dourado fazia presena. Estava por todos os lados. 
Despertei com a voz do empregado, dizendo:
- O almoo  servido nas doze badaladas. Se precisar de alguma coisa,  s apertar a campainha que est ao lado da cama.
E assim dizendo, foi embora fechando a porta. Fiquei perambulando pelo quarto e fui at a janela. Dali se viam os pastos.
Eram muitos animais, parecia que criavam cavalos selvagens. O pelo dos animais brilhava tanto que parecia ter sido lustrado. Sentei na beirada da cama e senti que 
tinha sentado em cima de algo. Levantei-me e peguei. Era um jogo de toalhas de banho, todas em linho e umas iniciais bordadas, L.C. Eram as letras que continham. 
A foi que lembrei que nem sabia o nome do fazendeiro. Ainda era cedo, estava cansado, e assim mesmo vestido acabei por dormir um pouco. Despertei com um sino a 
badalar. Levei um susto! E comecei a contar. Se fossem doze, eu estaria atrasado, mas, para minha tranquilidade, na dcima primeira, ele parou de tocar.
Tomei um banho, me arrumei e desci. A mesa j estava posta, mas ainda no tinha ningum sentado. Eu no sabia nem para onde ir. A situao era estranha. Eu estava 
num ambiente desconhecido e no me sentia  vontade. Sentia falta de Toninha e do barulho das crianas. Pensei em Vida, no consegui falar-lhe antes da viagem, mas 
tinha plena certeza de que sabia onde eu me encontrava.
- Repousou um pouco? - perguntaram. Quando me virei, dei de cara com o fazendeiro, acompanhado por diversas pessoas. Eram todos homens alinhados, e, por coincidncia, 
todos traziam a tal correntinha pendurada. A postura era a mesma. Dali a pouco, deram-se as doze badaladas e indicaram o lugar de cada um. Logo apareceram enfileirados 
os criados, trazendo bandejas prateadas com todo tipo de iguaria. Foi mais fcil do que eu pensava. O dono da casa me deixou  vontade. Parecia que ningum prestava 
ateno se, de fato, eu comia. Acabei to rpido que os outros mal tinham comeado.
- Mas  uma desfeita comer to pouco! Se queres algo diferente,  s falar que eles aprontam.
- Nada disso - respondi - estava tudo timo. Eu  que me acostumei a comer pouco. Logo aps o almoo, costumo cavalgar, e barriga cheia no vai bem.
Todos riram, como se fosse muito engraado. Eu  que fiquei sem graa e estava doido para levantar dali, mas a boa educao diz que devemos esperar que todos acabem. 
E assim fiquei s a observar o que se passava  mesa. Falavam das viagens, da cotao do dlar, em bens adquiridos ou da falta cometida por algum empregado. At 
que se dirigiram a mim. Perguntaram sobre minha famlia, sobre os meus quadros e o que achava das telas que havia visto espalhadas pela casa.
- Belssimas! - disse.
Na verdade, nem as tinha olhado direito. Quando pensei que o almoo estava terminado, vieram os empregados, retiraram as travessas da mesa, mas logo atrs vieram 
outros, carregando a sobremesa. Fomos servidos um a um. De fato, estava uma delcia. Eu no sabia o que era, mas me deu vontade de pedir um pouco para Toninha. Logo 
serviram caf, em delicadas xicrinhas. Era uma loua finssima, to leve que, ao lev-la aos lbios, s o caf se sentia.
Levantou o fazendeiro, dando por encerrado o almoo. Pediu que nos dirigssemos a outra sala, onde todos os quadros estariam expostos. No eram s os meus, como 
pensei. Muitos mais estavam expostos. Depois acabei sabendo que muitos que ali estavam tambm eram pintores. Ficamos a conversar. Perguntaram h quanto tempo pintava, 
quem era minha fonte de inspirao e isso, com certeza, eu no diria. Vida estava em todas as telas. Sem pensar nela, minha mo nem se mexia. Foram nos conduzindo 
para fora da casa. A exposio comearia s dezoito horas. Teriam de chegar os convidados. Enquanto isso, sugeriram que ficssemos na varanda conversando. Um dos 
primeiros a chegar foi o homem que esteve em minha casa. Depois de falar com L.C., era assim mesmo que todos o chamavam, veio em minha direo me cumprimentando 
efusivamente.
- Como vo as crianas? Desculpe no ter voltado para ver se tinham melhorado, mas j estava de viagem marcada e no podia perder um importante compromisso. Vim 
aqui hoje mais por suas telas. Quero ver se adquiro todas. Tenho j comprador para elas, mas queria convid-lo para viajar comigo. Na Frana, tenho bons conhecidos 
que poderiam deslanchar por completo sua carreira. Ficaramos uns seis meses. Depois, se desse certo, voc ficaria um pouco aqui, dividindo seu tempo em viagens. 
Para comear, voc iria por minha conta. Eu cuidaria das roupas, hospedagem e tudo mais. Voc s se preocuparia em pintar.
Nem consegui de pronto responder. Como deixaria Vida? E Toninha? E as crianas? Elas eram responsabilidades minha.
- J sei, est pensando nas crianas, mas tambm tenho soluo para isso. Tenho uma boa ama, que ficar morando com seus filhos, dando ajuda a Toninha. No  esse 
o nome dela?
Ele j estava com tudo preparado, mas eu tinha quase certeza de que no poderia ir com ele. E a resposta saiu quase que atropelando meus pensamentos.
- Agradeo seu interesse, mas no poderei ir. Prometi a Pedro que nunca o deixaria e, se me afastasse agora que so pequenos, com certeza no entenderiam que seria 
em prol deles, para garantir um futuro melhor. Tenho certeza de que, com as telas que tenho vendido, junto com meu trabalho de ferreiro e mais a horta que est produzindo, 
garantirei o futuro deles, mas, se for possvel, conto com o senhor para vender meus quadros.
- Voc no est entendendo a profundidade da coisa. Se no viajares, no sers conhecido. Como queres ser reconhecido como grande pintor, se no frequentares a roda 
de pessoas famosas?
- No quero ser famoso - respondi - nunca pretendi isso. Quero s pintar minhas telas, ganhar o suficiente para dar s crianas um futuro garantido. Nada  mais 
importante do que minha vida em famlia. Quis tanto t-los, no vou deix-los por uma fama que no desejo, mas agradeo seu interesse e conto com sua ajuda, desde 
j lhe agradecendo.
- Sei que vais pensar melhor - disse ele - no aceito um no imediato. Tens tempo para dar a resposta certa.
E, dizendo isso, afastou-se indo ter com os outros. Eu fiquei ali isolado. Tinha cada vez mais vontade de voltar para casa, mas no podia fazer essa desfeita. Poderia 
ser encarado como um mau sujeito e minhas telas serem deixadas de lado. Fiquei ali taciturno, pensando naquele mundo to diferente. Enquanto eles tinham tanto luxo, 
crianas como as que eu tinha estavam perdidas, sem um po como alimento. Era uma diferena social muito grande. Acho que era isso que estava me fazendo mal. Nunca 
poderia viver desse jeito. Uma garrafa dessa bebida fina que estavam bebendo talvez desse para um ms de alimento, mas quem era eu para abrir minha boca e questionar 
qualquer coisa. Se o proco ali frequenta e no muda nada, eu, um ferreiro insignificante, se fosse falar alguma coisa, seria tido como abusado. Ali, eu era um hspede. 
Tinha de ser agradecido ao dono da casa. Assim, mergulhado em meus pensamentos, nem me dei conta de que tinham sumido. Levantei-me e os procurei, perguntando ao 
empregado aonde tinham ido.
- Foram fazer a sesta. A noite, por causa da festa, vai ser cansativa. No vais repousar tambm? O senhor j sabe onde  seus aposentos e, antes das dezoito horas, 
como foi marcado, a casa no ter movimento. O patro, nesse aspecto,  cuidadoso. Essa hora para ele  sagrada. Se ele no tiver uma sesta tranquila, fica mais 
que mal-humorado.
Agradeci a ele, perguntando se era possvel ver de perto os cavalos, ao que me respondeu:
- Esteja  vontade, as dependncias da casa esto ao dispor dos convidados.
E, assim falando, afastou-se, indo cuidar de suas tarefas. Eu fui fazer o que tinha pedido. Ver de perto o que tanto apreciava. Eram vrios tipos de cavalo. Todos 
de raa pura, com certeza. Tinha um negro que chegava a ser azulo. Seu olhar penetrava, como se pudesse dizer alguma coisa. Cheguei perto da cerca e o chamei. Ele 
se aproximou devagar, at chegar  minha mo. Acariciei-o, sua crina era longa, estava muito bem cuidada, parecia um prncipe de conto de fadas. Estava eu passando 
a mo em sua crina, quando veio um empregado assustado me dizendo:
- Senhor, afaste-se desse animal, ele  matador! Ningum consegue mont-lo. Ele j derrubou mais de dez. Ningum consegue dom-lo.
- Posso tentar? - perguntei.
- Senhor,  muito perigoso, sem ordem do patro, no poderei permitir. Se algo acontecer, eu serei responsabilizado.
Ento escutamos uma voz que vinha do alto da janela da manso.
- Pode deixar, Manoel! Pelo que sei, ele est acostumado a lidar com cavalos. S fique por perto, para ajud-lo, se precisar de ajuda.
Agradeci, fazendo um aceno. No queria me exibir, mas aquele olhar me cativou e queria senti-lo perto de mim. Entrei no curral, ele se assustou um pouco. Comecei 
a conversar com ele, acariciando seu focinho. Acariciei seu dorso, sua barriga, fiquei a mexer em sua crina e logo estvamos amigos. No quis arreio. Montei-o em 
pelo puro. No queria nada que o machucasse. Sabia que ele j fora muito ferido. Ele tinha marcas curadas, o que significava muito sofrimento. Fiquei montado e parado 
uns instantes, s conversando com ele. Falei de Vida, que vivia galopando numa gua de beleza estonteante. Perguntei se, por acaso, j a tinha visto. Se no, eu 
lhe mostraria um dia. Eram perguntas sem respostas, mas eu sabia que ele entendia. Aos poucos, ele foi se mexendo e se encaminhou para a porteira. Fomos cavalgando 
devagar, como se fosse um passeio. Dei uma volta pequena. No queria cans-lo com meu peso. Se ele no estava acostumado, logo sentiria diferena. Retornamos ao 
lugar de que parti, desmontei e agradeci, acariciando-lhe a barriga. Fechei a porteira e dei de cara com os empregados, que jogavam os chapus para o alto e me aplaudiam. 
Vieram me cumprimentar, dizendo eu ser o heri do dia. Acabava de domar o cavalo mais perigoso da redondeza.
- No o domei - disse - s dei um passeio com ele. Vocs tm de saber que o animal assustado faz coisas que um ser humano tambm faria.
Disse isso lembrando da forma como me receberam. Eles nem perceberam a ligao. Comemoravam como se fosse um grande acontecimento. Da janela de seu quarto, L.C. 
aplaudia, dizendo logo descer para me dar os cumprimentos. Eu estava sem graa. No era meu intuito, com aquele gesto, ganhar as graas de ningum. Apenas eu era 
louco por cavalos, e aquele, em especial, me impressionara.
Fui para o meu quarto me lavar. Estava todo suado, mais pelas pessoas do que pelo animal. Coloquei uma roupa leve e me deitei um pouco. Ali, recolhido em meu quarto, 
poderia pensar um pouco em Vida. Como eu estava com saudades, j me dava uma inquietao. Queria logo que chegasse a manh seguinte, quando eu sairia bem cedo. Tinha 
em casa muitas coisas para fazer, inclusive a colheita, para nada se perder. Nossas sobras eram alimento para os outros, e tambm queria ir ao encontro de Vida. 
Ficar tanto tempo sem ela deixava o ar rarefeito para mim. E, embalado nesses pensamentos, dormi. Acordei com um falatrio que vinha da janela que deixara aberta. 
Levantei bruscamente, pensando ter perdido a hora. Fui at a janela e vi um amontoado de pessoas. Todas bem vestidas, homens e mulheres conversando. L.C. cumprimentava 
a todos. Acho que j tinha comeado a festa e eu ali dormindo. Vesti-me, dei uma olhada no espelho: No estava m figura. S no tinha a tal correntinha, mas de 
resto acho que no faria feio. Eu era alto, musculoso e qualquer roupa que colocava sobressaa. Desci e fui ao encontro dos outros. Fui muito cumprimentado, mais 
pelo feito com o cavalo que pela pintura dos quadros. L.C. falava para todos do acontecido. Contava quantos aquele puro-sangue j derrubara e como eu o montei em 
pelo. Veio falar comigo e contou como ficou espantado. Ficou esperando uma reao do cavalo, temendo que ele me derrubasse.
- Ele s precisa de carinho - disse -  um animal valente e est assustado pelo modo como  tratado. Se o tentarem domar provocando dor, fazendo feridas em seu lombo, 
como as que eu vi e j esto cicatrizadas, com certeza nunca conseguiro colocar uma sela. Conversar com o animal, acarici-lo, faz parte do trabalho quando se quer 
o animal domado. 
Ao que L.C. me respondeu:
- No tire seus mritos! Hoje voc ganhou o dia. Dobrei o preo de suas obras e lhe darei como recompensa a diferena. E o mesmo se far com as telas que trouxe 
para serem vendidas. O preo subiu, quem quiser adquiri-las, agora, ter de pagar o dobro.
Agradeci por mim e por todos que dependiam daquele dinheiro. Fui circulando entre os presentes e todos me cumprimentavam como se me conhecessem h muito tempo. Eu 
j no sabia se era pelas telas ou pelo feito com o cavalo, mas estava feliz! Pela primeira vez, me senti bem naquele ambiente.
Todos os quadros foram vendidos. L.C. disse que acertaramos tudo na manh seguinte. Meu corao disparou, no era isso que eu queria. Queria partir bem cedo, quando 
todos ainda estivessem dormindo, mas no pude falar nada. Ele era o anfitrio. Eu no podia colocar regras no que j estava estabelecido. Fiquei amuado. Aquilo foi 
um balde de gua fria na minha alegria. Chegaria tarde em casa e, com certeza, no poderia ir ao encontro de Vida. Sentei num canto do salo e fiquei observando 
a festa. Era bebida para todo o lado. As risadas j eram mais altas, o que significava que a bebida j fazia seu efeito. Discutiam sobre tudo. Certas palavras eu 
nem entendia. No sabia se eram francesas ou inglesas. Tambm, para mim, tanto fazia.
At que certa hora veio at mim o marchand. Trazia com ele um moo que dizia ser um grande pintor. Inclusive, tinha vrias de suas obras espalhadas pela casa.
- Ele  reconhecido em vrios pases - disse ele. - Era o que eu queria que acontecesse contigo. Fama significa dinheiro, money, sabes o que  isso? Mas no uma 
simples migalha,  a certeza de uma gorda conta no banco. Poders comprar para as crianas roupas finas, de organdi, e sapatos de couro ou verniz. Seus meninos poderiam 
ser educados na Sua. Tenho l conhecimentos e teriam uma educao de primeira. Saberiam como se portar em encontros com rainhas.
- Nada disso me interessa, como j lhe falei! Preciso de dinheiro suficiente para t-los sempre comigo, mas naquela cidadezinha e com a ajuda de Toninha recebero 
a educao que precisam. No estou desmerecendo quem as tem, mas no  isso que pretendo para os meus filhos. Esperana  uma cidade pacata, mas, como o nome mesmo 
j diz, o surgir de um novo dia traz sempre novas expectativas. So coisas simples que certamente vocs no entenderiam.  o reformar uma charrete velha e v-la 
trabalhando, reluzindo. E, junto com amigos, plantar e colher e depois repartir o que vem em abundncia. E o riso das crianas quando chego do trabalho cansado, 
para logo esquecer da minha labuta. So as conversas com Toninha na frente da lareira, falando dos acontecimentos do dia.  pintar sem o compromisso de viajar e 
ter de deixar tudo isso.
Os dois ficaram me olhando boquiabertos, como se nada entendessem. Um porque acho que falava outro idioma, e o marchand porque tudo que acabei de dizer talvez significasse 
para ele "pobreza". Mas no mudaria minha resoluo. Se ele entendesse, tudo bem. Se no, continuaria a pintar, deixando que o destino se encarregasse de dar destino 
s minhas telas. Ele me cumprimentou e se afastou, levando pelo brao o rapaz.
Parecia que estava guiando um cego ou uma criana de tenra idade, quando comeava a dar os primeiros passos. No era isso que eu queria para minha vida. No queria 
quem me guiasse. Deus e Vida, com certeza, j faziam isso.
J se fazia tarde. O salo foi esvaziando, ficando poucas pessoas. Ento me dirigi a L.C., perguntando que horas acertaramos nossas contas.
- No sejas apressado, meu rapaz, a noite nem terminou. Se quiseres se recolher, amanh na hora do almoo acertaremos nossas contas. O horrio voc j sabe,  sempre 
nas doze badaladas.
E, falando assim, me deu as costas, continuando a conversa que eu tinha interrompido.
Fui para o meu quarto macambzio. A respeito dos quadros, tinha dado mais que certo, mas no gostaria de permanecer muito tempo mais ali. No gostava do ambiente. 
Ali, como percebi, as pessoas valiam de acordo com a grossura da corrente de ouro pendurada no bolso.
Dormi e sonhei com Vida. Eu estava com ela no campo com muitas flores e rodeado pelas crianas. Minha pequena Vida dava passos incertos em direo s outras crianas. 
Eu estava feliz como nunca tinha sido. As crianas maiores sabiam da importncia de Vida na nossa casa. Perguntavam por ela e por que estava sempre viajando. Por 
que no morava conosco, se Toninha dizia que ela era agora nossa me? Mas a cena que vi em sonho nunca tinha acontecido. Nunca tinha reunido as crianas e as levado 
aos meus encontros com Vida. Talvez fosse um aviso de que teria de fazer isso. Quando acordei, prometi a mim mesmo que no prximo encontro, com certeza, no iria 
sozinho.
Apesar do lindo sonho, acordei de pssimo humor. J gostaria de estar longe, quase chegando em casa. E ainda estava plantado ali! Arrumei-me e desci. Apesar dos 
pesares, estava com fome. No sabia se tinha horrio a primeira refeio, mas, se no encontrasse nada naquela grande mesa para comer, me dirigiria  cozinha. E 
foi o que aconteceu. A casa estava ainda dormindo, fora uns empregados que encontrei circulando. Estavam a limpar a sujeira da festa e andavam para l e para c 
como se fossem formiguinhas. L.C., com certeza, devia receber seu desjejum no quarto. No sabia que horas tinha acabado a festa nem se havia mais hspedes na casa. 
Dirigi-me  cozinha, e o empregado levou um susto.
- Senhor, em que posso servi-lo? Com certeza espera seu desjejum. Aguarde um pouco na sala, que logo colocaremos tudo na mesa.
Falava atropelando as palavras, como se tivesse cometido alguma falta. Coloquei a mo no seu ombro e disse:
- No precisa tanto esforo. Sento-me aqui mesmo e, por favor, me veja algo para comer.
- No, senhor! Aqui s sentam os empregados. Serei chamado  ateno, se lhe permitir isso. Por favor, aguarde um pouco, que logo ser bem servido.
No quis mais insistir. Com certeza, j era para tudo estar providenciado, e eu no gostaria que algum fosse repreendido por minha causa.
- Est certo! Esperarei um pouco, nem estou com tanta fome. Podes providenciar tudo bem devagar, no se preocupe comigo.
E, assim falando, me dirigi  varanda e fiquei a contemplar a manh. Era um belssimo dia. Com certeza, Toninha ficaria preocupada com minha demora. No deveria 
ter dito que ia chegar to cedo. Respirei o ar puro da manh e me senti melhor. Fui caminhar um pouco, agora longe dos cavalos. Estava a passear distrado, quando 
ouvi um conhecido cavalgar.
- Vida! Minha Vida! Como chegaste aqui? Pensei que s pudesses fazer um caminho, e que essas paragens fossem, para voc, desconhecidas.
Ela pulou do cavalo, daquele jeito que s ela sabia. Abraou-me apertado, dizendo:
- No vim visit-lo, Toninha precisa de ajuda. Ela est acamada, no tem foras para levantar. Alice e Joo esto tomando conta de tudo. Agora voc j sabe e tenho 
de ir embora.
Rpido como apareceu, se foi. Essa era minha Vida. Mas os poucos momentos em que ficvamos juntos pareciam uma eternidade. Logo lembrei o que ela fora fazer ali. 
Toninha estava acamada e precisando de mim. Voltei rpido  manso. Perguntei se L.C. ainda estava dormindo.
- Patro s acordar para o almoo. No quarto, bem cedo, foi servido seu desjejum.
Deixei o empregado falando e me dirigi ao meu quarto. Fiz minha mala e desci correndo a escada.
- Onde vai, senhor? O que me pediu est servido. Onde vai to cedo com essa mala? O que digo quando o procurarem?
- Por favor, diga ao seu patro que houve um imprevisto. Fui chamado em casa, pois tem quem precise de mim. Diga que pedirei ao padre que acerte as minhas contas. 
Agradea a hospitalidade e, com certeza, nos encontraremos de novo.
Fui embora apressado. Pedi ao empregado que me ajudasse com o cavalo, para ser mais rpido. Logo eu estava a caminho.
Angustiava-me saber que Toninha estava sozinha. Sozinha em termos. Com toda aquela crianada, era difcil se sentir solitrio, mas agora era diferente, eles eram 
cuidados por ela. E quem cuidaria dela? Galopava tentando cortar caminho por onde nem conhecia, mas seguia minha intuio que era o caminho mais rpido. Quando me 
aproximei da casa, meu corao disparava. Temia que pudesse acontecer algo a Toninha. Aprendi a am-la pelo seu jeito simples, seus gestos rpidos e pela fora que 
ela me dava em relao a Vida. Desmontei, entrei em casa correndo, largando o animal ali mesmo, sem lev-lo para o curral. Escutei barulho na cozinha, pensei ser 
ela e dei de cara com Joo e Alice preparando algo que no sabia o que era. Quando me viram, correram em minha direo dizendo:
- Pai, estvamos assustados. Toninha est doente, no consegue se levantar da cama. Os outros esto com ela. Mesmo na cama, ela no deixa que eles saiam de perto 
dela.
E, puxando a minha mo, me carregaram em direo ao quarto, gritando:
- Toninha, Toninha, o pai chegou! Agora podes ficar boa, ele no nos abandonou.
As crianas vieram correndo, todos agarrando minha perna. Pedro era o mais agitado, e dizia:
- Eu falei que o senhor no iria embora. Eu falei da promessa de que nunca nos abandonaria.
- Calma - disse. - Eu j estou aqui. Agora vo com Joo e Alice para fora brincar, que quero conversar com Toninha.
Eles saram em disparada. S Vida tinha ficado em seu bero, que ficava colado  cama de Toninha. Aproximei-me, puxei uma cadeira e sentei-me ao lado da cama. Toninha 
estava abatida. Seu olhar meigo parecia indagar: por que demorou tanto?
- Desculpe a demora - disse - o fazendeiro no quis acertar as contas que tinha comigo antes do meio-dia, mas, se a soubesse doente, com certeza teria voltado mais 
cedo.
- No se preocupe, disse ela.  doena de velho. Sinto muitas dores no corpo, principalmente nas pernas. Ontem  noite j estava com dificuldades, mas hoje no consegui 
me levantar desta cama. Mas que hora  essa? No acredito que j passe muito da hora marcada pelo fazendeiro.
- So quase dez horas. De fato, no fiquei para esper-lo. Naquela casa tudo funciona muito tarde. Dormem mais que trabalham, fora, lgico, a legio de empregados. 
Mas fique a quietinha, que vou at a cidade e trago, logo, logo o mdico. Ele, com aquelas poes misteriosas, logo a por de p. Levarei as crianas menores comigo. 
S deixarei Joo, Alice e Vida. Assim podes dormir um pouco, sem ficar preocupada de que algo acontea a eles. Dei-lhe um beijo e fui chamar as crianas. Disse aos 
dois maiores que no sassem de casa e, se fosse preciso, que ficassem com Vida. Eles pareciam dois adultos pequenininhos. A vida j lhes tinha ensinado que nem 
tudo so flores. Fui atrelar a charrete, as crianas ficaram num alvoroo. Coloquei os seis, tentando sent-los um levado e um mais quieto, para contrabalanar a 
baguna. Eles no tinham conscincia da doena de Toninha. Para eles, iam dar um passeio, e no chamar um mdico. To depressa quanto possvel, estava de volta. 
O doutor e sua maleta inibiam as crianas. Quando elas estiveram doentes, ele receitou um remdio que elas acharam ruim. Agora, quando o viam, ficavam com medo de 
que fosse acontecer a mesma coisa. Ele ainda brincava com eles, dizendo:
- Esto muito levados? Tenho um timo remdio para criana ficar parada.
Eles arregalavam os olhos e ficavam mudos, estticos.
Chegamos. Ele foi direto examinar Toninha. Disse que no era nada grave, uns dias na cama, passando a fomentao que receitara, e ela ficaria boa. Receitou uns caldos 
quentes, pois achara Toninha um pouco fraca e cansada. Eu fiquei com remorso. Eu naquela festa  qual no me entrosara e Toninha precisando dos meus prstimos. Levei 
o doutor de volta  cidade, carregando junto a crianada. Eles foram que foi uma beleza, nem parecia que tinha criana espremida na charrete, mas, na volta, j sem 
o doutor, eles fizeram uma verdadeira festa. Como eu os amava! Como senti falta deles quando estive afastado! Jurei para mim mesmo que, se tivesse de ir a algum 
compromisso de novo, toda a famlia iria junto comigo. Levei para Toninha o remdio que o mdico receitara. Eu mesmo apliquei em suas pernas, calando, em seguida, 
umas grandes meias. Ela reclamava que no iria ficar ali deitada. Mesmo com dificuldade, cuidaria das crianas.
- Deixe de ser teimosa - disse - precisas descansar ou o remdio no far efeito. D-me a oportunidade de cuidar de voc como fez comigo quando precisei da sua ajuda. 
A propsito: sabes como a soube doente? Por que nem esperei o despertar do fazendeiro e sa como um fujo de sua manso? Foi Vida que l esteve e disse que estavas 
acamada.
- Como l esteve? - perguntou Toninha. No  o caminho dela. Como chegou at voc?
- Eu estava dando um passeio, esperava a hora marcada pelo fazendeiro. Escutei um cavalgar conhecido e era Vida! Chegou rpida que nem o vento, desmontou, como s 
ela sabe fazer, me deu um forte abrao e me falou de voc. Disse que voltasse para casa, pois voc precisava de ajuda.
Toninha comeou a chorar.
- Minha filha, minha filha! Como tenho saudades de voc!
- No fiques assim, Toninha, se ela a soube doente, tambm saber que choras. Tenho certeza de que Vida ficar triste por provocar, com sua ausncia, essa tristeza 
em seu peito.
- No vou mais chorar - disse ela enxugando as lgrimas. -  que, s vezes, me descontrolo, mas  s por saudade. Sei que ela est mais perto que nunca. Sua presena 
aqui e mais as crianas so a comprovao de que ela nunca foi embora.
- Agora, durma um pouco, que vou levar Vida para a sala comigo. Vou lhe preparar uma canja, que, como dizia minha me, "levanta at defunto".
E, assim falando, lhe ajeitei as cobertas e fui fazer o que tinha prometido. As crianas estavam calmas. Brincavam quietinhas, como se entendessem que Toninha precisava 
de silncio para poder descansar um pouco. Pedi a Alice que tomasse conta de Vida e fui para a cozinha fazer o tal caldo quente. De repente, escutei me chamar. Era 
a voz do padre que vinha l de fora.
- Daniel! O de casa! No tem ningum que atenda a esse cansado padre?
Logo as crianas fizeram um alvoroo. Estava terminado o silncio. De uma s vez, correram todos para atender ao apelo do padre. Eu nem me mexi. Sabia que logo ele 
estaria ali na cozinha. Continuei preparando a comida, at porque j sabia o motivo de sua vinda. Chegou at a cozinha todo esbaforido.
- Ests escondido? Nem foste me receber - disse ele.
- Estou ocupado e com pressa. Preciso terminar o almoo. Logo as crianas estaro com fome.
- Toninha, onde se meteu? Deu uma sada e ainda no voltou? Ser que foi at a fazenda dos antigos patres?
Ele no me dava chance de explicar alguma coisa, era o seu jeito mesmo. Ou falava muito, at tentando adivinhar as coisas, ou dava desculpas e ia embora resmungando, 
como fez muito comigo.
- Toninha est acamada - disse - j fui  cidade buscar o mdico para lhe receitar e agora estou fazendo o que ele pediu. Um caldo bem quente para ela poder recuperar 
as foras.
- Eu no sabia, meu filho! Vim at aqui para lhe passar um pito! Recebi um recado do fazendeiro, agradecendo-me pelo sujeito mal-educado que lhe mandei na fazenda. 
De sua hospitalidade fez pouco, como escreveu ele, foi-se embora sorrateiramente, sem agradecimentos, como se fosse um bandido.
Eu, que estava nessa hora com uma faca afiada, cortando o frango, quase me cortei. Fiquei indignado com as palavras do padre.
- Padre, sabes que no sou desse jeito! Eu recebi um recado que Toninha estava acamada e no podia ficar esperando que ele acordasse na hora que bem entendesse para 
lhe fazer o agradecimento. Deixei um recado com um dos seus empregados agradecendo a hospitalidade e avisando que o senhor entraria em contato com ele para receber 
o que me era devido. Tenho plena conscincia do quanto me portei bem, mas no posso dizer o mesmo deles. Fui recebido como se fosse ladro. Era carabina para todo 
lado. O senhor sabia que os empregados de L.C. andam armados? Diz ele que  para impedir possveis assaltos a casa, mas no est certo. Como aconteceu comigo, pode 
acontecer com outros. E se no estiver sendo esperado, como eu estava? Pode acontecer algo irreparvel!
- Nunca vi armas naquela casa, disse o padre. Sempre fui bem recebido, so bons cristos, com a sorte de terem sido bem-nascidos. A sorte bafejou aquela famlia, 
e toda aquela ostentao, s vezes, assusta! J falei a ele sobre isso, mas ele sempre d um jeito de contornar as coisas. Quando comeo a falar sobre isso, ele 
pega sua carteira e auxilia a igreja. Ele  caridoso e eu no posso fazer nada. Cada um vive da maneira que melhor lhe convm. Prestar contas? Isso no  comigo, 
mas vamos deixar de conversa e vamos ver Toninha.
- Pode se chegar, padre. Ela no deve estar dormindo. As crianas fizeram uma barulhada com a sua chegada. E vou aproveitar que esto l fora brincando para acabar 
o que estou fazendo.
Ele foi ver Toninha e eu fiquei pensando no que me disse. De fato, estava doido para sair daquela casa, mas, se no fosse Vida, teria esperado as doze badaladas 
e almoado com ele. Mesmo com vontade de vir logo embora, eu era agradecido pela hospitalidade e por meus quadros terem sido vendidos. Estava absorto em meus pensamentos, 
quando me voltou o padre.
- Ela est a dormir - disse ele. - Deixei-a descansar e mais tarde voltarei para visit-la. Mas, a propsito, junto com o bilhete do fazendeiro veio este envelope, 
que estava esquecendo de lhe entregar. Enquanto falava, tirava o envelope de dentro da batina. Peguei-o e vi que era o que me era devido.
- Obrigado - disse -  o dinheiro que teria de receber com as vendas dos quadros. No deu tempo de acertar as contas com ele. Vim embora assim que recebi o recado.
- Quem foi lhe levar a notcia de que Toninha estava acamada? As crianas no podem ter sido. A fazenda  longe e o caminho desconhecido para elas.
Fiquei engasgado, sem saber a resposta. Fingi que no tinha escutado, pois estava contando o dinheiro.
- E ento, Daniel! Quem foi levar o recado? Na cidade todos sabem que foste  tal exposio. Mas, com certeza, no sabem do caminho.
- Deixei a cpia do mapa com uma pessoa. Estava preocupado em deixar Toninha sozinha com tantas crianas e me preveni um pouco.
Se ele perguntasse quem era, mentiria e diria que tinha sido Jos, mas, como ele voltaria  cidade antes de eu ter com ele, a mentira iria por gua abaixo.
- Ainda bem que s prevenido, disse ele. Falarei com L.C. e desculparei sua pessoa.
Respirei fundo, estava a salvo. Ele nunca acreditaria que o mensageiro tivesse sido Vida. Ele foi embora e eu acabei minha tarefa. Coloquei o caldo no prato, ainda 
fumegando, e levei para Toninha. Ela estava adormecida, mas temi que fosse de fraqueza. Chamei-a e lhe ofereci o caldo. Ajudei-a se sentar na cama, recostada nos 
travesseiros.
- V tomando pelas bordas - disse - se esfriar, no far o efeito desejado.
Fiquei ali com ela at todo o caldo acabar. Nunca tinha lidado com Toninha to frgil, e isso me penalizava. Quando ela acabou, lhe falei:
- Agora durma mais um pouco, que tomars um suador, mas, com certeza, amanh estars como nova! Ajudei-a se deitar de novo. Cobri-a e fui cuidar das crianas. Dei-lhes 
a mesma comida. Eles eram engraados, elogiaram, dizendo ser a comida mais gostosa que j tinham comido. Pedro, meu levado, fazia graas contornando com a colher 
o prato, dizendo que estava a pescar a galinha. Todos riam. Era uma bonita famlia! Comecei a rir tambm e lembrei que at aquela hora no tinha colocado nada na 
boca. Fiz meu prato e me sentei para almoar com as crianas. Eles tagarelavam, contando como tudo tinha se passado. Como foram chamar Toninha, que ainda estava 
deitada sem lhes preparar o leite. Contaram que ficaram a tomar conta dela, esperando a minha chegada. Agradeci a eles dizendo que eram preciosos. Que bom que podia 
contar com eles quando me ausentava de casa.
- Quando o senhor quiser sair, tomaremos conta de tudo! Falavam todos juntos. Faremos a comida, limparemos a casa e at podemos colher na horta.
- No, no! Obrigado!  muito trabalho para vocs. Basta que obedeam a Toninha e aos seus irmos mais velhos, que j estaro me dando ajuda. Agora, me ajudem a 
levar toda loua para cozinha, que vamos ver o que podemos colher de bom na horta.
Num instante, levantaram da mesa, colocando seus banquinhos arrumados. Eu os tinha feito com Jos e pintado uma figura com a letra de cada um do lado. Os pequenos 
que, no sabiam ainda ler, reconheciam a gravura e, ao mesmo tempo, aprendiam a primeira letra de seu nome. Fomos todos l para fora fazer o que eu tinha dito. J 
apanhavam os cestos e iam cantando atrs de mim, mas cantavam e discutiam quem seria o primeiro. Eles eram assim: alegria a todo momento. Pegamos o que estava bom 
para colher e voltamos para casa. Dei uma olhada em Toninha, que estava toda suada. Tinha de lhe trocar uma muda de roupa, mas como faria? Alice ainda era pequena, 
de certo no conseguiria. Lembrei, ento, da me de Vida. Iria busc-la e as coisas se ajeitariam. Peguei as crianas pequenas de novo, coloquei-as na charrete e 
fomos at a fazenda. Eles nos receberam com alegria. Pensaram que fosse uma visita domingueira, e ficaram preocupados quando lhes falei de Toninha. Prontamente se 
ofereceram para ir at a casa cuidar dela. Meu sogro (era assim que eu sempre o chamava) atrelou sua charrete e nos acompanhou at em casa. Quando l chegamos, Toninha 
j estava acordada. Ainda brigou comigo por ter ido incomod-los.
- Fiquei sem graa - disse - teria de mudar sua roupa, ento lembrei de quem poderia fazer isso e fui at a fazenda busc-los.
- Deixe essa teimosa comigo! - disse a me de Vida. - Vou aproveitar e lhe dar um banho de asseio, que ela logo se sentir melhor.
Deixei as duas no quarto e fui ver meu sogro, que estava s voltas com as crianas. Ele tinha no colo a pequena Vida, e seus olhos estavam cheios de lgrimas.
- Vamos dar um passeio? - disse. - Assim a casa ficar em silncio e Toninha poder descansar melhor.
Meu sogro aceitou de imediato. Disse que levaria Vida com ele. Fomos na charrete maior, que era a dele. E, dessa vez, Joo e Alice foram juntos. Fomos at o riacho, 
para as crianas poderem brincar um pouco. L chegando, ficamos sentados na relva, observando a baguna que faziam. Tinham tirado os sapatos e jogavam gua uns nos 
outros. Eu j ia me levantar para colocar um ponto final na baguna, mas meu sogro segurou o meu brao dizendo:
- Deixe elas se distrair. Um pouco de gua no lhes far mal, ao contrrio, dissipar um pouco dessa energia.
Acabamos por rir, porque eles pareciam que no cansavam nunca. De repente, se deu um alvoroo. Engraado, que por mais que eu fizesse esforo no consegui me levantar 
dali. As crianas  que vieram correndo, suas faces rosadas eram a marca da alegria do momento.
- Pai, venha ver! Ela est aqui. Est conosco na gua. Pedimos que viesse lhe falar, mas ela disse que no pode vir at aqui.
Meu corao parecia que ia sair pela boca. Meu sogro entendia muito bem do que as crianas estavam falando. Ele se levantou e pediu s crianas:
- Leve-me at ela, que preciso muito v-la.
Eu sa correndo na sua frente. Queria chegar primeiro, antes que ela fosse embora, mas, quando l cheguei, aconteceu a minha decepo. Quem estava a brincar com 
as crianas era aquela senhora que tinha me trazido Vida, junto com as duas irms. Quando cheguei perto dela, foi logo se desculpando. Dizia no ter abandonado as 
crianas, mas seu tempo era pouco e vivia sempre doente. Mas caminhava pelo riacho... As vezes encontrava o que comer e ainda tirava o cansao de suas pernas por 
caminhar na gua. No briguei com ela, fiquei penalizado. J era uma senhora de certa idade e vivia abandonada, ento lhe fiz a proposta:
- A senhora no quer vir conosco? Eu lhe darei abrigo e comida e, no final de cada ms, lhe darei algum dinheiro. Toninha est acamada e preciso de quem cuide das 
crianas agora e, depois que ela ficar boa, no a quero fazendo muito esforo.
-  bondade sua o que me oferece. Desde j aceito,  s o tempo de pegar minha trouxa e ir para sua casa, mas quanto ao dinheiro no precisa se preocupar. Trabalhar 
por casa e comida j est mais do que pago.
Despediu-se das crianas e disse que mais tarde as encontraria em casa. Meu sogro a tudo assistia, mas a decepo estava estampada em seu rosto.
- No era ela - disse - seria sorte demais! Sei que no conseguiria v-la, mas tinha a esperana que me falasse por intemdio das crianas.
- No fique assim, meu sogro! Hoje mesmo, com certeza, a encontrarei e lhe darei notcias. Agora vamos recolher as crianas e voltar para casa. Quem sabe Toninha 
teve melhoras e posso sair para encontr-la?
Quando chegamos em casa, quem nos recebeu foi a mais nova moradora. J tinha ido a casa e chegou j trabalhando. A mesa estava posta para o lanche, com as canequinhas 
e os banquinhos  disposio das crianas. Pedi que lavassem as mos e fossem fazer a refeio. Dona Margarida, era assim que a boa senhora se chamava, tambm foi 
uma bno em nossas vidas. Ajudava Toninha com as crianas e, quando saam, ajudava a levar as crianas na charrete.
Graas aos cus, Toninha melhorou. Ainda sentia poucas dores nas pernas, mas j caminhava melhor. Meus sogros levaram quatro crianas menores e trouxeram de volta 
no outro fim de semana. Os mais velhos tinham escola e no podiam se ausentar. Como prometi ao meu sogro, naquele dia fui encontrar Vida, mas no pude falar-lhe, 
j estava se fazendo tarde e fui embora para casa.
Uma semana se passou desses acontecimentos todos. Da exposio, eu pouco me lembrava. Tinha at esquecido do dinheiro que o padre trouxera. Assim que me lembrei 
dele, fui perguntar a Toninha o que faramos com tamanha quantia: se guardvamos ou continuaramos a obra em casa?
- Os dois - respondeu ela. - Temos de fazer uma boa cerca, pint-la de branquinho e construir mais uns dois quartos!
- Mais quartos! - exclamei. - J so seis ao todo! Daqui a pouco essa casa ficar igual  manso que conheci. - Ento eu comecei a rir. - Nada disso, Toninha. Voc 
est com a razo. Ao todo, somos doze nesta famlia, mas no sabemos se vai parar a. Faremos mais uma saleta e um quarto para que as crianas no precisem brincar 
na sala quando estiver chovendo. Amanh mesmo falarei com o pedreiro e comearemos a obra. Aproveitarei para pintar a casa da mesma cor da cerca. Agora, tenho de 
ir para o trabalho, j faz uma semana que me ausentei. Apesar de Jos ter me dispensado, o trabalho me espera!
Beijei as crianas e fui embora, mas no meio do caminho me desviei e fui ao local em que sempre encontrava Vida. Apesar de ser de manh, uma fora me empurrava para 
l. Quando me dei conta, j estava como sempre: sentado, encostado na rvore, como se fosse um encontro! Fechei os olhos e fiquei pensando na semana atribulada que 
passei. De repente, senti uma quentura no corpo e uma sensao que j conhecia. Quando abri os olhos, Vida estava ali na minha frente.
- No a ouvi chegar - disse - como veio, se no vejo seu cavalo?
- No importa como chego! Importa que estou aqui e no te deixarei to cedo. Sei que tens trabalho na ferraria, mas amanh dobras o servio. Tenho certeza de que 
Jos no ficar zangado contigo. Vim para saber da festa. Tambm no aguentava mais ficar sem voc estar perto.
E, dizendo isso, me beijou, e esqueci da semana atribulada. Ficamos a conversar at cair a tarde. Contei-lhe da manso e como eles gastavam inutilmente. Falei da 
proposta do marchand e como a recusei.
- No seria bom para voc, Daniel? Seria conhecido, encontraria outras pessoas e talvez at se interessasse por algum como voc...
- Como eu... como? O que tenho de diferente de voc? Amo-a como nunca pensei amar ningum. Tenho-a quando preciso, sinto sempre sua presena quando pinto, voc me 
ajuda com as crianas e at com Toninha. Indicou-me o caminho para a venda dos quadros. O que mais posso desejar? Viver igual a L.C.? Ou do jeito que o marchand 
nos ofereceu? Sabes que no  isso que quero! Na verdade, tenho mais que mereo. S lamento no ter chegado a esta cidade anos antes, para conhec-la junto aos seus.
- No faria a menor diferena - respondeu ela - teria de ir  noite para casa e ficaramos afastados de qualquer jeito. Faa de conta que somos namorados e que minha 
famlia mora muito longe. Assim poderamos mesmo nos encontrar de tempos em tempos, mas somos namorados diferentes, j temos famlia constituda e uma pequenina 
que recebeu at o nome da me de corao. Sinto pelos meus pais, mas no perteno mais quela famlia. A Vida que criaram j teve seu tempo terminado com eles. Fui 
feliz quando aqui vivi, mas no encontrei o amor to desejado por mim. Amo-te tanto, sinto ter de sempre ir embora, mas as horas que passamos juntos so uma eternidade 
para mim.
- No fique triste, Vida. Vou pensar que no  bom voc estar comigo. Nas primeiras vezes que te encontrei, eras s sorriso. Vamos pensar em coisas boas, vamos falar 
das crianas. Sabes que Pedro  o mais agarrado a mim?
- Todas essas crianas teriam de chegar a ti. J estava escrito, Daniel! Nada  por acaso, a no ser nosso atribulado encontro.
E, dizendo assim, comeou a rir.
- Assim que gosto de te ver - disse. - s vezes, quando aqui estou e voc no aparece, escuto suas risadas e meu corao se aquece. Ter voc comigo  uma bno! 
s vezes me pergunto, por que Deus  to bom comigo. J ia me esquecendo de lhe falar! Sabes aquela senhora que nos trouxe as trs meninas? Agora tambm mora em 
nosso lar. Ela precisa de companhia e ajuda, e Toninha tambm precisa de ajuda para cuidar das crianas. Ento ela est morando conosco e ambas esto se ajudando.
- Agora tenho de ir - disse Vida - j fiquei mais do que devia, mas voc sabe que voltarei. Beije as crianas por mim. E, assim dizendo, foi embora, rpida como 
o vento. Eu fiquei ali sentado, pensando na importncia dela na minha vida. Se ela no aparecesse mais, e apesar de amar demais as crianas, no poderia viver sem 
ela.
Depois desse encontro, dez anos se passaram, e pouca coisa de diferente aconteceu. O marchand nunca mais me procurou. O padre sempre levava os meus quadros e os 
vendia a fazendeiros abastados. Com esse dinheiro, fui reformando a casa e at aumentando a ferraria. Agora, Joo e Pedro trabalhavam comigo, menos na hora do estudo. 
Alice ficou uma bela moa, cada vez mais apegada a Joo. Toninha se preocupava com isso, dos rapazes da cidade, Alice nem queria saber. Quando amos  missa, eles 
a galanteavam, mas ela se esquivava, dizendo ter muito o que fazer. Minha pequena Vida j no era to pequena. Ia fazer onze primaveras e era o sol de nossas vidas! 
Estava sempre sorrindo, era meiga e adorava flores, como Alice e Vida!
As outras crianas (para mim nunca deixaram de ser) estavam bem encaminhadas. Estudavam de manh e  tarde cuidavam do pomar, da horta. Os meninos cuidavam dos cavalos 
que ao longo desses dez anos adquiri.
Joo era o que fazia a contabilidade da ferraria. Pedro entrava em contato com os habitantes de outras cidades, lhes falando de nossos servios. Ele adorava esse 
servio! s vezes, dizia que teria de passar a noite em outra cidade, mas Toninha o cortava, dizendo que, se sasse bem cedinho, teria tempo de voltar no mesmo dia. 
Meus sogros estavam um pouco cansados. J no iam a nossa casa com a mesma preciso. Agora eram os meninos que l iam. Eles os adoravam, chamando-os de avs. Minha 
Vida eu sempre encontrava, s brincava com ela que eu estava envelhecendo e ela permanecia no frescor da idade. Brincava, dizendo que quando fosse j idoso ela desapareceria 
de minha vida. Ela ria, dizia que aos seus olhos eu nunca mudaria. Seria sempre seu galante prncipe, que um dia tentou salv-la, segurando o cavalo pelas rdeas; 
e assim fomos vivendo.
At que nos surpreendemos com o que estava acontecendo. Joo, certa noite, chegou em casa trazendo pelo brao uma mocinha da cidade. Disse ele que era uma amiga, 
mas, pela atitude de lev-la em casa para nos apresentar, achamos que era mais do que isso. O mesmo pensou Alice. Fechou-se em seu quarto e, depois daquela noite, 
quase no falava e no comia. Chamamos o doutor, pois ficamos preocupados. A tez estava plida e nem foras para levantar do leito parecia que ela tinha. Toninha 
chorava pelos cantos. No queria mais uma perda na sua vida. Dizia ela que, se algum tinha de ir ter com Deus, que ele escolhesse ela. O doutor, depois de muito 
examin-la, quis ter comigo uma conversa reservada. Pensei logo no pior, ento fiquei assustado. No queria perder minha menina, eu a amava demais. Mas fiquei espantado 
com o que ele disse:
- Sua menina est doente de paixo. Disse que sua vida no importa mais. Dela ningum mais precisa, principalmente Joo. Contou ela que ele tem namorada e dali a 
pouco estariam casados e ela no queria viver para ver. Sinceramente, no entendi nada! Sei que vivem grudados, mas tambm sei que so irmos!
Agradeci ao doutor a visita, peguei a receita onde ele tinha prescrito umas vitaminas e encaminhei-o  porta de casa. Fiquei pensando no que estaria acontecendo. 
E como faria para desvendar tudo aquilo. Fui conversar com Toninha e falei-lhe do que o doutor tinha dito.
- Eu j esperava por isso - disse ela - talvez os dois, antes desse acontecimento, no tivessem se dado conta, mas eu j tinha percebido o amor de Alice por ele. 
No falei nada, porque poderia estar enganada. Eles so irmos e colados desde pequenos, s poderia ter amor entre eles. O que faremos agora?  uma situao delicada 
que teremos de resolver.
- Cuide dela, no fale nada sobre isso, que vou ver se encontro algum que tenha uma opinio formada.
- Vais ao encontro de Vida? - perguntou Toninha.
-  o que consigo pensar agora. Sei que ela dever estar sabendo de tudo e tenho certeza de que sabe a resposta!
Deixei Toninha tomando conta de Alice e fui esperar Vida. Tinha certeza de que apareceria; as crianas precisando, ela nunca faltaria. Fiquei sentado na relva como 
sempre, encostado na rvore, absorto, quando a vi chegar. Linda como sempre! Seus cabelos esvoaando ao vento, como na primeira vez que a vi. Saltou do cavalo e 
veio em minha direo correndo. Abraou-me fortemente, dizendo:
- Alice precisa de ajuda.
- Por isso que estou aqui! - disse - ela est acamada, sem foras para nada, e o doutor veio com uma conversa de que ela est apaixonada.
-  verdade, Daniel! Eu j esperava por isso. Bastava um acontecimento, para os dois darem conta disso.
- Mas eles so irmos! - disse.
- So como irmos - respondeu ela. - A nica maneira de no ficarem juntos  se Joo no tiver o mesmo interesse nela, mas isso no se passa, na verdade. O que est 
acontecendo  que na cabea de Joo eles so irmos realmente. Ele sofre! Est apaixonado por ela, mas pensa ser pecado, pois foram criados como irmos. Daniel, 
 uma situao delicada, tens de saber falar com eles em separado e depois os unir para sempre.
- Uni-los para sempre, como? Vida, ests pensando em unir Joo e Alice em matrimnio? Ns os criamos como irmos, e  assim que todos na cidade os recebem.
- Tero de os receber diferente! Se o amor mais forte os uniu, por acaso no foi. Eles j estavam predestinados um para o outro. Eles j tinham uma histria anterior, 
e s vo complet-la nesta vida. Se os separarmos, haver muito sofrimento e Alice poder at desencarnar, sem viver esse amor que lhe foi prometido.
- Como fao? - perguntei a ela. - No sou o mais indicado nessas coisas de relacionamento.
- Com Alice no  preciso falar nada!  em Joo que ters de separar o amor de irmos e transform-lo numa linda unio de amor. Diga o que acabei de lhe falar. Eles 
j estavam predestinados um para o outro, e pecado ser se no tentarem viver felizes esse amor que a vida lhes d. Fale com ele, Daniel! E depois os traga aqui. 
Abenoarei a unio deles. D um abrao em Toninha e nos nossos outros filhos!
E, assim falando, foi embora a galope, como sempre fazia. No voltei para casa, fui direto para a ferraria. Joo estava trabalhando, e l era o melhor lugar para 
falar sobre Alice. Quando cheguei, ele estava a falar com Jos. Falava da nova amiga e como ela o ajudava nas escritas. Entrei j perguntando:
- Ests apaixonado por ela? - ele levou at um susto.
- Pai! No o ouvi chegar! Como est Alice? O que o doutor falou?  grave?
- Calma! - disse. - No  nada que no passe com uma boa dose de amor. A propsito, no respondeu a minha pergunta! Ests apaixonado por sua amiga?
Ele abaixou a cabea envergonhado, respondendo:
-  apenas uma amiga, tem me ajudado muito nas escritas, mas no estamos namorando, nunca falamos sobre isso. Ela  apaixonada pelo rapaz que ajuda o padre na igreja. 
S a levei em casa porque a considero minha amiga.
Fui at ele e o abracei.
- Joo, vamos dar uma sada,  quase hora do almoo e tenho certeza de que Jos no vai se importar.
- Lgico que no! - disse Jos - pegando o servio que Joo estava fazendo. Deixa que eu termino isso. V com seu pai conversar um pouco, que seu padrinho faz seu 
servio.
Joo comeou a rir, e samos dali abraados. Peguei minha montaria e ele a dele e cavalgamos lado a lado.
- Pai, o que est acontecendo? Alice est acamada e o senhor quer ter comigo uma conversa! O que foi que eu fiz? S no fiquei ao lado de Alice porque precisava 
trabalhar. E sei tambm dos cuidados de Toninha, que no deixar nada acontecer com ela.
- Vamos arredar daqui, sentados na relva conversaremos melhor sobre isso.
E fomos a galope at o local em que me encontrava com Vida. Estvamos exatamente sob a rvore onde sempre a esperava. Ali eu teria mais fora e encontraria, com 
certeza, as palavras certas.
- Sente-se, Joo! Aqui ficaremos tranquilos. Poderemos conversar sem que ningum nos interrompa.
- Estou ficando preocupado, pai. O senhor nunca me chamou para falar srio. Nem quando comecei a trabalhar! Comecei como se estivesse brincando e aprendi o ofcio 
de ferreiro.
- Filho, quero hoje contar a voc uma linda histria de amor. Conheces Vida, sabes que sempre a encontro, e vocs quando pequenos sempre a viam. Sempre perguntaram 
por que no vivamos juntos. Sempre dei a desculpa das muitas viagens e como ela no poderia morar conosco. Vocs cresceram amando-a e tendo contato permanente com 
seus avs, que so os pais dela.
- Pai! Sei de tudo isso. Nunca consegui entender direito, mas cresci aprendendo a am-la, como meus irmos tambm, por intermdio do senhor. Aprendemos a v-la sempre 
nos campos e nunca em nossa casa ou na de nossos avs. Ela foi embora para nunca mais voltar?
A eu me embaralhei todo. Tinha de lhe falar de Alice e estava falando de mim. Mentalmente pedi auxlio a Vida, para que me ajudasse nesse momento. Deitei na relva 
e ele fez o mesmo.
- Ests vendo aquela imensido que  o cu? - perguntei. -  l que Vida mora. Vocs, quando pequenos, no entenderiam, mas agora, j adultos, prestes a formar famlia, 
tm o direito de saber de tudo.
E assim lhe contei como aconteceu e como minha vida mudou desde que ali cheguei. Contei-lhe, com todos os detalhes, at como virei um pintor. Disse como a amava 
e como ela tinha trazido as crianas para formarmos a famlia que eu tanto sonhava.
- Vocs, Joo, foram bnos em nossas vidas!
Quando olhei para o Joo, ele estava com os olhos transbordando em lgrimas, e perguntou:
- Como pode ela viver l em cima e vir falar com voc e cuidar de ns todos, pai! Se ela fosse esprito, como o padre diz, seria um fantasma e o lugar teria de ser 
exorcizado para ela descansar em paz.
- Isso  o que o padre diz, mas no  o que acontece na verdade. Ela desencarnou, mas tem todo o direito de cavalgar por essas paragens. Acho que era para nos encontrarmos 
e podermos cuidar de todos vocs. Sei que  difcil de entender, mas quando dois seres esto predestinados, mais cedo ou mais tarde, independentemente de qualquer 
circunstncia, juntos vivero. Eu assim aceitei. s vezes meu peito arrebenta de saudades por no poder t-la a todo instante, ento eu sofro. Mas, quando chego 
em casa e vejo vocs, que foram trazidos por ela, agradeo a Deus por ter me dado tantos momentos bons. Se amamos algum de verdade, se for um amor puro, com certeza 
 abenoado por Deus. Joo comeou a chorar, que estremecia. Deixei-o desabafar e o coloquei junto ao meu peito. 
- Ests sofrendo, Joo. O que est acontecendo? Sabes que mais que um pai, tens em mim um amigo.
- Pai, estou confuso. Nem consigo dormir direito. Tenho um amor no peito que me  proibido.
- Alice? - disse.
- Como o senhor sabe? Nunca falei nada para ningum. Nem para o meu padrinho, a que fao muitas confidncias.
- Joo, Alice o ama tanto quanto voc a ela. Por que no veio falar comigo sobre isso?
- Porque  pecado, pai! Alice  minha irm! Deus no abenoar ns dois, se ficarmos juntos!
- Vocs, na verdade, cresceram juntos, mas como a me de vocs disse: "Os dois viveram colados, no foi por acaso. Vocs estavam predestinados um para o outro".
- O senhor permite? No estaremos em pecado? E o que dir o padre? Com certeza, nos far um sermo.
- Joo, vocs so nossos filhos de corao. Nunca deixarei que ningum os magoe, nem que seja um padre. Agora vamos para casa contar a novidade para Alice. O doutor 
disse que a doena dela  paixo recolhida. Ficou com cimes de sua nova amiga e no via mais sentido em viver. Vamos primeiro falar com Toninha. Depois, todos juntos, 
falaremos com Alice. J falei com Vida. Ela quer que, depois de tudo resolvido, os traga aqui para abenoar a unio de vocs. S uma coisa, Joo: o que lhe falei 
sobre sua me tem de ser um segredo nosso. Aos poucos, quando houver necessidade, vou contando aos outros. Como voc mesmo disse, no quero que a pensem fantasma. 
Ela  s um esprito de luz, com direito a essas viagens.
Abraamo-nos apertado e fomos montar em nossos cavalos em direo a casa. Toninha ficou radiante de alegria! A unio de seus meninos maiores lhe dava a certeza de 
dever cumprido. Alice se debulhou em lgrimas e dizia saber do amor por Joo desde pequenininha.
Seis meses se passaram. Foi tempo suficiente para preparar a surpresa. Jos estava encarregado da festa de noivado. Pedi que preparasse as bandeirolas e encomendasse 
os quitutes nos melhores fazedores da cidade. No queria que Toninha tivesse mais trabalho, bastava ela cuidar dos meninos. Dona Margarida era uma pessoa calada, 
mas de muita ajuda para Toninha. Encarregou-se da cozinha e preparava quitutes que os meninos adoravam. Mas pedi a Jos que se encarregasse de tudo, porque seria 
uma festa surpresa para Joo e Alice.
Alice e Joo eram s alegria. Seus irmos, felizes com a felicidade deles, compartilhavam de tudo em segredo. Graas aos cus, dinheiro no faltava. Agora me dedicava 
mais  pintura do que  ferraria. Aos poucos, Joo foi me substituindo, at eu pouco ir at l. Os outros meninos cuidavam dos cavalos, quando no estavam na escola. 
Quando, por qualquer motivo, tinha de lev-los  ferraria, ficavam l at tarde. Parecia que todos gostavam do mesmo ofcio. Mas voltando  festa...
O grande dia se aproximava. Pedi a Toninha que fosse com as meninas  cidade e comprasse o que mais lhe agradasse. Era um sbado ensolarado. A casa amanheceu com 
cheiro de festa. Disse a Joo e Alice que teramos de sair cedo, pois tnhamos compromisso acertado. Joo sabia que era o encontro com Vida, mas Alice tudo ignorava. 
Ela se aprontou e estava linda! Seu vestido rosado, enfeitado com fitas de seda e babados
plissados, lhe dava ar de princesa. Peguei a charrete e fomos os trs ao encontro. Antes, pisquei o olho para Pedro, era o sinal para comear a enfeitar a festa. 
Alice se tornou uma linda moa! As faces rosadas e a alegria estampada no rosto eram um blsamo para as minhas dores. Ela tinha colocado um chapu rendado, que emoldurava 
mais ainda o seu rosto. Joo estava compenetrado, guiava a charrete como estivesse encaminhando para a igreja. Chegamos ao local do encontro. Quando desci da charrete, 
dei a mo a Alice para descer tambm, e ela logo perguntou:
- Pai,  aqui o encontro? Ser que  quem estou pensando? Minha felicidade seria completa se nossa me viesse ao nosso encontro.
- Ela vir! Prometeu e sempre cumpre suas promessas, mas, enquanto a esperamos, quero lhe contar uma histria de amor que j contei a Joo. E assim, todos sentados 
na relva, repeti a mesma histria que Joo j sabia. Quando acabei de narrar, Alice chorava copiosamente. No queria acreditar que Vida, sua me de corao, era 
um esprito!
- Pai! No pode ser! Ela est viva! Eu sempre falei com ela. Quando brincava no riacho ou quando brincava com meus irmos e me escondia por entre as rvores, muitas 
vezes a peguei nos observando. Como se tomasse conta para nada nos acontecer, mas ns a sabamos muito ocupada. Sabamos que sempre viajava para longe da fazenda. 
Agora o senhor me diz que ela no existe! Ser esprito significa que j est morta! No acredito que seja verdade! E, assim falando, chorava copiosamente.
- Filha, compreenda. A vida  um mistrio, dos desgnios de Deus nada sabemos. S sei que Vida  real em minha vida. Foi junto com ela que criei vocs. E, agora 
mesmo, a pedido dela, estamos aqui.
Nisso, ouvi um cavalgar. Era Vida que chegava.
- Daniel! 
Levantei da relva e corri ao encontro dela.
- Vida, trouxe as crianas, como voc pediu. Alice est triste, chorosa, porque lhe contei a nossa histria.
- Como meus pais, eles sabero de minha presena, mas s quem pode ainda me ver como voc  a pequena Vida. Mas vamos at eles, lhes falarei por seu intermdio.
E assim aconteceu. Joo logo quis saber por que no a viam. Ficou tristonho, mas por pouco tempo. Eu lhes falava por ela. Ela os abenoou, lhes falou de seu amor 
e que nunca estaria longe deles. Queria que fossem muito felizes e que tivessem muitos filhos abenoando a unio. Nisso, ela me pediu para que os dois se ajoelhassem 
e trocassem as alianas que eu trazia guardadas no bolso. Quando assim o fizeram, caiu sobre eles uma chuva de ptalas de rosa. Ali ficou para eles a comprovao 
de que Vida era um esprito, mas os amava como filhos. Vida se despediu emocionada. Foi a primeira vez que a vi ir embora sem cavalgar rpido. Eu estava muito emocionado 
e, de repente, levei a mo ao peito e ca sentado na relva.
- Pai! O que houve! - perguntaram os dois me abraando.
- No foi nada demais - respondi. Esse seu velho pai no aguentou tanta emoo, mas no falem nada com Toninha. Hoje  dia de noivado e no de caras tristes, por 
preocupao, por nada.
Os meninos me ajudaram a levantar e fomos para a charrete. Em casa, com certeza, j estaria tudo pronto. Fomos embora deixando a relva coberta de ptalas. No meio 
delas dois lugares vazios indicando que algum dali sara.
Chegamos logo em casa. Alice, quando viu tudo enfeitado, bateu palmas igualzinho como fazia em pequena quando estava feliz com alguma coisa. Joo a ajudou a descer 
da charrete e logo todos saram de casa, juntamente com o sanfoneiro contratado por Jos. A alegria era geral. Abracei Toninha e lhe falei da bno dada por Vida. 
Fiz o mesmo com meus sogros. Queria que eles soubessem que em tudo havia a presena viva de Vida. A festa foi animada. Uma mesa comprida foi colocada do lado de 
fora da casa, ornamentada, e variados quitutes estavam sobre ela. As irms pajeavam Alice, dando a certeza de seu amor por ela. Pedi a Jos que convidasse os amigos 
da cidade. Todos compareceram. A festa estava animada! De repente, como sempre, chega esbaforido o padre.
- Daniel! Saste de casa hoje? Foste naquela rvore onde sempre o encontro?
- Calma, meu padre. Assim o senhor ter uma sncope! Do que est falando?  melhor o senhor sentar primeiro, beber alguma coisa, para depois comear a rezar.
- No estou para brincadeira, Daniel! No vim aqui fazer sermo nem orao. Vim aqui para festejar, mas passei agora mesmo perto daquela rvore onde voc fica horas 
e horas sentado e vi uma coisa muito estranha. O cho estava coberto de ptalas de rosa e, no meio dele, s a relva vazia, como se algum estivesse ali quando elas 
caram.
Fiquei calado sem saber o que responder, mas Toninha, que a tudo assistia, veio em minha ajuda falando pata ele:
- Sua bno, padre. Escutei o que estavas a falar com Daniel, mas, se o senhor que l esteve no sabe como aconteceu, como saber Daniel, que est aqui na festa 
dos filhos?
O padre coou a cabea e saiu resmungando "muito estranho... muito estranho. Dei um beijo em Toninha e fomos ver se estava tudo em ordem.
Foi uma noite maravilhosa. Dona Margarida foi de grande ajuda. Estava em todos os lugares possveis, fazendo com que todos fossem bem servidos. Era a primeira grande 
festa dada naquela casa. Meus sogros cedo se retiraram, pois a idade avanada no lhes permitia tamanho cansao. Toninha estava feliz como nunca. Depois que todos 
se retiraram e os meninos foram dormir, ficamos s ns dois a conversar, como sempre fazamos. Lembramos de quando eram pequenos, e Alice de Joo no desgrudava. 
Como disse Vida, j era destino planejado. Ficamos a conversar at o amanhecer. As lanternas da festa j estavam todas apagadas, indicando que precisvamos dormir.
Daquele dia em diante, no se falou em outra coisa. Era assunto de festa para todo lado, e Toninha, com as meninas, ensinando os bordados. Toninha queria enxoval 
de princesa. Quando eu chegava em casa, eram peas de fazenda para todo lado. Quando eu estava no ateli (pois o constru no segmento da casa), escutava as risadas 
das meninas. Toninha as ensinava e elas o faziam como se fosse uma brincadeira. Eu j tinha conversado com Toninha. Tnhamos no banco depositado mais do que o suficiente 
para comprar para eles uma modesta casinha. E logo fui falar com Joo e Alice. Teramos de ir  cidade ver se alguma conseguamos. Seria melhor para o Joo. No 
teria de se deslocar muito para ir trabalhar. Para minha surpresa, recusaram de imediato. No queriam se afastar de ns, vivendo isolados na cidade. Ali eram felizes 
e, como disseram, no seriam felizes vivendo longe de ns. Nesse mesmo dia que lhes fiz a proposta, apareceram l em casa os pais de Vida. Vieram oferecer ao casal 
moradia. Disseram estar velhos, e eles seriam uma tima companhia. Alice no respondeu de pronto. Olhava srio para Joo, esperando que ele desse a resposta certa. 
Eu fiquei calado, tambm esperando. Ir l morar ou no dependia deles. Eu no podia resolver nada. Era a vida deles. Mas meu corao ficou apertado. A fazenda era 
um pouco longe e Alice era colada em mim. Joo agradeceu-lhes dando um beijo, respondendo que a proposta era abenoada. Mas, como j tinha me dito, no queria se 
afastar de casa. Meu sogro, ento, deu logo a soluo:
- Vamos construir uma casa, ali perto das rvores. Eu contribuo com uma parte do dinheiro para levantar a casa.
Joo o abraou fortemente e a me de Vida ficou cheia de lgrimas nos olhos. Depois da partida de Vida e da viagem dos outros filhos, a alegria deles eram essas 
crianas, principalmente Alice, Pedro e Joo, que foram trazidos por Vida. Comemoramos a soluo dada por ele. Fomos logo l para fora, para medir o terreno a ser 
aproveitado. Logo a construo estava sendo feita. Os cus ajudaram, me dando inspirao e continuando a vender meus quadros. Agora Pedro tambm se encarregava disso. 
Quando ia oferecer servios da ferraria nas cidades prximas, aproveitava para vender meus quadros. Contratamos pedreiros da redondeza, que no cobravam muito e 
faziam um servio perfeito. Nos fins de semana os meninos ajudavam, com Joo no comando os orientando. Em seis meses, a casa ficou pronta. Parecia uma casa de boneca. 
Toninha fez, para as janelas, cortinas rendadas, e Joo as pintou de amarelo bem claro. Os meninos fizeram, no correr da entrada, dois lindos jardins. Pedro, cada 
vez que chegava das viagens, trazia algum enfeite para a casa.
Quando tudo estava pronto, fomos falar com o proco. Teriam de correr os papis para o casamento, mas documentos, mesmo, s Alice os tinha. Uma certido amassada 
que veio junto com sua roupa, quando foi deixada por sua me na entrada da cidade. Mas Joo, que com Pedro apareceu como perdido, nada trouxe de seu. E documentos, 
mesmo, s os que foram arrumados na escola. Foi assim que Pedro e Joo se tornaram meus filhos, com meu sobrenome. Sobrenome que eu tinha tanto orgulho e queria 
deixar como herana aos meus filhos. Assim os registrei e dei entrada na papelada. Logo fiz o mesmo com os outros, culpando-me por no ter feito h mais tempo, quando 
eram crianas. Mas, no fundo do corao, eu sempre temi que, de repente, aparecessem seus pais e os levassem com eles. Ento, eles foram ficando sem que eu tivesse 
providenciado tal documento. S a certido de batismo dada pelo padre todos tinham, guardada comigo.
E assim chegou o grande dia: Joo foi se arrumar na fazenda dos avs e Alice ficou em casa, sendo ajudada pelas irms. A pequena Vida era a mais entusiasmada. Estava 
linda naquele vestido rendado. Toninha a enfeitou com flores no cabelo, parecia um anjo sado de minhas telas. Alice estava linda! Quando ficou pronta e chegou  
porta de casa, emocionei-me muito, levei a mo ao peito e tombei, j vendo tudo escuro. Acordei com as meninas chorando e um frescor em minha testa. Pensei ser Vida, 
com o leno molhado com as guas do riacho, mas, quando abri os olhos, vi que era Toninha que cuidava de mim. No seu rosto, a preocupao era aparente.
- Daniel! Que sentes? - perguntava ela.
-  s emoo - respondi.
E fui me levantando, pedindo que ningum ficasse triste. Disse que j estava bem e no devia mais existir preocupao. As meninas me abraavam, me apertando, perguntando 
onde doa. Os rapazes, que quando passei mal j estavam em seus cavalos, agora me rodeavam preocupados, dizendo que a cavalo eu no poderia ir. Diziam que eu teria 
de ir com a noiva na charrete e, depois que passasse o casamento, me levariam ao doutor. Repliquei dizendo estar muito bem, que no precisava tantos cuidados comigo. 
Apressei-os, dizendo que amos perder a hora marcada para a cerimnia do casamento. Foi a que vi Alice sentada no cho, maculando aquele vestido to branco! Ajudei-a 
se levantar e ela me abraou chorando.
- Pai, no  a primeira vez que passas mal. Se no me prometeres ir ao doutor, no arredarei o p daqui.
- Deixe de bobagens - disse - como da outra vez, me recuperei rpido. Mas lhe prometo que me cuidarei. Irei amanh mesmo me consultar com o doutor. E as prescries 
que ele fizer, acatarei direitinho. Agora vamos embora, seno Joo aparece aqui.
E assim chegamos logo  cidade.
Jos mandou enfeitar at em frente  igrejinha. Alice era sua afilhada e tinha dele o maior dengo por ela. Quando nos aproximamos, os sinos comearam a repicar. 
Controlei minha emoo. No queria estragar o grande dia de meus filhos. Toninha estava cabreira. De vez em quando, a olhava e via que ela no desgrudava os olhos 
de mim. Apesar de estar feliz, eu via em seus olhos a preocupao pelo que acontecera. Foi uma linda cerimnia! A pequena Vida tinha ensaiado direitinho com Toninha. 
Ia abrindo caminho para a noiva, jogando ptalas no cho. Atrs de Alice vinham as irms, segurando a cauda de seu vestido de noiva. Joo esperava no altar com Pedro 
e os avs. Estava todo empertigado em seu terno riscado com um cravo no peito. Pedro era a alegria estampada. A igrejinha estava cheia. Da cidade, todos foram convidados. 
Como era uma cidade pequena, todos se conheciam, e no era de bom-tom deixar algum fora da lista de convidados. At porque o padre j tinha convidado a todos no 
ltimo sermo de domingo. Ele aproveitou o momento e falou sobre as crianas abandonadas. "Nem todos tm a sorte de encontrar uma famlia formada, que os acolha 
com amor", e seguiu falando por mais de uma hora. Jos at brincava, dizendo que o padre no acabaria, porque havia perdido o fio da meada. Pedro ria, esquecendo 
onde estava. Dei um pito nos dois, pedindo que fizessem silncio. Dali a pouco, o proco os estava abraando. Tambm ele estava emocionado. Sabia que foram crianas 
largadas pela famlia e honra lhe seja feita: sempre se preocupou, dando ensinamentos e me ajudando a cri-los. Fomos todos para a fazenda dos pais de Vida. L tinha 
sido organizada a festa. Os avs providenciaram tudo, no permitindo que eu gastasse nada. Foi assim que conheci os irmos de Vida. Todos tinham vindo para o casamento. 
Mais que um convite, foi um ultimato que seus pais fizeram. Joo e Pedro eram seus netos trazidos por Vida, e Alice, a primeira a aparecer levada por ela. Eles tinham 
carinho por todos os meus filhos, mas era visvel a afeio que tinham por esses trs. s vezes, era at motivo de cimes. Os irmos reclamavam que no tinham dos 
avs a mesma ateno. Os irmos de Vida eram muito amveis. De minha histria pouco sabiam. S lhes foi contado que eu morava com Toninha e tinha nove crianas adotadas.
A festa foi at a madrugada. O sanfoneiro, j cansado, tinha exagerado um pouco na bebida e dormia com a sanfona agarrada nos braos, como se ela fosse uma pessoa. 
Graas aos cus, terminou tudo tranquilo. Dormimos todos na fazenda aquela noite. Alice e Joo, depois da valsa, foram para a casa nova. Passaram pelo cordo humano 
que os convidados formaram, recebendo uma chuva de arroz. Agradeci, naquela hora, a Deus, pedindo que lhes desse muito amor e fartura. Toninha j era cansao visvel. 
Despedimo-nos do restante dos convidados e nos recolhemos. O dia seguinte seria rduo. Tnhamos de limpar toda a fazenda e organizar tudo para levar aos dois moos 
a pilha de presentes que lhes foram dados.

CAPTULO 3
O tempo passa rpido!

Logo tudo tinha ficado longe, seis meses j tinham se passado. Como sempre, estava eu sentado sob a rvore esperando por Vida. No era a primeira vez depois do casrio. 
Sempre nos encontrvamos, nem que fosse por uma hora. Mesmo depois de dias ou semanas, eu sempre comparecia ao local do encontro. Tudo tinha voltado ao normal. Alice 
e Joo no viviam mais em nossa casa, mas moravam to perto, que, de fato, continuvamos todos unidos. Como prometi aos meus filhos, fui procurar o doutor. Ele ficou 
preocupado e me pediu uma srie de exames.
-  cansao - disse - minha sade est boa. S preciso de uns dias de descanso.
Mas ele no acreditou em mim e tive de fazer os tais exames. O resultado no foi do agrado dele. Meu corao estava com batidas descontroladas, o que significava 
que no estava em perfeito estado. Receitou-me uma srie de remdios e disse que eu teria de ir sempre consult-lo. Queria acompanhar meu estado. E teria de verificar 
sempre minha presso. Pedi que guardasse segredo. No queria que ningum ficasse preocupado. Logo eu iria ficar bom e no valia a pena que eles soubessem. Quando 
contei a Vida, ela ficou preocupada e me fez prometer que iria me cuidar, pois muitos dependiam de mim. Brinquei com ela dizendo:
- Se algo me acontecer no ser de todo ruim. Irei me juntar a voc e viveremos juntos para sempre.
Ela se alterou, como nunca tinha visto.
- Pare com isso, Daniel! - disse ela. - As coisas no so bem assim. No penses que, se fizeres a passagem, ficars comigo! O que est escrito, est escrito! No 
podemos planejar o que no sabemos. Hoje estamos juntos, mas se fores s esprito no sei se poderemos caminhar juntos. Ento, trate de se cuidar! Nem pense em ficar 
doente, pedindo que a morte venha o visitar!
Ela me abraou chorando. No entendi a dor do momento. S mais tarde fui entender, muito mais tarde...
Eu ficava horas e horas em meu ateli. Quase no ia  cidade. Os meninos tomaram conta de tudo. No precisavam mais que eu os orientasse. A noite, em vez de s conversar 
com Toninha, ficvamos todos em frente  lareira. Ali cada um contava como tinha sido seu dia. E, se algum acontecido se desse, ns ali mesmo resolvamos. Meu filho 
mais novo resolveu ajudar nas missas. O padre era seu grande aliado. Sempre que ele precisava de algum conselho, em vez de vir a mim, primeiro procurava o padre. 
Eu no me aborrecia com isso, sabia que ele estava em boas mos. Mas Pedro, cada vez mais, nos escapava. Gostava de viajar e no ficava um momento parado. Agora, 
j moo feito, Toninha no conseguia mais segurar as rdeas. Quando resolvia que ia dormir em outra cidade para voltar s no fim de semana, antes que Toninha dissesse 
alguma coisa, ele a abraava e saa danando com ela. Logo ela estava rindo e aceitando as desculpas dele para pernoitar fora.
Um dia estava eu a pintar quando senti a mesma pontada no peito. Sentei num banquinho e comecei a rezar. Pedi a Deus que no me levasse. Como dissera Vida, ainda 
tinha os meus pequenos, que precisavam de mim. As palavras dela no saam de minha mente. Agora tinha medo de morrer e perder o contato com ela. Coisa que nunca 
imaginei. Pensava que, se a morte batesse em minha porta, seria uma bno. Iria para toda a eternidade cavalgar com Vida. Fiquei ali um pouco sentado, depois fui 
pedir a um dos meninos, que estava a cuidar dos cavalos, que me acompanhasse at a cidade. No revelei de pronto aonde iria. Disse para Toninha que precisava de 
material para as minhas telas. Quando chegamos  cidade, pedi ao meu filho que fosse ter com Joo na ferraria. Com certeza, eu no iria me demorar, eram s umas 
comprinhas. Fui direto ao doutor. Ele me examinou e tirou minha preocupao. Disse que, dessa vez, era cansao de fato. Uns dias parado e logo eu ficaria bom. Fiquei 
mais tranquilo e fui ter com os meninos. Fiquei a conversar com Jos, coisa que h muito tempo no fazia. Aproveitei para contar a ele sobre meus planos.
A cidade estava crescendo, e eu queria adquirir um lugar onde pudesse colocar meus quadros em exposio para vender.
As meninas tomariam conta. Precisava dar a elas um ganho certo. Se um dia eu faltasse, teriam de onde tirar seu sustento. A ferraria era lucro certo, mas as bocas 
para comer eram muitas. Jos, como sempre, logo aprovou minha ideia, e samos logo para procurar o tal lugar. Ele sabia de um espao perto da igrejinha que fora 
construdo para alugar. Fui conversar com o dono e, em vez de alugar, comprei-o de fato. Seria para vender os meus quadros e os diferentes objetos que Pedro trazia 
de suas viagens. Depois de tudo acertado, fui conversar com os meninos. Eles adoraram a ideia e comearam a fazer planos comigo. Essa era a famlia que eu tinha 
e agradecia todos os dias a Deus por isso. Quando chegamos em casa, expusemos nosso projeto. Toninha era a mais interessada, queria j ir at a lojinha para arrumar 
os meus quadros. Ela sabia que eu os tinha em quantidade e ficava preocupada porque eu os empilhava sem cuidados. No dia seguinte, pegamos a charrete e transportamos 
o que era preciso. Na ferraria havia um balco que usaria para atender os fregueses. Toninha foi conosco. Ela se encarregaria de dar vida  lojinha. A pequena Vida 
ia agarrada aos quadros para amortizar os solavancos. Parecia de novo uma festa. Alice falava em colher muitas flores, era um grande acontecimento. Deixei que se 
encarregassem de tudo sempre com a orientao de Pedro. Aos poucos, todos iam tendo uma ocupao. Com sua educao, eu no me preocupava nem um pouco, eram todos 
bons meninos. Deus tinha me abenoado com uma linda famlia!
Agora quase todos trabalhavam. Dividiam-se entre a ferraria, a lojinha e cuidar do que j parecia uma fazenda. O curral, agora cheio de cavalos, exigia ateno especial, 
mas isso no era problema, eles adoravam cuidar dos animais. Saam a galopar com eles e a alegria era visvel em seus rostos. De vez em quando, eu tambm tratava 
deles. Quando cheguei  cidade procurando trabalho, a primeira coisa que disse foi que sabia cuidar de animais. Quando no estava pintando, me distraa vendo os 
meninos fazer o servio. Toninha, de vez em quando, ia at a lojinha dar opinies e ajudar as meninas. Dona Margarida era cozinheira de mo cheia. E era a encarregada 
de suprir a casa de comida. A hora das refeies era um banquete. Era tanta comida que parecia que no iam dar conta, mas meus filhos trabalhavam to bem quanto 
se alimentavam, e logo consumiam toda a refeio. Dona Margarida ficava lisonjeada. Pois, enquanto comiam, teciam de elogios  cozinheira. Isso fazia com que cada 
vez mais ela se esmerasse, e at o padre, de vez em quando, aparecia nas refeies, na hora certinha.
Tudo o que planejamos e fizemos deu certo. O pomar e a horta supriam quase em tudo a alimentao da casa. Os cereais, eu comprava em grandes sacos. Dinheiro nunca 
nos faltou. O ganho agora vinha de diversos lugares. A lojinha foi um sucesso. Era novidade numa cidade to pequena. Pedro estava entusiasmado e at parou de dormitar 
em outras cidades. Saa bem cedo para a labuta, mas tinha pressa em voltar, pois sempre trazia alguma novidade para a lojinha. J ramos vistos como uma famlia 
abastada. Sempre ajudava a igreja, que ajudava os necessitados. Nunca esqueci de como cheguei quela cidade.
O tempo foi passando, as meninas tinham ficado belas moas. J havia rapazes da cidade rondando, e pedi a Toninha que as orientasse. Tinha medo que se apaixonassem 
por qualquer um e viessem a sofrer depois de largadas. Naquelas nossas conversas  noitinha, tambm falvamos sobre Vida. Agora todos sabiam o que acontecia. Todos 
em minha casa. Da porta para a rua no saa. Era segredo em famlia. At porque depois de tantos anos me ouvindo falar de Vida e no mais a vendo, pediam explicaes 
e eu no queria que pensassem que Vida os abandonara. S a pequena Vida tinha contato com ela. s vezes a encontrava no riacho ou em alguma cavalgada. Mesmo pequena, 
a nossa Vida j cavalgava em seu potro. Corria com ele por aquelas paragens, e seu riso ecoava pelas rvores, dando vida s manhs, at quelas que amanheciam chuvosas. 
Eu ficava da porta de meu ateli observando. Como se parecia com minha Vida. Era energia pura aquela menina! At que um dia aconteceu um acidente.
Estava ela a cavalgar quando um tropeo num tronco a derrubou junto com o potro ao cho. Eu estava absorto a pintar uma tela, quando escutei um chamado. Ficava cada 
vez mais forte, e fui at a porta ver quem era. A voz vinha com o vento. E, para minha surpresa, era Vida me chamando. Peguei meu baio e sa a galope. Fui em direo 
ao lugar de nossos encontros, mas a me distanciava do chamado e voltei, guiando meu cavalo pelo som trazido pelo vento. Era um lugar contrrio aos nossos encontros. 
Eu estava assustado. Alguma coisa tinha acontecido. Meu corao disparava ao ouvir o chamado de Vida. At que me deparei com uma cena em que quase no pude acreditar. 
Minha pequena Vida estava cada, desacordada, e o potro em cima de suas pernas. Pulei de meu cavalo gritando, pensando que ali ela jazia sem vida. Afastei o potro, 
que talvez tivesse quebrado a pata, e peguei a pequena Vida no colo.
- Vida! Olhe o papai. Acorde, meu anjo! - Eu a chamava desesperado. Ela nem abria os olhos, sua respirao estava ofegante. Foi a que, com a cabea dela de encontro 
ao meu peito, vi o sangue jorrando. Peguei-a no colo e segui em direo a casa. Eu chorava e a chamava, eu a chamava e rezava. Pedi a Deus que no a levasse. Era 
minha pequena Vida, tinha ainda muita estrada para andar. Pedi a Deus que me levasse em seu lugar, mesmo correndo o risco de nunca mais encontrar Vida. Cheguei em 
casa gritando! Pedindo ajuda, pois Vida talvez estivesse morrendo. Vieram todos da casa. S Toninha tinha ficado esttica na porta.
- Toninha! Ela caiu do potro e ele em cima de suas pernas - disse - tambm tem a cabea quebrada e est desacordada.
Os meninos tiraram a pequena Vida do meu colo e a ca de joelhos extenuado. Tapei o rosto com as duas mos e fiquei ali chorando desesperado.
- Pai! - Alice me sacudia. - Pare de chorar! No devemos pensar no pior, agora temos  de providenciar a vinda do doutor. Joo est atrelando a charrete para levarmos 
a pequena Vida at l. O senhor tem de resolver o que faremos! Esperamos ou a levamos? Pai! Reaja! Precisamos do senhor!
Mas a senti uma pontada no peito e tombei desacordado. Quando de novo dei por mim, estava deitado em minha cama. Meu corpo todo doa. Minha cabea estourava. Ento 
eu me lembrei do acontecido e quis me levantar para ver a pequena Vida.
- Ests de repouso - disse Toninha - que bom que acordaste! No precisas se preocupar, a pequena Vida est sendo examinada e cremos em Deus que no ser nada grave.
- Como pude desacordar numa hora dessas! - disse. - Quando mais precisavam de mim, falhei!
- Nem pense nisso - disse Toninha - voc estava muito cansado. A pequena Vida est crescida, e foi muito peso a ser carregado. Tome este remdio que o doutor receitou. 
Descanse mais um pouco e, quando o doutor terminar de examin-la, peo aos meninos que o ajudem a ir at l, mas enquanto isso fique a quietinho, essa mquina que 
tens no peito est rateando, tens de azeit-la com descanso, para funcionar bem de novo. Todos precisamos de voc, s a nossa fora. Nem penses em partir deste mundo, 
no vou gostar nada dessa brincadeira.
E, assim dizendo, Toninha beijou minha testa. No era do feitio dela, apesar de estarmos sempre abraados, mas senti aquele beijo como um blsamo me dando foras 
para continuar em frente. Adormeci. Quando acordei de novo, a tarde tinha se ido. Chamei por Toninha. Queria ir at o quarto ver como estava a minha pequena Vida. 
Toninha logo atendeu. Vi em seu rosto grande preocupao.
- O que foi que aconteceu? - perguntei. - Minha pequena est no quarto ou o doutor a levou?
- Espere um pouco antes de fazer tantas perguntas.
E, assim falando, chamou os meninos para que me dessem ajuda, me levando at o outro quarto.
- J me sinto bem - retruquei. - Agradeo a ajuda, mas posso caminhar sozinho. 
No adiantou reclamar. Meus filhos me seguravam como se eu no soubesse caminhar. Quando cheguei  porta do quarto, me assustei! Minha pequena Vida jazia ali deitada, 
inerte, plida, como lhe fugisse a vida.
- O que o doutor falou? - perguntei - Qual o tratamento a ser dado? J providenciaste a compra dos remdios, Toninha?
Fui falando, me aproximando do leito e pude ver direito que sua cabea estava enfaixada. As irms a rodeavam em silncio. Parecia que rezavam. No gostei nada daquela 
situao. Alguma coisa estavam me escondendo. Aproximei-me mais de minha pequena, osculei sua testa e senti o suor frio que escorria por ela.
- O que foi que falou o doutor? - tornei a perguntar. Toninha levou os dois dedos aos lbios, pedindo que eu me calasse.
- Vamos l para fora - disse - tem alguma coisa errada e quero agora saber. No estou invlido, quero saber de tudo. No me omita nenhum detalhe, seja o que for 
quero saber para tomar as providncias necessrias. Se ela precisa de exames ou de outro mdico, ns a levaremos at outra cidade.
- De fato vamos precisar - disse Toninha. - O doutor acaba de deix-la e est muito preocupado. Quando o potro caiu, magoou suas pernas. Da gravidade, ele s saber 
quando a pequena Vida de fato acordar e puder movimentar as pernas. Do contrrio, teremos de lev-la a um grande hospital fora da cidade, onde tem especialista para 
esses casos.
- Ele quer dizer que h possibilidade de ela no mais andar? - perguntei j me alterando.
- Calma, Daniel! Todos estamos rezando a Deus para que tal coisa no acontea. Faa agora o mesmo. Pea a ele que oua nossas preces. Pea a Vida que seja mensageira 
desse pedido e que cheguem at o Pai as nossas preces. Toninha estava chorando. Abracei-a e choramos juntos. Meus filhos uniram-se nesse abrao e ficamos ali a pedir 
todos juntos.
Os dias custaram a passar. Eu no saa de perto da pequena Vida. Os poucos momentos longe dela eram um suplcio, a casa estava silenciosa. O proco veio visit-la, 
mas saiu acabrunhado. Vida no despertava de seu sono. Perguntei ao doutor se no era melhor transport-la para um hospital. Ele negou veementemente! No queria 
remov-la dali, pois seu estado era muito delicado e o tratamento que receberia onde quer que eu a levasse seria o mesmo. Pedi desculpas a ele, eu estava aflito 
por ver minha menina sem esboar um sorriso. S seus gemidos ecoavam pela casa. Parecia que cada vez ela ficava mais fraca. O doutor ia v-la quase todos os dias. 
Pedia que tivssemos f e pacincia, que ela logo acordaria. Fiquei movido pela esperana. Alimento no passava em minha garganta. Toninha insistia, preocupada com 
minha sade, mas, com certeza, nem ela conseguia comer. Pedi aos meus filhos que se encarregassem de tudo. A lojinha, a ferraria, a horta, os cavalos, tudo precisava 
de cuidados. No foi sem insistncia que saram para trabalhar. Alice no arredou o p. Disse que dali s sairia depois de passar o perigo. Era ela quem cuidava 
da pequena Vida, lhe dava banho de asseio, os remdios e conversava com ela, alisando os cabelos que emolduravam a atadura. Os dias eram longos, as noites interminveis. 
Dona Margarida colocava o jantar, mas  mesa ningum se sentava. Depois de quase uma semana do acontecido, de manh bem cedinho, ficou o galo a cantar bem embaixo 
da janela do quarto onde estava a pequena Vida. Ele no parava. Pedro disse que ia l fora para dar uma corrida nele. Ento escutamos uma doce voz.
- Pedro! Deixe ele. Ele  meu amigo. Todas as manhs ele me acorda e eu respondo com um bom-dia.
Ficamos todos calados. Era a pequena Vida que tinha acordado do seu sono interminvel. Foi alegria geral! Pedro foi o primeiro a correr para abra-la. E, pela primeira 
vez, choramos de alegria!
- Pai! T com fome! - disse a pequena Vida.
- Traga um banquete! Traga um banquete! - gritava Pedro, acordando o restante da famlia.
Logo estvamos todos reunidos, agradecendo pela vida da pequena Vida!
Joo foi logo  cidade atrs do doutor. Tambm foi procurar Jos e lhe dar a boa notcia. Mas ainda amos chorar muito, pois o doutor, ao examin-la, constatou que 
suas pernas no tinham movimento. Quando ele quis me falar em particular, temi sobre o que poderia ser. Ns todos esquecemos de que s quando ela acordasse o doutor 
diria o parecer sobre as pernas.
- O senhor tem certeza? - perguntei - S examinando na cama, como podes ter a certeza disso?
Eu questionava, desesperado, e o doutor j estava se aborrecendo com isso.
- No posso dizer que  definitivo - disse o doutor, mas no momento suas pernas no tm o mnimo de reflexo. Vamos at l que lhe mostro.
Fomos at o quarto e ele pediu que todos sassem. Precisava fazer um exame mais minucioso e no queria a pequena Vida distrada. Ficamos ns dois e a pequena; ele 
comeou a lhe martelar o joelho e ela no sentia.
- Minha filha! Diga o que sentes! Fale com o doutor o que acontece com suas pernas!
- Nada, pai! Nada! No sinto nada!
- Como nada? - gritei j fora de mim - No sentes o doutor bater em seu joelho? No sentes dor? Sei que s corajosa, mas podes reclamar.  isso que esperamos.
- No sei o que acontece, pai, mas no consigo mover minhas pernas!
O doutor olhou para mim como se dissesse: acreditas em mim agora? Respirei fundo. Dei-lhe um tapinha nas costas, como se pedisse desculpas. Ele guardou seus instrumentos 
e disse que voltaria mais tarde, inclusive trazendo uma cadeira de rodas para a pequena Vida se locomover. Ele se despediu e foi embora. Ficamos ali mudos, eu e 
a pequena Vida. Logo como se adivinhasse meus pensamentos, Vida quebrou o silncio perguntando:
- Pai, no vou mais andar? Como vou cavalgar ou ir pra escola? Agora ela j chorava e eu junto com ela. Toninha, nesse momento, entrou no quarto e foi at ela dizendo:
- No vais ficar sem andar muito tempo. O que aconteceu  que ficaste na cama dormindo muito tempo e suas pernas ficaram preguiosas. Vamos mexer muito com elas, 
para dar fora e ensin-las como se anda novamente.
Vida deu um sorriso meio chocho e, mesmo sem vontade, acabamos todos rindo. Disse  minha pequena que teria de sair, mas no me demoraria, logo estaria ali.
- Vais encontrar com Vida? Ela est o esperando? Leve-me com voc! Talvez ela possa fazer eu andar de novo!
Levantei-a do travesseiro e apertei-a no meu peito, dando-lhe um forte abrao. No queria nem pensar que ela teria de passar o resto de sua vida em uma cadeira de 
rodas.
- Hoje vou sozinho - disse - mas prometo que logo, logo a levarei. E voc ficar a correr pela relva fazendo estripulias enquanto a espera. Toninha, no a deixe 
s! Pea s meninas que fiquem a lhe fazer companhia.
Dei-lhe um beijo e fui embora. Precisava caminhar. Nem atrelei meu baio. O lugar de encontro era um pouco longe de minha casa, mas eu precisava pensar em todos os 
acontecimentos e a melhor maneira era caminhar comigo mesmo. Desde que adotei as crianas, no fui surpreendido com nenhuma fatalidade, s as doenas infantis, como 
chamam, que se instalaram em nossa casa. Fiquei a pensar em Vida. Ser que a encontraria? Ela sempre me confortava nas horas de angstias e sempre tinha uma palavra 
que elevava nosso esprito. Nem senti que j tinha chegado ao local de nossos encontros. Fiquei encostado na rvore colocando todo o meu peso em seu tronco. ramos 
velhos amigos. Ela, de mim, j tinha ouvido confidncias mil. Tinha participado do primeiro encontro e da unio de meus filhos. Quantas vezes a pequena Vida tentou 
subir em sua copa, mas desistiu, por ela ser mais alta, forte e majestosa. Acolhia-me nos dias de sol forte com a sombra enorme que fazia. Ali junto a ela j tinha 
chorado minhas mazelas, dormido e rido das graas de Vida. Ela guardava de minha vida os momentos mais preciosos. Era uma confidente que sabia como guardar os segredos. 
Naquele momento, pensando nisso, lembrei que, mesmo na mudana de estao, nunca tinha visto seus galhos vazios. Ela estava sempre frondosa. S as folhas mudavam 
de cor, como se ela trocasse de roupa. Acho que, como Vida, era uma rvore iluminada. Despertei do meu devaneio quando escutei um cavalgar. Fui correndo na sua direo, 
precisava dela mais do que nunca. Vida saltou do cavalo, antes que me aproximasse dela. Veio correndo ao meu encontro e ficamos um tempo ali, abraados, na relva. 
Se pudesse nunca mais a largaria, a teria assim junto ao meu peito, como fiz com a pequena Vida. Ela passou a mo em meus cabelos e eu dei um profundo suspiro. O 
aperto no meu peito afrouxou e pude falar com ela.
- Sabes o que aconteceu, no sabes? Encontrei a pequena Vida por meio de seu chamado, se mais me demorasse e se mais sangue se esvasse, seria tarde demais.
- Minha misso  tomar conta deles, Daniel! Se no pude impedir o acidente, que escrito j estava, pude pedir socorro para amenizar a dor do momento.
- E agora? - disse - O que ser que acontecer com ela? Ela queria v-la, disse que com certeza voc a curaria.
- No sou santa, Daniel! Sabes bem disso! Est alm das minhas mos o que acontece nesta terra, mas posso fazer uma coisa, e vim pedir que voc compreenda.
- Fale logo! Est me deixando assustado!
- Daniel! Ficamos longo tempo juntos, foram momentos maravilhosos, vivi com voc o amor depois de desencarnar, aquele que no encontrei nesta terra, mas, com certeza, 
tudo j estava escrito. De uma maneira ou de outra, teramos de nos encontrar. No s para viver um grande amor, mas para criar tantas crianas. Escute o que vou 
lhe pedir! E tenha sabedoria e compreenso para entender. Primeiro: queria que acolhesses mais crianas. Seus quadros continuaro vendendo muito e atravessaro mares. 
Ters condies para isso. Ampliars a casa. Dars a elas um nome e a registrars. Isso ser necessrio para o futuro de todas as crianas que vierem a morar l. 
Mesmo quando j no estiverem aqui, voc e Toninha, com certeza seus filhos mais velhos se encarregaro de tudo. Voc os educou para isso, e eles continuaro seguindo 
sua misso. A partir de hoje no voltarei mais aqui, mas no penses que te abandono. Logo ters seus braos em volta de mim. No do mesmo jeito, mas isso s compreenders 
quando deste mundo partires.
- Pare! No continues a falar! Tu sabes a dor que estou sentindo pela pequena Vida, ainda queres aument-la mais, dizendo que vais sair de minha vida! No aguentarei 
mais esta dor! Como Toninha disse, essa mquina em meu peito est rateando, e juro que no aguentar esse tranco! Todos esses anos tive voc ao meu lado. Partilhei 
contigo todas as emoes e at a criao de nossos filhos. Agora me abandonas quando mais preciso de ti! Por favor, meu amor! Diga que no  verdade! Ou ento me 
leve junto contigo!
- Daniel! Compreenda, estou fazendo isso pela pequena Vida!
- Como assim? - perguntei desesperado. - Como por ela, se a abandonas quando mais precisa ter voc ao seu lado, se vais embora para nunca mais voltar. Terei de contar 
a eles. A pequena Vida, com certeza, no vai entender, ficar desconsolada. E desse jeito que ds tua ajuda? Um dia tu me deste a opo de continuar ou no nossos 
encontros, mas agora falas que me abandonas e sabes que no vou conseguir viver sem voc, Vida! Passamos tanta coisa juntos! Tivemos momentos maravilhosos. Eu a 
amo tanto! Se vives aqui neste mundo ou no, eu no me importo. Diga que no  verdade! Pelo amor que tens s crianas, diga que no me abandonars!
- Por amor a elas, no vou mais te ver. Por amor a Vida, deixarei de cavalgar pelos campos. Por amor aos meus filhos, no viverei mais o grande amor que encontrei. 
Mas um dia nos encontraremos. Nossa histria no acaba agora, neste momento. Ser o incio de um novo tempo, que recomearei com todo o amor que recebi de todos 
vocs. Diga queles que foram um dia meus pais que agradeo por eles terem acolhido voc e meus filhos. Nunca os esquecerei.
E, assim falando, me deu um buqu de rosas:
- So para meus filhos, meus pais, Toninha, dona Margarida e voc. A que pertence a Vida, amanh bem cedinho voc levar at o riacho, juntamente com nossa filha. 
Sentar Vida na beirada e regar suas pernas. Depois de despetalar a rosa, jogue em suas pernas e torne a reg-la. Vida ficar boa e todos tero a felicidade que 
merecem. Pare de chorar, Daniel! Como falei, logo estarei em seus braos. E um dia, se quiseres, me esperars na eternidade.
- Se tem de ser assim - disse chorando copiosamente - assim ser! No sei se me recuperarei, e tenha certeza de que continuarei vindo aqui todos as dias, mesmo sabendo 
que no vou encontr-la. Aqui, neste lugar, vivi com voc momentos maravilhosos. Se no vou t-la mais em meus braos, vou viver recordando o passado. Dizes que 
no vais mais voltar, mas que poderei um dia esperar por ti. Com certeza o farei. Nunca a esquecerei.
Vida me deu um longo beijo e foi embora. Eu fiquei ali chorando, abraado a um buqu de flores. Despertei com a voz do padre, perguntando:
- Daniel! Que fazes a com essas flores? Ento era assim que fazias, trazes um buqu de flores e o despetala como se marcasse lugar.
- Padre, me perdoe, mas no estou com disposio para conversa. Com sua licena, que tenho de ir embora. Vida me espera em casa.
- Ests chorando! - disse ele - Ento  mesmo grave o estado da menina. Bem que o doutor me disse que ela nunca mais andaria. A propsito, ele est em sua casa, 
foi levar a cadeira de rodas para a menina. Uma fatalidade! To pequena, to cheia de vida, e passar o resto dos seus dias sem poder andar.
- No ser assim! - disse enxugando as lgrimas. - Ningum pode saber como ser o amanh! Hoje estou em p, amanh posso no estar! Vida est acamada, amanh, quem 
sabe, estar ela correndo por essas paragens...
- Est bem, meu filho! Ser como voc diz! Mas deixe-me a despetalar as rosas. Sei que artista tem sensibilidade em excesso e precisa de coisas diferentes.
Dei um puxo no buqu, que j estava metade nas mos dele, dizendo:
- Essas, vou levar para casa. Acabei de colh-las, no  para despetalar!
E, falando assim, dei as costas e sa correndo, deixando o padre confuso.
Cheguei em casa cansado, o rosto todo molhado de tanto chorar pelo caminho. Toninha pegou as flores de minha mo, abraou-me fortemente e disse que j sabia que 
Vida no mais voltaria. Ca em seus braos aos prantos! No queria acreditar que ela tinha feito isso comigo.
- Como poderei viver sem ela? - perguntei a Toninha - Tenho vocs e agradeo todos os dias a Deus, mas pensava que fosse ter Vida comigo at partir desta terra. 
Ento eu a encontraria e cavalgaramos juntos pelas pradarias! Era um sonho, Toninha, que virou pesadelo!
- Filho, aceite por ora o que disse ela! No ficars s! Tens a ns e a lembrana dela. Seu desespero o far doente. Se ficares acamado, como cuidars da pequena 
Vida?
Nisso, lembrei-me do que Vida tinha dito. Separei uma flor e disse para Toninha:
- Esta, terei de levar amanh bem cedo ao riacho, juntamente com a pequena Vida. Foi Vida que assim pediu. Disse que nossa filha ficaria boa e tudo ao normal voltaria.
- Ento, meu filho - disse Toninha - ela sempre estar conosco. Podemos no ter sua presena, mas com certeza por meio de intuies, ela sempre estar presente. 
Onde colocaremos estas flores?
- So de todos. Ela mandou uma para cada um. Inclusive para os seus pais, como prova de amor, como agradecimento e adeus. Vamos entregar s crianas. Chame todos, 
Toninha. Inclusive Joo e Alice.
Quando todos j estavam reunidos ali na sala, e a pequena Vida j na cadeira de rodas, contei tudo que se passara e entreguei a cada um a rosa que Vida mandara. 
Alice me deu um abrao e foi em direo  lareira, onde havia um retrato de Vida.
- Pai, gostaria de deix-la aqui. Quando secar, venho apanh-la e guardarei como lembrana comigo. Meus outros filhos acompanharam o gesto da irm e, um a um, me 
deram um forte abrao e depositaram a rosa na lareira. Era uma despedida simblica, e eu, pela primeira vez, me senti vivo. Tinha perdido algum que amava muito 
e meu futuro dali em diante era uma interrogao. No tinha certeza se conseguiria viver sem Vida. Toninha pegou uma jarra e colocou as flores que ficaram ali na 
sala, ornamentando o ambiente. O cheiro das rosas se espalhou dando bem-estar a todos e acalmando minha mente.
De manh bem cedinho, levei Vida ao riacho. Toninha fez questo de ir junto, e meus filhos tambm quiseram me acompanhar. E assim, toda a famlia reunida, fomos 
atender ao pedido de Vida. L chegando, os meninos me ajudaram a colocar a pequena Vida na beirada do riacho. Comecei a regar suas pernas e ela ria, reclamando que 
a gua estava gelada. Peguei a rosa e a despetalei. Joguei nas pernas de minha filha e, em seguida, com a gua do riacho a reguei. Fiquei ali rezando. Pedindo a 
Deus por um milagre! Tinha confiana e f no que estava fazendo. Se Vida mandou, certamente daria certo. Eu estava ajoelhado na gua com a pequena Vida diante de 
mim, e meus filhos formavam um crculo, com Toninha perto de mim.
- Podemos ir embora? - perguntou minha pequena - est frio e minhas pernas esto gelando.
E, assim falando, comeou a bater com os ps na gua, respingando para todos os lados. Eu ca sentado no riacho. Meus filhos se jogaram em cima de mim e ficamos 
todos dentro d'gua. Vida se levantou e imitou o gesto dos irmos. Eu chorava e ria. Toninha agitava as mos, pedindo que todos sassem da gua gelada. Meus filhos 
pegaram a pequena irm no colo e a beijaram efusivamente. Maravilhados com a recuperao de suas pernas.
- Vamos para casa! - disse. - Esto todos molhados, daqui a pouco teremos de chamar o doutor porque ficaro acamados com gripe.
- Pai! Voc est pior do que ns! Est todo encharcado. S Toninha ficou seca para cuidar da gente.
E, assim falando, foram em direo a Toninha, fazendo gestos de que iriam coloc-la na gua.
- Nem se atrevam! Nem se atrevam! - dizia ela, mas os meninos no atenderam.
Levantaram-na no colo e a depositaram na gua, dizendo ser a nica que no tinha sido batizada. O que comeou com reza virou uma festa! Fomos embora felizes da vida 
com o grande acontecimento.
Quando chegamos em casa, qual no foi nossa surpresa. Estavam nos esperando o padre e o doutor, que vieram ter notcias da pequena Vida. Meus filhos faziam uma algazarra. 
O padre chegou  soleira da porta perguntando:
- O que se passa? Esto todos malucos! Daniel, por que esto todos molhados? No tens juzo! Sua filha tinha de estar descansando, esperando a visita do doutor para 
massagear suas pernas!
Vida foi a primeira a pular da charrete. Foi ao encontro do padre, pedindo sua bno e mostrando como tinha sarado. O padre se benzeu, dizendo no saber o que estava 
acontecendo.
Foi em direo a Toninha, pedindo explicaes, perguntando de onde todos estavam vindo.
- Fomos dar um passeio, padre! A manh estava linda.
O padre olhou para o cu, que estava bem nublado, e disse que estvamos malucos.
- Foi apenas um passeio - disse Alice - mas acabamos por tomar um banho no riacho para comemorar a recuperao de Vida! Veja como ela est bem! No merecia uma comemorao? 
- perguntava ela para o padre.
- Est bem! Mas vamos entrar que o doutor j deve ter acordado do seu cochilo.
Foram todos se trocar. Eu, assim mesmo como estava, fui falar com o doutor. Devolvi a cadeira, dizendo no ser mais necessria.
- Como pode ser! - disse ele - Tinha esperana de que os remdios fizessem efeito, mas a rapidez com que se deu a recuperao dela foi milagrosa!
Eu comecei a rir, concordando com ele.
- Foi milagre mesmo! - disse - E agradeo muito ao senhor. Fiquem para o almoo, o cheirinho est bom! Dona Margarida deve ter preparado um de seus quitutes maravilhosos!
Pedi que, logo aps o almoo, Joo levasse notcias a Jos e fosse at meus sogros falar da recuperao da pequena Vida e entregar as rosas que a filha mandou. Foi 
um dia maravilhoso! At esqueci a tristeza do dia anterior.
Os dias se passaram. Eu continuava minha pintura e ia cavalgar at minha amiga rvore. Agora, mais que nunca, conversava com ela. Nela, deixava minhas tristezas 
e amarguras. Toda noite, quando nos reunamos, o cheiro de rosas invadia o ambiente. Todos olhavam para o retrato de Vida. Parecia que ela estava ali presente. As 
flores no murchavam. Continuavam como se tivessem sido colhidas naquele momento. Seis meses se passaram desde o dia em que Vida se despediu de mim. As rosas continuaram 
perfumando o ambiente, como se tivessem acabado de ser colhidas. Ningum mais admirava tal acontecido. Parecia que o retrato de Vida dava vida s flores.
Era vspera de Natal. A casa estava em festa. Meus filhos tudo organizaram, at recusaram meus prstimos, dizendo que me dedicasse  pintura, que eles se encarregariam 
de tudo. Agora a pequena Vida ficava comigo no ateli, divertindo-se em colocar cores nas telas. Eu nunca havia me sentido to s. Sentia falta do meu grande amor. 
Sentia falta dos seus conselhos, do afago nos meus cabelos e dos beijos quentes que me aqueciam as noites frias. Parecia que toda a magia tinha desaparecido. Eu 
ficava sentado sob a rvore pensando em minha vida. Mas ficava s por pouco tempo, logo aparecia cavalgando a pequena Vida ou um dos meus outros filhos. Se me afastava 
de casa e demorava, eles logo iam  minha procura. Eu era abenoado e agradecia, como sempre, pela bno de t-los todos comigo, mas meu corao chorava a falta 
que Vida me fazia. Eu passava toda a minha dor para as telas que estava pintando. Agora pintava mais e mais, s vezes parecia estar louco, me chamavam e eu no escutava. 
S quando tocavam em mim  que voltava  realidade e relaxava por uns momentos. Meus filhos j estavam com tudo preparado. At as charretes, que agora eram duas, 
estavam enfeitadas. amos at a igrejinha para a Missa do Galo, depois voltaramos para casa para cearmos, comemorando a data e abrindo os presentes que estavam 
espalhados sob uma linda rvore de Natal. Assim que chegamos em casa, depois de assistir a toda a missa e nos confraternizarmos com os cidados da cidade, sentamos 
 grande mesa que foi preparada fora de casa. Agora no eram s nove crianas, eu e Toninha a cear. Havia pares e pares e Joo e Alice a comandar. Era uma grande 
famlia, tnhamos mil motivos para agradecer e comemorar a data. Quando estava tudo ajeitado, Joo pediu a palavra. Juntei as mos, esperando dele a orao, mas 
me emocionei com suas palavras. Ele comunicava que estava chegando mais um membro ao seio de nossa famlia. Todos comearam a aplaudir. Eu fiquei meio parado, olhando 
para Toninha, que chorava de emoo. Naquele momento, fora anunciado o fruto de nossa famlia. Sa do meu torpor e fui abra-los efusivamente. Joo estava com a 
alegria estampada no rosto, e Alice, minha menina to querida, j trazia no rosto o trao da maternidade. Enquanto comemoravam o acontecimento, fui me afastando, 
entrando em casa, dirigindo-me at a saleta onde ficava o retrato de Vida. Queria compartilhar com ela mais um momento importante de minha vida. Estranhei chegar 
perto do retrato e no sentir o cheiro das flores. Elas estavam ali intactas. Escutei um barulho em minhas costas, era Toninha que tinha me seguido.
- Vim contar para ela a novidade - disse. - Estranho, no sinto o cheiro das flores, mas elas continuam viosas como sempre.
Nisso, entrou Alice e foi direto pegar uma rosa. Pegou-a e a levou  boca, como se fosse dar um beijo. A rosa se despetalou toda, caindo sobre o seu corpo. De imediato, 
todas se despetalaram, ficando s os cabos no vaso. Chorei, chorei muito, agora sentia que Vida tinha ido embora de vez. Alice ficou espantada com o acontecido.
- Toninha, no fiz nada - disse ela. - S queria mandar um beijo para quem me protegeu toda a vida.
Toninha a abraou e, nisso, escutamos uma algazarra. Fomos l para fora ver o que estava acontecendo, e vimos trs crianas de mos dadas.
- O que est acontecendo? - perguntei. - Quem so as crianas? De onde vieram?
- No sabemos, pai! Elas chegaram e ficaram ali paradas. Querem falar com o senhor! Aproximei-me das crianas e vi em seus rostinhos algo que j conhecia.
- No temos para onde ir - disseram. - Nossa me, Deus levou, de nosso pai no sabemos. Minha irmzinha tem fome e estamos cansados de tanto andar. Escutamos barulho, 
vimos a luz e viemos at sua casa.
- Toninha! O que voc acha? - Como sempre acontecia quando chegavam as crianas, Toninha os pegou pelo brao, dizendo:
- Vamos lavar as mos e sentaremos todos  mesa. Olhei para o cu, perguntando:
- Vida, voc as mandou? Quantas ainda viro?
Meus filhos foram ajudar Toninha a cuidar das crianas e, depois de todos sentados, agradecemos a Deus por estar crescendo a famlia. No dia seguinte, fui at a 
cidade saber do padre se tinha notcias sobre trs crianas que perderam a me e estavam sozinhas neste mundo. O padre nada sabia e, como sempre, pediu que lhes 
desse abrigo. Se a famlia aparecesse, ele logo me informaria. Falou que logo, logo iria  minha casa conhecer as trs crianas. Comeava tudo de novo. Era isso 
que Vida queria me dizer. No a tinha mais em minha vida, mas me dedicaria a essas crianas sem abrigo. Fui falar com Jos, agora pouco nos encontrvamos. Eram meus 
filhos que trabalhavam na ferraria com Jos e Joo a comand-los. Eles tinham muito respeito por Joo, assim como as meninas ouviam sempre o que lhes falava Alice. 
Eram meus filhos mais velhos e tomavam conta de tudo com Toninha. Eu estava sempre a pintar ou na minha rvore amiga. Mas que venham as crianas, nunca lhes negarei 
meu carinho e abrigo. Passei na lojinha, peguei algumas coisas que sabia que elas precisavam, comprei uns agasalhos, pois, mesmo sendo dia de Natal, todos trabalhavam. 
Cheguei em casa cheio de embrulhos. As crianas, como j vira antes, ficavam meio deslocadas, mas minha pequena Vida, que era s alegria, fazia macaquices e a pequena 
andarilha, que h pouco tinha chegado, estava agora aos risos. O menino mais velho estava num canto sentado. Parecia preocupado e triste com toda a situao. Fui 
at ele, entreguei os agasalhos e ele perguntou:
-  para irmos embora? Por favor, fique s com minha irmzinha, ela come muito pouco, no vai lhe dar trabalho. Quando eu conseguir um emprego e puder lhe dar sustento, 
virei busc-la.
- Nada disso, meu filho! Deus lhe mostrou o caminho de minha casa. s bem-vindo, como seus irmos tambm. Se quiserem, podero ficar para sempre fazendo parte de 
minha famlia.
O menino se jogou em meus braos chorando. Dizendo que trabalharia muito para pagar todos os custos.
- No ser assim! - disse a ele - De agora em diante voc ser meu filho, como sua irmzinha e seu irmo tambm. S dever obedecer a Toninha e ser muito feliz! 
Vamos agora arrumar um quarto para vocs dois. A menina, com certeza, ficar no quarto de Toninha. Quantos anos ela tem? Trs! No sabes ao certo? No faz mal. Pediremos 
ao proco que providencie, como sempre, o batismo e os documentos necessrios.
No queria que acontecesse com eles o que aconteceu com Pedro e Joo. Eu s os acolhi, mas esqueci de registr-los.
Na casa, a vinda das trs crianas tornou-se uma novidade. Fora a criana que viria por Alice, a casa era toda euforia. Dali a uns dias tinha novelo de l para todo 
lado, sapatinhos sem pares pela mesa e casaquinhos mnimos que enfeitavam a casa. Fui ter com Jos. Precisava ampliar ainda mais a casa. Espao tinha para os fundos 
e dinheiro, para isso, com certeza no faltava. Fiz o desenho que queria e, junto com Jos, fui falar com o pedreiro. Como sempre, eram pees da redondeza que estavam 
sempre sem emprego. No cobravam muito e faziam um servio perfeito. A obra demorou seis meses, mas ficou exatamente como eu queria. Fiz um lindo quarto para os 
meninos. Mas bem espaoso, j antecipando, a vinda de mais crianas.
E foi o que aconteceu. O padre me trouxe mais duas, eram dois meninos que chegaram  igreja pedindo esmolas. Estavam sujos, esfomeados e no diziam uma palavra. 
S esticavam a mo quando alguma coisa lhes era dada. Quando Pedro foi lhes dar banho e tirar as roupas surradas, veio ter comigo e me levou para ver as marcas estampadas 
nos corpos.
- Meu Deus! Como pode? So apenas duas crianas.
Pedro os enrolou em toalhas e os levou para o quarto novo. L tinha roupa dos pequenos que chegaram havia pouco. Com certeza daria neles. Eram franzinos, parecia 
que h muito no comiam. Pedro os arrumou e os levou a Toninha. Ela j os esperava com a comida quentinha. Meus filhos os crivavam de perguntas, mas eles nada respondiam, 
seus olhos grudaram no prato de comida, parecia que nem respiravam. Pedro estava alterado. Queria sair e procurar o responsvel pelos maus-tratos. Custei a control-lo.
- Filho, o que importa agora  faz-los esquecer os momentos tristes. Mais do que abrigo e comida, eles vo precisar de ateno e carinho. Deixo isso por sua conta. 
Aos poucos, confiaro em voc e lhes contaro toda a histria. Agora eles precisam de descanso e da certeza de que aqui ficaro seguros.
J ramos uma famlia e tanto! Ainda bem que o pomar e a horta produziam bem. Eram bem cuidados. Dona Margarida, nas horas de folga, ia com as meninas colher e plantar 
sempre algo novo. Frutas, tnhamos muitas. Vida vivia trepada nas rvores. Quando Dona Margarida precisava de algum fruto, minha pequena moleca subia e sacudia os 
galhos fazendo os frutos cair. Fazia isso como brincadeira, mesmo sabendo que para Dona Margarida alimento era coisa sria. E, quando algum fruto amassava, era pito 
certo que ela levava. As crianas estavam todas acomodadas. Pedi a Joo que me mandasse o doutor, pois achava a sade dos dois meninos muito precria. Como pedi, 
ele veio e examinou todos os cinco. A pequenininha, que tirou o lugar de mascote da pequena Vida, agora era o grude de Toninha. Pedro, quando voltava de viagens, 
trazia mimos para todos eles. A pequena Vida estava enciumada. Ela, por muito tempo, foi o centro das atenes da famlia. Cada vez mais ficava agarrada em mim. 
As telas que agora ela pintava at tinham sentido. Incentivei-a pintar com mais cuidado, com mais calor e menos brincadeira. Ensinei-a  colocar toda a emoo que 
sentia nas telas. Em pouco tempo, seus quadros j enfeitavam os novos ambientes. As crianas adoravam! Vida pintava figuras engraadas, coloridas e completava o 
aconchego dos quartos. O que no passava de brincadeira foi tomando forma e agora era coisa sria. Vida passou a pintar constantemente. Chegava da escola e ia direto 
procurar os pincis. Ela, como eu, tinha entrado no maravilhoso mundo da aquarela.
Pedro no desistia. Queria saber quem tinha maltratado os meninos. Um dia, o padre chegou a nossa casa e contou ter sido procurado por um homem que dizia ter perdido 
seus filhos.
- No disse onde eles estavam - disse o padre. - No gostei do jeito que falava. Vim primeiro saber de voc se posso dar o endereo de sua casa.
- Padre, amo todas as crianas que me chegam. Quero que tenham o que posso dar de melhor, mas, se eles tm famlia e por um motivo qualquer se perderam, no sou 
eu que vou afast-los dela. Vou pedir a Pedro que v com o senhor at a cidade. Ele saber como fazer para saber se as crianas que aqui esto so realmente as procuradas.
No falei nada ao padre das marcas em seus corpos, no queria assust-lo. Chamei Pedro e pedi que acompanhasse o padre at a cidade. Expliquei-lhe o motivo, e ele 
prontamente aceitou o encargo. At me arrependi. Esqueci da raiva que Pedro sentiu ao dar banho nas crianas. Pedi a ele que tivesse calma e bom senso. Se fosse 
realmente o pai das crianas, ele teria o direito de lev-las. Pedro foi embora com o padre, e eu fui contar a Toninha o que se passava. A pequenina dormia que nem 
um anjo nos braos de Toninha.
- Vou sentir falta dela - disse Toninha, mas, se tem quem lhes cuide, no podemos ret-los aqui.
Fui procurar os dois meninos, mas no os achei. Perguntei a todos por eles, ningum os tinha visto. Fui procurar a pequena Vida, que sempre sabia de tudo.
- Eu os vi correndo em direo s rvores, pai! Acho que esto brincando de esconder.
Fui procur-los e, de novo, no os achei. Pedi aos meus filhos que fossem a cavalo  procura deles. Eu temia que tivessem escutado o padre e tivessem fugido. Ningum 
os encontrou. Comecei a ficar apreensivo. Eles, desde o momento que passaram a morar ali, eram responsabilidade minha. Agora no tinha Vida para me ajudar. Eu ficava 
desesperado. Eu a chamava, mesmo sabendo que no iria escutar.
- Vida! - eu dizia. - As crianas so responsabilidade nossa! Voc as botou no meu caminho, por Deus, no deixe que nada de ruim acontea!
Foi a que se aproximaram os dois meninos. Os que chegaram depois deles. Ficaram parados  minha frente, como se esperassem que os interrogasse.
- Vocs sabem onde eles esto? - perguntei. - Eles podem estar correndo perigo. So pequenos ainda. Se no voltarem, ficaro perdidos por esse mundo.
- Eles fugiram, senhor!
Os cinco que agora chegaram no me chamavam de pai. Eu deixei por conta do corao deles.
- Eles esto com medo! Eles disseram que apanhavam muito do padrasto deles. Ele os mandava esmolar junto com a irmzinha e, se no chegassem com dinheiro em casa, 
dormiam ao relento. Mas no  a eles que procuram, e sim a ns. Fugimos de uma casa cheia de crianas que tem na outra cidade. Fomos deixados l em pequenos, e apanhvamos 
sem motivo. No queramos contar antes, com medo que o senhor nos levasse de volta! Temos certeza de que  ele que est nos procurando. O homem que tomava conta 
de tudo. As vezes, at dormindo apanhvamos. Se o servio no ficava bem feito, como ele dizia, ele pegava um chicote de montaria e nos batia, com todas as crianas 
reunidas para presenciar. Temos certeza de que  ele, e no o padrasto dos outros meninos.
Eu os abracei, perguntando-me o que iria fazer, como escond-los? No poderia! Mas tambm no poderia os entregar a maus-tratos.
- Vamos achar os dois meninos assustados e depois pensaremos no que fazer para vocs ficarem em definitivo nesta casa.
Nisso chegou um dos meus filhos trazendo pela mo os dois meninos fujes.
- Onde vocs estavam indo? - perguntei. - Nos abandonam e tambm  irm de vocs? Para onde iam, no se sentem seguros aqui?
O menor respondeu, chorando:
- Ns estamos com medo. Ele vai nos achar e levar de volta para casa!
- Ele quem? - perguntei. - Vocs disseram que no tinha ningum por vocs.
- Nosso padrasto! Ele bebe o dia inteiro e, quando no tem dinheiro para comprar mais, nos manda para a rua com nossa irmzinha para pedir esmola. Mas quem o conhece 
nega, sabe que o dinheiro  para comprar bebida. Ele nos espanca, puxa nossa irmzinha pelos cabelos, ameaa que ela vai sofrer as consequncias, se no conseguirmos 
nada. Escutei tudo abismado. As cinco crianas que chegaram  minha casa sofriam o mesmo tipo de maus-tratos. Como podem existir pessoas que, em vez de am-los, 
cri-los, despejavam neles toda a frustrao de uma vida perdida? Naquele momento, jurei que, custasse o que custasse, ningum os levaria dali. Fiquei ansioso esperando 
a volta de Pedro. Ele estava se demorando demais. Pedi a Joo que fosse procur-lo. Pedro era esquentado, poderia ter perdido a cabea, mas Joo nem chegou a ir 
 sua procura. Ele chegou acompanhado de um homem, que aparentemente parecia boa figura. Chegou, se apresentou, dizendo ter na cidade prxima um lar de crianas 
abandonadas. Duas crianas tinham se ido de l. Ele as estava procurando, e a informao que obteve  que estariam em minha casa.
- Gostaria muito de o ajudar - disse. - Tens o registro dessas crianas? Sem documentos, no permito que ningum saia de minha casa.
Pedro me olhou espantado e disse:
- Pai, ele tem um lar de crianas abandonadas. Conversei muito com ele. Ele me contou que tinha um rapaz que, em troca de comida e abrigo, ajudava a tomar conta 
das crianas. O que ele no sabia  que esse rapaz batia nelas. Por isso veio  procura deles. Quer lev-los de volta para o lar, onde esto desde pequenos.
No acreditei em uma palavra do que ele tinha dito a Pedro.
- Vou buscar as crianas. Se quiserem ir com o senhor, iro! Mas, se no quiserem, s sairo daqui com ordem recebida do magistrado.
O homem logo mudou de expresso. O ar de bonzinho se tornou uma mscara de irritao.
- No sei se so as crianas que procuro, mas, se forem, vou lev-las de qualquer jeito!
Nisso, Joo entrou na sala trazendo os dois pela mo. Eles correram e se agarraram em mim, como se fosse a salvao deles.
- No deixe que nos leve, senhor! - eles pediam chorando. - Seremos bonzinhos, faremos o que mandar!
Eles se agarravam em mim, como s eu pudesse salv-los. O homem se aproximou deles, tentou abra-los, dizendo:
- Meus filhos! O que aconteceu para deix-los to assustados? Vamos embora comigo, nada acontecer. J mandei embora quem os castigava, agora vivero tranquilos, 
junto com seus irmos.
- No iremos com o senhor! - disse o maiorzinho. - Era o senhor que nos batia! No queremos voltar para aquela casa maldita!
O homem, furioso, tentou agarr-lo, mas Pedro o segurou pelo colarinho e o jogou fora de casa.
- Suma daqui! - disse Pedro. - Se aparecer de novo, chamo a polcia para prend-lo por maus-tratos a criana!
O homem foi embora se limpando, olhando com medo para os meus filhos, que o tinham rodeado.
- Ele vai voltar! - diziam os meninos com medo e ainda agarrados em minhas pernas.
Foi a partir desse dia que aquela casa foi registrada como um lar para crianas abandonadas ou que eram submetidas a maus-tratos. Fui at a cidade tratar da papelada. 
Precisava ter o registro, se queria realmente ter todas aquelas crianas comigo. No era mais uma simples casa de famlia. Era um abrigo para crianas perdidas. 
Tinha de lhes dar toda a segurana e, como j tinha me alertado o padre, eu no poderia ter tantas crianas comigo sem uma casa registrada como abrigo.
E assim foi feito. A partir daquele dia, aquela casa tornou-se um abrigo oficial. S faltava um nome. Reuni toda a famlia para escolhermos que nome daramos quele 
lugar. A pequena Vida, juntamente com os outros menores, levaram na brincadeira. Queriam dar nome de animais, dizendo ser mais bonito. Queriam "gruta da ona pintada", 
"encontro de esquilos", "girafa de pescoo esticado", etc. Meus filhos maiores s faziam rir de tudo aquilo. Ento eu pedi que cada um colocasse num pedao de papel 
o nome que mais o agradasse. Todos fizeram o que pedi e colocamos todos dentro de uma fronha. Pedimos a mais nova integrante da famlia que retirasse o papel que 
daria o nome  nossa moradia. Abrigo da Felicidade foi o nome sorteado, e quem o deu foi a pequena Vida. Perguntei o porqu do nome, e ela respondeu:
- A felicidade mora conosco e com todos os que aqui chegam.
Todos adoraram a explicao dada por ela. Ela adorou ser, de novo, o centro das atenes.
Um tempo se passou. Tudo voltou ao normal. Pedi ao padre que, quando fosse perambular pela cidade prxima, levasse o documento que me dava a responsabilidade de 
criar os meninos e entregasse naquele lar em que diziam ter sofrido tanto. Pedi a ele, tambm, que verificasse a verdade dos fatos. E, se ele quisesse, tambm poderia 
trazer mais crianas para o Abrigo da Felicidade.
E mais crianas chegaram, nem sabia agora o nome de todos. Ao todo j eram vinte, e servio  que no faltava, mas meus filhos se encarregavam de tudo. Como Vida 
dissera, a minha misso continuava por intermdio dos meus filhos mais velhos. Como ela tambm previu, meus quadros vendiam cada vez mais. Depois de muito tempo, 
voltou o marchand a minha casa e adquiriu tudo o que eu tinha para levar a outros pases. E deixava a encomenda, para que eu fizesse tantos quantos pudesse.
A manh estava fria. Acordei e fui abrir a janela do quarto para sentir a brisa fria. Era o primeiro dia de agosto. Respirei aquele ar gelado que batia em meu rosto 
me despertando para os afazeres de um novo dia. De repente, visualizei Joo correndo em direo a casa. "Algo est acontecendo", pensei. Vesti-me e fui receb-lo. 
Ele estava esbaforido sem saber se corria em direo ao quarto de Toninha ou se comigo falava.
-  Alice, pai. Ela est com dores e com gua esparramada por todos os lados.
Nesse nterim, quem ficou nervoso fui eu. Sa chamando Dona Margarida, Toninha e acordando meus filhos mais velhos para irem at a cidade em busca do doutor.
- Acho que no vai dar tempo, pai! - disse Joo andando atrs de mim. Toninha j tinha colocado o xale, gesto imitado por Dona Margarida.
- Vamos, vamos - dizia ela. - Joo, v na frente e coloque gua para ferver. Dona Margarida, pegue aqueles lenis novos que j deixei separados e vamos acudir a 
menina. Quando o doutor chegar, ela j deve estar cansada de ter parido. E fomos todos para a casa de Joo e Alice. Ela nos esperava deitada em seu leito, com a 
fisionomia serena, apesar de estar sentindo as dores do parto. Toninha preparou tudo e pediu que eu, Joo, Pedro e os demais esperassem na sala. Ficamos em silncio, 
escutvamos a respirao ofegante de Alice. Joo no ficava parado. Pedro parecia ainda mais aflito. Deixou at de viajar nas ltimas semanas, esperando a vinda 
do beb. Uma hora se passou. Dona Margarida entrava e saa do quarto. Era com mais gua quente ou para apanhar toalhas. Fui l fora ver se o doutor chegava, mas 
quem chegou foi meu filho sozinho, dizendo no encontrar o doutor. Ele tinha ido fazer um parto nas redondezas. Fiquei nervoso de fato. Ser que as duas saberiam 
dar conta de tudo? E se houvesse um imprevisto? No! Pedi a Deus que me livrasse de maus pensamentos. Tudo daria certo, na f do Senhor! Estava rezando quando ouvi 
um choro. Primeiro mansinho, depois forte, que ecoou pela casa toda. Comeamos a rir nos abraando. Toninha abriu a porta do quarto pedindo silncio e nos mostrando 
uma trouxinha que tinha em seus braos.
- Venha, Joo, pegue,  seu filho!
- Um menino! - disseram todos como se ensaiassem uma cano.
- No!  uma meninazinha, a mais linda que j vi! - respondeu Toninha.
Eu tremia dos ps  cabea, no conseguia sair de onde estava. Joo se aproximou e colocou a menina em meus braos.
- Pai! Veja que linda! E perfeita! D a ela sua bno,  sua primeira neta!
Peguei a menina em meus braos e chorei de emoo. Ela parecia iluminada, encostei-a em meu peito e agradeci a Deus o momento. Entreguei-a de volta a Joo, dizendo:
- Deus a abenoe, Joo! Bem-vinda seja ela, voc e Alice, que a partir de hoje formam uma linda famlia! Pedro tambm estava todo emocionado. Era sua sobrinha e, 
graas a Deus, estava nascendo dentro de uma casa cheia de amor, de solidez e amparo. Depois de um tempo, nos permitiram ver Alice. Ela estava corada, olhos brilhantes, 
parecia uma rainha em seu leito deitada. Fui at ela, osculei sua testa, agradeci pela linda neta que tinha me dado. O quarto estava cheio. Todos os irmos rodeavam 
sua cama. Toninha colocou todos para fora. Dizia que Alice teria de descansar, que logo amamentaria a menina. Quando eu j ia saindo do quarto, Alice me chamou.
- Pai! Que nome daremos a ela? No quer o senhor escolher?
- Filha! Voc e Joo ainda no escolheram? Ouvi falar em tantos nomes, pensei que j tivessem escolhido um.
- Nenhum foi do nosso agrado. Gostaramos que o senhor fizesse a escolha.
Olhei para aquele pedacinho de gente rosada e disse para minha filha.
- Ela parece uma flor! Suave, delicada, perfumada, como uma rosa. Poderia ser Rosa seu nome?
- Pai!  lindo! Sabia que o senhor faria uma boa escolha!
- Rosa, Rosa - repetia Alice, acariciando a face da menina. Fui embora emocionado. Rosa significava Vida. Pois todo o tempo em que tive Vida em minha vida, as rosas 
tambm fizeram parte dela. E a emoo que senti ao ter a pequena Rosa junto ao meu peito ainda permanecia dentro de mim. Pedi aos meninos que fossem avisar ao proco 
do nascimento e aos avs tambm. Tinha certeza de que os pais de Vida logo apareceriam. Eles tambm esperavam ansiosos a chegada da filha de Alice. Disse aos meninos 
que iria caminhar. Fui at minha amiga rvore contar a novidade. Era uma manh fria, mas eu sentia um calor vindo do peito, como das vezes em que encontrava Vida. 
Fiquei ali sentado, encostado na rvore por horas. At que despertei com Pedro me chamando. Ele tinha chegado a cavalo, trazendo pela rdea o meu baio.
- Pai! Vamos para casa - disse ele - esto o esperando para brindar a chegada de Rosa. Dona Margarida preparou uma comida especial. Jos est l em casa, o padre, 
nossos avs e o senhor aqui sozinho, pensando em qu?
- Na vida, filho! Em Vida!
Pedro desceu do cavalo, me deu um forte abrao e me fez uma declarao de amor.
- Um dia, pedi que nunca nos abandonasse - disse ele - peo de novo, Pai! Precisamos muito do senhor! No se entregue por um amor desaparecido. Lembre das crianas 
que esto chegando. Precisam do senhor tanto quanto precisamos um dia.
- Eu sei, meu filho, eu sei! Mas, s vezes, a saudade aperta o peito e parece que no vou suportar. Mas prometi a Vida que seguiria em frente com minha misso e 
o farei, mesmo que venha aqui relembrar os bons momentos que tive com ela. Vamos pra casa. Hoje  dia de festejar!
Cheguei em casa e confraternizei com todos os que ali estavam. O padre era figura constante em nossa casa. Das quermesses, minhas filhas sempre participaram. Abracei 
com carinho os pais de Vida. Eles tambm estavam sofrendo por mais uma despedida. Saber que a filha andava por essas paragens lhes dava nimo. Como aconteceu conosco, 
a rosa que lhes foi enviada tambm perdeu a magia e se despetalou. Creio que no mesmo momento das outras. Almoamos na grande mesa fora de casa. Agora eram tantos 
talheres e pratos que tive de arranjar uma ajudante para Dona Margarida. A princpio, ela negou veementemente. Dizia dar conta de tudo sozinha. Estava velha, mas 
ainda tinha foras para o servio. S consegui convenc-la quando disse que, assim, ela estaria privando algum de ter um ganho e colocar o po sobre a mesa. Meus 
filhos mais velhos cuidavam das crianas. Nem precisava que Toninha os alertasse sobre isso. A tarefa de cuidar de crianas era uma constante em minha casa. Da parte 
burocrtica se encarregavam Pedro e Joo. Numa das salas fiz um escritrio, onde Joo cuidava das contas e despesas dirias. Tambm se encarregava dos estudos das 
crianas, roupas a serem compradas, materiais e tantas outras coisas. Eu ficava cada vez mais afastado de tudo. Refugiava-me na minha saleta entre tintas e quadros. 
Acabei de almoar, pedi licena a todos e fui colocar minha inspirao do momento nas telas. Ainda sentia em meu peito o aconchego daquele pequeno embrulho. Rosa, 
minha pequena Rosa. Minha pequena Vida. Vida! Como sentia sua falta. Toninha sabia que eu estava sofrendo. Nas noites em que conversvamos, ela tentava me animar, 
dizendo que talvez fosse brincadeira e eu ainda encontraria Vida por aquelas paragens. Eu sabia que no. Sabia o quanto foram verdadeiras suas palavras. E, assim 
pensando em Vida, pintei a maior tela que tinha naquele momento. Retratei Alice na cama entre colchas e lenis. Cabelos esparramados no travesseiro e a pequena 
Rosa em seus braos. Circulei a tela com rosas plidas, deixando sobressair a face rosada da pequena Rosa. Trabalhei horas sem parar. Despertei com Joo me chamando, 
tocando em meu ombro.
- Pai! O senhor est a h horas, mas  maravilhoso! O senhor transportou Alice de casa para sua tela!
Ele me abraou fortemente e agradeci a Deus o filho que o destino me deu.
- S mais um pouco, filho! S mais um pouco! Deixe eu terminar esta tela que quero dar de presente a Alice.
Joo se retirou sem mais palavras, mas no fiquei s por muito tempo. Logo chegou a pequena Vida, querendo saber como poderia fazer igual ao que eu tinha feito. 
Ela, agora, conseguia retratar to bem quanto eu. Seus quadros iam misturados aos meus e eram vendidos to rpido quanto. Sempre tive a pacincia e o carinho de 
auxili-la no que fosse preciso. Orgulhava-me quando ela terminava uma tela e pedia que eu assinasse junto com ela. Alice adorou a surpresa. Pediu a Joo que colocasse 
no quarto acima de sua cama.
Um tempo se passou. Tudo corria normalmente. Minha famlia se dividia entre cuidar das crianas, que continuavam chegando, da lojinha, que crescera muito, e da ferraria, 
fora as criaes que tnhamos adquirido. Eu continuava a cavalgar at minha rvore. Ficava l horas. As vezes, com telas e pincis, colocava toda a minha dor e saudade 
para fora. Um dia, chegando em casa do meu passeio dirio, dei de encontro com o meu conhecido e garboso marchand.
Veio cheio de histrias, me engambelando, e, no final, disse o motivo por que veio. Queria que a pequena Vida viajasse com ele. Queria lev-la a outros pases. Queria 
mostrar ao mundo a grande pintora que era. Disse que, se um dia eu recusei por motivos que ele no entendia, no tinha eu agora o direito de priv-la de conhecer 
o mundo. Escutei tudo calado. Chamei Joo, Pedro e Toninha. Queria a opinio deles. No podia impedir a carreira de Vida. Se um dia no parti, foi por vrios motivos, 
e um deles foi Vida! Todos escutaram a proposta do marchand. Pedro pediu a palavra.
- Pai! Acho que no podes impedir que Vida aparea para o mundo, mas ela tem de querer ir, e no poder ir sozinha. Ela  uma adolescente e precisa de um irmo por 
perto que a oriente. Eu estou disponvel! Farei o sacrifcio de viajar pelo mundo acompanhando o senhor marchand e Vida.
Acabamos por rir todos. Pedro acabava de se insinuar na tal viagem. Pedi a Joo que fosse buscar a pequena Vida. Queria que ela resolvesse. Sabia que ela, apesar 
de amar a todos, era como Pedro, uma sonhadora. Gostava de conhecer lugares diferentes. Muitas vezes, quando era menor, tive de ir procur-la, pois cavalgara alm 
do permitido. Dizia que queria conhecer outras paragens e, fora dos limites dados por mim, ela se sentia realmente livre. Joo chegou trazendo a pequena pela mo. 
Ela parecia assustada, nunca lhe tinha chamado a ateno. Foi Pedro que comeou a falar. Falou da tal viagem e que iria com ela. Conheceriam outras cidades, outros 
pases, e assim ele teria a chance de prover a loja de coisas novas, e ela de ampliar seu horizonte com tcnicas de pinturas diferentes. Vida de pronto aceitou. 
Nunca tinha sado de casa, a no ser para ir  igreja ou  cidade vizinha. Pediu para eu ir com ela, no queria se afastar de mim, mas a convenci, dizendo estar 
ali sempre, esperando que ela voltasse. Pedro era o mais animado e eu o mais receoso. Conhecia o marchand havia um bom tempo, mas temia seus conhecimentos. No queria 
meus filhos mudados. No os queria com sua soberba, mas no podia impedir que Vida tivesse sucesso.
A viagem foi marcada para dali a dez dias. Precisavam de minha autorizao em cartrio, passaporte dela e de Pedro. Fora as malas para a tal viagem, que a princpio 
o marchand disse ser por, no mnimo, seis meses. Se ficassem por menos tempo, no conseguiriam grandes conhecimentos. Era uma viagem cara, ento teria de durar um 
mnimo de tempo para dar algum rendimento. A casa ficou em polvorosa. S se falava na viagem. Alice at chorou. Vida ainda era sua pequena, mas entendeu que, com 
Pedro, no teria grandes preocupaes. Sabia que ele tomaria conta dela, nada de mal iria lhe acontecer. Toninha se encarregou do enxoval. Todos os dias verificava 
se faltava comprar alguma pea. Queria Vida bem vestida, no queria que sentisse vergonha por falta de vestimentas, fosse onde fosse. Pedro, no quinto dia, j estava 
com tudo arrumado. E, no dcimo, como foi combinado, estava em minha casa o marchand. Ele tinha um carro todo espelhado. O preto tinia, de to novo que era. Vida 
ficou maravilhada! Correria as primeiras cidades naquele carro, que para ela parecia de brinquedo. Acomodamos nele as malas e as pinturas de Vida. Dei-lhe parte 
de meu material para, de quando em quando na viagem, no momento em que a inspirao batesse, ela colocasse tudo nas telas. E, acenando com vigor, mas com angstia 
no peito, dei adeus  minha menina e quele que um dia dormiu com medo em minhas pernas.
Os dias seguintes passaram arrastados. Eu sentia muita falta de minha menina, apesar de ter crianas agora por todos os lados, mas Vida tinha se tornado minha companheira. 
Acostumei-me com ela ao meu lado entre tintas e pincis e com suas risadas gostosas. Agora o silncio era meu companheiro nas horas em que eu pintava. As crianas 
no iam me procurar. No estavam acostumadas. Agora eram tantas; as pequeninas me chamavam de paizinho. Eu as pegava no colo e orava pelo seu futuro. O proco era 
visita constante e, desde que eu oficializei a morada para Abrigo da Felicidade, ele tambm levava a conhecer as beatas da igreja. Elas davam ajuda a Toninha. Levavam 
guloseimas para as crianas e iam ensinar costuras e bordados para as meninas. Eu ficava agradecido. Era um trabalho rduo, mas muito gratificante. Meus filhos mais 
velhos eram muito organizados e, com a orientao de Joo, no deixavam nada a desejar. De vez em quando, quando estava distrado a pintar, chegava at mim um dos 
meus filhos para me mostrar uma nova criana. Nos arredores da cidade a pobreza era presente, a fome uma presena constante na vida daquela gente. Muitos pais ficavam 
tsicos. O pouco que eles conseguiam para comer davam aos filhos, e assim iam enfraquecendo, acabando por sucumbir, deixando os filhos sozinhos no mundo. s vezes, 
a criana chegava ao abrigo levada por seus prprios pais. Pediam que, por amor a Deus, cuidssemos delas, porque no aguentavam mais o sofrimento de v-las doentes 
e com fome. Amparvamos todas elas. Agora ramos tambm ajudados pela igreja por meio de doaes e quermesses. Pessoas diferentes agora perambulavam pela casa ensinando 
aos pequenos as primeiras palavras. Eu as olhava e pensava em Vida. Tudo o que ela dissera aconteceu. Ficou longe o tempo das conversas  frente da lareira, onde 
reunia Toninha e meus filhos. Sentia saudades, sentia saudades de Vida. Sentia saudades de minha pequena Vida. Sentia saudades de Pedro, meu levado em pequeno, que 
hoje era j homem feito. Toninha, j de cabea branquinha, ainda era fora  frente de tudo. Alice se dividia entre Rosa e as outras crianas pequenas. Graas aos 
cus e a Vida, o lugar parecia um paraso, cheio de flores em jardins que Alice sempre cuidara. Nas ampliaes que eu fazia na casa, sempre acrescentava algo l 
fora. Um caramancho, um balano, um banco de areia onde as crianas adoravam brincar. A estrebaria, onde havia diversos cavalos, nem me preocupava em olhar. Meus 
filhos, sempre orientados por um mais velho, cuidavam de tudo.
s vezes, eu ficava sentado  soleira da porta onde era meu ateli. Ficava pensando como tudo comeara: um rapaz simples chegado a uma cidade chamada Esperana, 
sem emprego, s com uma trouxa nas costas, que se enamorou de uma viso.
J tinham se passado trs meses desde a viagem dos meninos. De quando em quando, chegava uma carta, contando as aventuras das viagens. Mas, perto de completar seis 
meses, chegou uma carta de Pedro. Dizia que voltariam de vez. Minha pequena Vida no queria mais ficar. Seus quadros eram bem vendidos, como dizia Pedro na carta, 
mas eram obrigados a frequentar quase todas as noites festas e reunies. "As pessoas so diferentes, no olham dentro dos olhos e, com certeza, no dizem o que sentem" 
dizia ele "S sabem falar em fortunas, pesam o ser atravs dela. Fazem separaes e riem nas costas da gente. Somos simples, como o senhor nos ensinou, mas somos 
tambm orgulhosos de nossa famlia e da educao que recebemos" continuava ele. "Vida fala que sua inspirao est at acabando de tanta futilidade que gira em volta 
de tudo. Queremos voltar logo, mas o senhor marchand diz que temos de esperar que todas as telas sejam vendidas e as exposies terminem nas datas marcadas." Mandava 
um beijo para todos e pedia minha bno com carinho. Acabei de ler a carta vertendo lgrimas; meus filhos tinham ido mundo afora conhecer riquezas e compreenderam 
que numa cidade chamada Esperana e num lugar chamado Abrigo da Felicidade eles tinham mais do que riqueza.
Agora, eu pouco me alimentava. s vezes, ia at a cidade fazer uma visita ao doutor, e ele reclamava que eu no estava dando o devido valor  minha sade. As dores 
no peito continuavam. Incomodavam, mas eu no reclamava nem falava nada para ningum. No os queria preocupados comigo. A ateno deles j tinha de ser muito dividida. 
E, assim, foram passando os meses. At que chegou a vspera da chegada de meus filhos. Estava ansioso para v-los. Essa ansiedade me fazia mal, me apertava o peito. 
Avisei Toninha e sa para cavalgar at as pradarias. Senti o vento no rosto, senti a liberdade no cavalgar. Lembrei, como sempre, de Vida. J no era mais aquele 
moo sonhador, mas o amor que eu tinha por ela no se transformou; o tempo no curou a ferida aberta pela falta que ela me fazia. Era angustiante ficar a esperar 
e saber que ela no apareceria. Mas eu no conseguia ficar muito tempo sem ir ao meu recanto. s vezes, tentava me enganar, fazendo de conta que a qualquer momento 
ela apareceria. Cabelos esvoaando ao vento, cavalgar rpido! E com aquele chapu que nunca deixara de usar. Minhas corridas atrs dela, seu correr mgico, que eu 
s alcanava quando ela, de fato, permitia. Como sentia sua falta! Cheguei ao nosso local de encontro e fiquei encostado naquela rvore que presenciou tantos encontros. 
Adormeci. Quando acordei, estava num lugar diferente. Pessoas passavam por mim e falavam como se h muito me conhecessem. "Onde estou?" Perguntava-me. "Estava dormindo 
encostado na rvore e, de repente, me encontro nesse lugar desconhecido".
- Como vai? - me perguntaram. - Seja bem-vindo! - Virei-me e vi quem me falara. Era um senhor de barba, cabelos grisalhos e fisionomia calma.
- Onde estou? - perguntei. - No me lembro de ter cavalgado mais. Estava dormindo sob a rvore e, de repente, me encontrei aqui.
- As dores no peito, a angstia, nada mais sentirs aqui.
- Aqui onde? - perguntei. - Quero voltar para casa. Toninha me espera, e meus filhos j devem estar preocupados.
- Talvez amanh possa v-los, mas no momento tens de descansar. Fizeste uma longa viagem e, no momento, no podes retornar.
- Por favor! Fale-me claramente! Est me falando em enigmas, como j aconteceu em minha vida!
- Venha! Vamos caminhar. Vou lhe mostrar um paraso. Aqui no se sentem dores nem saudades. Aqui se chega depois da misso cumprida na Terra.
- Terra! Ento desencarnei? A dor no peito, a mquina que estava rateando falhou de vez! E meus filhos? Ficaro esperando minha volta! A pequena Vida e Pedro voltaro 
de viagem e no me encontraro! Vo sofrer! No queria causar sofrimento a eles.
- Venha! Vamos esperar a chegada deles. Eles esto sempre  sua procura, no tardaro em encontr-lo.
E, como num passe de mgica, estava eu e esse senhor perto de meu corpo, que jazia ali encostado, como se dormisse sob a rvore. De repente, despertei com Joo me 
chamando. At respondi, mas ele foi em direo ao meu corpo, que jazia agora ali.
- Como posso estar em dois lugares ao mesmo tempo? Como posso lhe falar e estar ali deitado na relva?
- O qu vs agora ali recostado  s matria, o que est me falando  s esprito. Lembras de Vida?
- O senhor a conhece? Por favor, me leve at ela! Agora lembro que ela me falou que quando dessa Terra me fosse eu a encontraria.
- No foi bem assim! - disse ele. - Ela pediu que a esperasse na eternidade.
- Ento, senhor! Se vou esper-la,  porque vou encontr-la, somos iguais agora! Posso cavalgar com ela, sem ter de deix-la ir embora.
Parei de falar me dando conta de que Joo chorava. Abraava-me, me chamando, pedindo que despertasse. Chorei tambm. Meu menino, meus meninos, fosse para onde eu 
fosse, com certeza nunca os abandonaria. E, com esses pensamentos, me senti leve, senti que estava indo embora e adormeci. Eu dormia e acordava, no sei quanto tempo 
fiquei naquele estado de letargia. Quando, de fato, despertei, a primeira coisa que fiz foi perguntar por Vida.
- Precisas ter pacincia - falaram-me. Eu estava deitado numa cama ao lado de vrias outras, onde havia outras pessoas deitadas. J os sabia desencarnados como eu. 
E me perguntava qual seria a histria de cada um. Ser que algum deles tinha convivido na Terra com um esprito? Se tivesse acontecido, seria melhor para eu entender, 
conhecendo uma histria igual a minha, mas eles pouco falavam. Naquele momento, o mais desperto era eu. Pedi permisso para sair dali. Queria andar, procurar quem 
em vida perdi.
- Precisas ter pacincia, logo viro lhe falar.
E foi o que aconteceu. Aquele homem de ar bondoso que me recebeu, quando desencarnei, veio me ver e me falou coisas que, a princpio, no entendia. Falou-me de novas 
vidas, reencarnao e tempos diferentes entre o mundo espiritual e os viventes na Terra. Dizia que eu tive uma misso bonita e resgatei erros de outras vidas.
- Pouco entendo do que o senhor fala! - disse a ele - mas, por favor, se fiz tudo isso que falas, me leve a ver Vida!
Nisso, veio at mim uma moa bonita, com uma bandeja e diversas jarras de suco. Cores diferentes, sabores diversos, era tudo muito estranho. Ofereceu-me e recusei.
- Como posso me alimentar, se agora sou s esprito? - perguntei a ele.
- Ainda ests fraco. Ainda precisas dos alimentos que fizeram parte de sua vida. Prove! - dizia ele. - Te sentirs melhor! E ento irs comigo percorrer lugares 
onde, se quiseres, poders trabalhar.
- Trabalhar! Como! Desencarnei, sei que vivo no estou mais, para que trabalhar? No preciso mais de dinheiro, ou penso que no preciso. Ou aqui tambm se paga alguma 
coisa?
- Todos tm algo a pagar - respondeu ele. - S que dinheiro agora no  mais preciso, mas muitos precisam de ajuda. Poucos tm a compreenso de que partiram da Terra. 
Precisam de ajuda, sofrem como se fossem encarnados ainda. Mas vamos conhecer alguns lugares, lugares de estudo, de recreao, jardins onde podes passear, e uma 
vasta biblioteca onde podes te distrair e aprender o que se passa aqui. Se quiseres, tambm podes continuar a pintar. Podes mandar intuio para sua filha das telas 
que estiveres pintando e continuar seu trabalho.
- Meus filhos? Como esto? Posso v-los?
- No neste momento, mas depois, quem sabe? S depender de voc!
Peguei o copo de suco que me foi oferecido e bebi. Senti-me bem. No pensei que precisasse tanto daquilo. Deram-me para vestir uma roupa larga, que me dava uma leveza 
e me punha  vontade. Acompanhei meu cicerone. Sabia o quanto precisava dele. Tudo me era desconhecido. Andamos por vrios lugares. Alguns at me lembravam a cidade 
em que morava. Vida no saa de meu pensamento. No queria ser inoportuno, perguntando toda hora por ela, mas ansiava por v-la. Se eu era agora tambm s esprito, 
ento por que no v-la? Fui caminhando com ele por lugares lindssimos e tranquilos. Ele me levou at uma sala onde havia vrias pessoas sentadas em confortveis 
cadeiras a escutar o que um senhor que estava em p  frente de todos falava. Meu acompanhante me indicou um lugar vazio e pediu que ali me sentasse. Estranho, no 
poderia imaginar que isso fosse a morte. Falaram-me durante a vida toda de cu, inferno, e estava eu ali morto e sentado com outras pessoas, como se vivo ainda fosse. 
Como se lesse meus pensamentos, meu acompanhante pediu que eu prestasse ateno no que estava sendo dito. Envergonhei-me por ter estado disperso e comecei a prestar 
ateno em tudo o que estava sendo dito. Comecei, ento, a compreender o que estava acontecendo comigo. Meu corpo, que ficara sob a rvore, era s matria, uma encadernao 
para meu perisprito, para que eu fosse mais um andante pela Terra. Escutei sobre outras vidas, reencarnao, livre-arbtrio e sobre como poderamos ajudar os que 
continuavam sofrendo depois de terem feito a passagem. Falou-nos de um portal que dava para lugares tristes. S quem estava preparado e autorizado poderia atravess-lo. 
Mais tarde, fiquei sabendo que esse triste lugar se chamava umbral. A palestra, como chamavam aquela reunio, acabou, mas pediam que voltssemos mais tarde, que 
mais aprenderamos. Sa dali com meu acompanhante e percebi que todos andavam, no mnimo, em pares. Fomos at a biblioteca  qual, pelo que ele me disse, eu sempre 
teria livre acesso. E, para minha maior surpresa, entramos em um salo onde o piso parecia vitrificado, as paredes aveludadas e quadros dispostos por todo o lado. 
Fiquei impressionado. O nico lugar onde tinha visto beleza parecida tinha sido na fazenda de L.C. Fui andando pelo salo e, s vezes, at o teto girava, todo pintado 
com figuras angelicais. Ao fundo, pessoas estavam a pintar em telas como se na Terra estivessem.
- Como pode ser? - perguntei ao meu acompanhante.
- Tudo o que existe na Terra voc encontrar aqui. S os vcios e coisas ruins l ficaram. So coisas que o prprio homem desenvolveu para sua prpria destruio, 
mas o que ajuda, o que dignifica, voc encontrar aqui. So plasmadas, por isso, iguais s que existem na Terra.
Ele me indicou um lugar em que havia tela, cavalete e tinta de vrias cores. Disse que eu me pusesse  vontade, que mais tarde voltaria para me buscar. Fiquei parado 
olhando  minha volta. Ningum pronunciava uma palavra. Estavam todos absortos nas telas que pintavam. Arrumei tudo do meu jeito e comecei a retratar as belezas 
que vira naquele lugar. As cores eram diferentes, pareciam luminosas, parecia que davam vida s telas, como se pudessem penetrar nelas, de to real. Quando estava 
quase terminando, voltou aquele senhor, tocou de leve o meu brao e pediu que o acompanhasse. Coloquei de lado os pincis, e ele ficou a contemplar o desenho. Eu 
tinha retratado o jardim, onde pouco antes de comear a pintar passeara com ele.
-  maravilhoso - disse ele - mas agora vamos retornar  palestra, sua iniciao a esse novo mundo, o mundo espiritual.
Acompanhei-o j firme em meus passos. Ele, ao contrrio de mim, tinha uma leveza no caminhar, s vezes parecia que deslizava.
- Vocs no dormem? - perguntei a ele.
- No  preciso. A no ser aqueles que chegam e precisam desse estado letrgico at chegar o tempo de compreenso e de adquirir ensinamentos. Aqui no h dias e 
noites. H claridade e escurido. Onde estamos e em vrios lugares como este, espalhados por toda essa imensido que  o mundo espiritual, s existe claridade. Onde 
s h escurido, voc aprendeu, na primeira palestra, s vive quem se nega a ser ajudado. Quem no se arrepende dos malfeitos e no acredita que s a f em Deus 
pode ajud-los. S depois de muito sofrimento e de irmos a lhe estenderem a mo, conseguem dar o primeiro passo para encontrar a salvao. Deus no quer seus filhos 
em sofrimento, mas quer que tenham entendimento da vida tortuosa que caminharam. Mais tarde, quando j tiveres entendimento de tudo, poders ir comigo a esse trabalho, 
que  resgatar os que esto perdidos. Mas tens de aprender primeiro as palavras certas. As oraes sinceras que lhes toque o corao. Porque, se no estiveres preparado, 
eles tentaro te envolver, para no mais retornar  claridade. Mas isso fica para mais adiante. Vamos, agora,  palestra, para escutares sobre este mundo novo.
Escutava tudo com muita ateno. Muitas palavras j tinha ouvido dele e vinha do palestrante a confirmao. Quando acabou, ele me levou ao que parecia um alojamento. 
Era um lugar com vrias camas, cada uma com sua mesa de cabeceira e sobre ela um vaso com flores... Rosas. Ento, no pude mais me conter.
- Senhor, perdoe se estou aflito, mas minha espera por Vida j se faz interminvel!
- Hoje aprendestes mais sobre reencarnao, foi o que aconteceu com sua Vida. Reencarnou no seio de sua famlia. Ela fazia um lindo trabalho com as crianas que 
desencarnaram e sofria com o afastamento da famlia. Vida as consolava, cuidava delas para que fossem preparadas para uma nova encarnao. Nos momentos de folga 
(todos que aqui trabalham tm esse direito), ela ia cavalgar nas pradarias, tinha essa permisso. S no se pensava que se envolveria com um grande amor. Mas Vida 
era toda doura e seu trabalho, irrepreensvel! Chegava, s vezes, correndo, esbaforida, mas nunca esquecera de suas obrigaes com as crianas. E, na Terra, conduziu 
crianas a sua casa. Crianas que foram adotadas por voc, que lhes dava teto e abrigo.
- Como podes saber da minha vida? No precisas explicar, s como Vida! Sabes tudo o que acontece na Terra.
- No sou sabedor de tudo, como pensas. S Deus tem esse direito. Somos limitados. Sempre h algum acima a nos orientar, mas sabia sobre Vida, porque era eu o seu 
orientador. Eu pedi permisso para receb-lo e tambm ser o seu. Mas, falando mais sobre Vida, voc a teve de novo nos braos. At lhe deu novo nome para que vivesse 
sua nova encarnao.
- Rosa! A menininha rosada que me encantou de imediato! Ela  Vida? - perguntei a ele.
- Ela agora  Rosa. Como voc mesmo disse: a menininha rosada que encantara a todos.
- Meus Deus! E agora? Simplesmente fizemos uma troca! - disse a ele. - Agora estou aqui "morto" e ela vivendo em minha casa.
- A primeira coisa que tens de aprender  que no se morre. Somos transferidos para este mundo espiritual, do qual no se perde contato com a Terra. Repouse um pouco 
agora, ainda precisas desse sono. Beba um pouco do suco e acordars melhor, com mais entendimento.
Olhei a jarra sobre a mesa, onde tambm estavam as rosas, peguei um copo, derramei aquele suco amarelado, deitei e realmente dormi. Aquela foi a ltima vez que me 
deitei para ter um sono reparador, como diziam.
Os dias que se sucederam me envolveram completamente. Ia at a biblioteca, onde lia os ensinamentos de que precisava. Porque sobre vida espiritual, s sabia de Vida 
e mais nada. Pintava minhas telas e pensava na minha pequena Vida. As vezes, parecia que ela estava ao meu lado pintando. Sentia muita falta dos meus filhos. Pedi 
ao meu cicerone para v-los, no que fui prontamente atendido. Teria de ir acompanhado por ele e equilibrar minhas emoes, como diziam. O que eu sentisse no momento 
de v-los, que no fosse tristeza. Porque essa energia, com certeza, passaria para eles. Preparei-me todo. Deram-me outra muda de roupa. A que eu estava usando estava 
toda suada... suor... esprito... As vezes parecia que no entendia nada, mas aprendi que, para saber,  necessrio perguntar. Ento me foi explicado que eram energias 
ainda em meu perisprito instaladas que ocasionavam tal suor. Com o tempo, isso acabaria e eu usaria a mesma vestimenta sem trocar.
Esperei ansioso o momento de ir at meus filhos. O senhor, que sempre me acompanhava, colocou a mo em meu ombro e, sem perceber que tinha sado do mundo espiritual, 
estava na saleta de minha casa. Era de manh. No sabia o horrio, mas sabia que devia ser bem cedo, pois todos ainda dormiam. A primeira coisa que visualizei foi 
meu retrato em cima da lareira ao lado de Vida. Pelo toque, pela pintura, com certeza quem o tinha retratado tinha sido minha pequena Vida. Fiquei por um momento 
ali parado olhando. Uma tela, uma foto. Uma luminria de cada lado e, no meio, uma jarra com um buqu de rosas. Fiquei emocionado. Meu, acompanhante tocou de leve 
meu ombro, dizendo:
- Nada de tristezas, tens de exalar alegria para esses que fizeram parte da sua famlia.
Enxuguei uma lgrima que teimava em rolar e pensei: "Deve ser a tal energia que ainda no deve ter se dissipado". Fui em direo ao quarto de Toninha e a vi deitada 
em sono profundo, sua cabea branquinha parecia algodo colhido e disposto lado a lado. Coloquei um beijo em meus dedos e depositei em sua testa. Sempre tive, e 
ainda tinha, um sentimento profundo de amor e respeito por aquela mulher. Ela respirou fundo e achei at que tinha sentido o beijo. Fui at o quarto de Pedro. Ele 
e Joo dividiam o mesmo, e, quando Joo se casou, Pedro ficou absoluto no quarto. Mesmo com a chegada de outras crianas, nunca pedi que o dividisse com algum, 
era seu mundo. Mas, agora, penetrando naquele ambiente que bem conhecia, deparei-me com uma cena que j vira antes. Pedro estava dormindo rodeado de crianas, como 
um dia aconteceu comigo. Tinha um que estava rodeado em suas pernas. Fui at perto da cama. Olhei as crianas, fiz uma orao pedindo que bem se encaminhassem.
Fui at Pedro e fiz-lhe um afago nos cabelos. Ele abriu os olhos e disse:
- Pai! Ests aqui, pai?
Dei um passo para trs espantado, mas meu acompanhante me tranquilizou, colocando o dedo nos lbios e a mo sobre Pedro. Ele voltou a dormir. Samos dali e quis 
saber o que acontecera.
- Ele sentiu sua presena - disse ele. - Lembras o que acontecia com voc? Tirando as crianas, s voc que a via. Isso se chama mediunidade. Pedro  igual a voc.
Fomos at o quarto de Alice e Vida. O mesmo aconteceu com elas. As trs meninas que chegaram foram acolhidas por Alice. Como Vida era muito pequena, a princpio 
dormia com Toninha, mas depois ficou a cargo de Alice. Alice cuidava dela como se fosse sua filha. Ela dormia com seus cabelos esparramados no travesseiro. Era uma 
bela menina, uma bela mocinha. Olhei as telas espalhadas pelo quarto, quase no se via o cho. Era telas pintadas e quadros j emoldurados para todo lado. Mandei-lhe 
um beijo e todo o meu amor. Como a amava. Como amava meus filhos. Fui aos outros quartos onde dormiam os outros meninos e meninas. As irms da pequena Vida j eram 
moas formadas. Todas foram timas crianas e, com certeza, continuaram esse caminho. Fui me despedindo, me encaminhando para a porta.
- No  preciso - disse meu acompanhante - sei onde queres ir.
E tocou de leve em meu ombro, senti uma leveza e, como num passe de mgica, estava na casa de Alice. Ela j estava acordada, preparava para Rosa a mamadeira. Fiquei 
espantado. Rosa crescera, quanto tempo j tinha se passado desde que eu morrera? Morrera? No! Outra coisa que aprendi no mundo espiritual  que no se morre. Morrem 
os vegetais, as flores, a relva macia quando queimada pelo sol forte ou a ignorncia dos homens, mas o ser humano, que habita todo esse mundo terrestre de meu Deus, 
desencarna. Apenas se desliga da matria por ele usada para mais uma encarnao, para passar para outro plano, o mundo espiritual, onde ter ajuda. Ajuda para resgatar 
o que no conseguiu fazer e retornar em outra vida, com melhor entendimento sobre como viver melhor. s vezes, so tantos os retornos que o feito ficou longe, mas 
no esquecido. Despertei dos meus pensamentos com a palavra acolhedora de meu amigo.
- Ests certo!  exatamente o que acontece. Tens aprendido bastante! J  tempo de ires comigo para fazermos o tal resgate.
O choro de Rosa colocou ponto final nas ponderaes. Alice a pegou no colo e a alimentou, era uma bonita viso. Ento, ali tambm estava Vida. Como poderia eu encontr-la, 
se agora vivia a nova encarnao na minha pequenina?
- Vais entender! - disse meu amigo.
Assim eu o considerava, pois estava sempre comigo.
- Temos de ir - disse ele - acabou nosso tempo. O trabalho nos espera. Temos deveres e obrigaes, tudo a seu tempo.
Despedi-me de minhas meninas, mandando-lhes bons fluidos, retribuindo tanto amor que tiveram para comigo. Voltamos ao mundo espiritual. Agora eu no ficava mais 
no antigo alojamento. Fui habitar uma pequena casa, dividindo-a com mais trs amigos. Como tantas vezes aconteceu em minha casa com Toninha, ficvamos a confabular 
por horas. Havia na casa uma ampulheta (aprendi que era assim chamada) com areia rosada, que servia para marcarmos o tempo de nossas conversaes. Ali trocvamos 
ensinamentos e aumentvamos nosso discernimento. Reunamo-nos depois do trabalho, j era uma rotina. Era prazeroso, at acalentava a saudade que eu tinha de Vida. 
De quando em quando, ia com meu acompanhante visitar os meus, acompanhava o crescimento de Rosa e a misso que meus filhos herdaram e, como eu via, estava bem encaminhada.
Joo aprendera bem. A casa j tinha ampliaes, e ele se preocupava com que todos vivessem com conforto. s vezes, encontrava Toninha na varanda se balanando em 
uma aconchegante cadeira e seus pensamentos voando como o vento em seus cabelos. Ficava absorta. Dona Margarida, tambm j bem idosa, com ela conversava, mas eram 
palavras jogadas fora. Toninha vivia, no momento, as lembranas do passado. Certa manh, bem cedinho, ela foi se sentar em sua cadeira. Ficou a balanar e, nesse 
balano, fez a passagem. Eu a tudo assisti. Sabia que no poderia interferir, mas pedi permisso para ajud-la. Meu brao amigo a apoiou e a conduziu para seu novo 
abrigo. Levei-a meio adormecida. Ela abriu os olhos e pronunciou:
- Daniel,  voc mesmo...
- Sim, Toninha, mas agora repousa, que ficarei contigo. E, assim, tive minha boa amiga comigo. Ela passou a fazer parte da roda de conversa que entabulvamos para 
aumentar e trocar conhecimentos. O caminho que fiz quando l cheguei foi o mesmo que usei para conduzir Toninha. De momento, no fiquei feliz com sua partida de 
perto dos meninos, mas depois entendi que com tempo terminado, o retorno teria de ser feito. Graas aos cus, de uma maneira amena e misso cumprida junto aos seus. 
Foi doloroso para os meus filhos sua partida. Toninha era a fora familiar. Mas Alice a substitua muito bem, como vamos nas nossas andanas, quando amos visit-los 
para lhes levar boas energias e ajud-los quando possvel. Rosa, ento, j era uma mocinha, era a alegria daquela casa. Eu a olhava e via Vida.
 

O tempo passa depressa


Cada vez que amos visit-los, agora tambm em companhia de Toninha, tudo estava diferente. Mais crianas eles tinham. Ao lado da casa de Joo e Alice outras casas 
foram construdas, mas meus filhos mais velhos estavam todos casados, todos constituram famlia. Para minha surpresa ou no, j vinham de outras vidas vividas. 
Pedro e minha pequena Vida estavam casados e viviam na casa principal felizes. Acho que ali eles permaneceram por causa do ateli. Vida era inspirao plena, como 
se podia ver em suas telas. Quando eu estava a pintar, agora em outro plano, pensava nela o tempo todo, mesmo estando ali a pintar absorto. As linhas que ela traava 
tinham algo em comum com as minhas. Seus quadros pareciam os meus quadros, e graas aos cus isso ocorria. Em uma das vezes em que l estivemos, estava l o marchand. 
Apesar de Vida no ter permanecido com ele em outro pas, ele no a abandonou. Continuava a vender suas telas, o que, junto com a lojinha, garantia a sobrevivncia 
da famlia. Pedro no mais viajava. Cuidava, junto com Joo, de tudo que fora deixado por mim. E, pela quantidade que vamos, agora, de fato, tambm criavam cavalos. 
Aqueles por mim adquiridos lhes serviam de montaria, mas, como era de meu conhecimento, agora eles tinham vrias raas distribudas em estrebarias. A ferraria tinha 
vrios trabalhadores. Alguns eu nem conhecia. Eram aprendizes e, com certeza, tambm viviam na casa. Jos, j com seus ps arrastando, agora deixava tudo a cargo 
de Joo. Joo era um bom moo, tive a graa de conviver com ele.
Agora, pouco ia at eles. Tinha todo o meu tempo tomado em aprendizagem para melhorar meus conhecimentos e ter mais entendimento do que se passara comigo na minha 
permanncia na Terra. Toninha ficou um tempo morando comigo, mas depois foi junto com um grupo fazer caminhadas para amparar aqueles que ainda no tinham entendimento 
de que tinham feito a passagem e precisavam de ajuda. Queria t-la sempre perto de mim, mas seria egosmo. Quando dela precisei, fui amparado, agora outros dela 
precisavam. Toninha, mais do que eu pensava, era puro conhecimento. Foi ela at que deu a explicao de nossa ligao. Em outra encarnao, eu fui seu filho. No 
na forma masculina, eu nasci filha de fidalgos, mas me apaixonei por um cavalario. Permisso para isso me foi negada. Ento, aconteceu o inevitvel. Eu, uma moa 
cheia de sonhos, enamorada de um rapago forte, garboso, deixei-me envolver em suas artimanhas e fiquei esperando um filho. Fui acorrentada, chicoteada at que acabei 
por perder a criana. Vivi em tristezas, fui definhando e acabei desencarnando. Minha me ficou arrependida, chorava todos os dias sobre meu tmulo. Meu pai sempre 
fora neutro. Assistiu a tudo sem nada fazer. Aquela que um dia fora minha me desencarnou, mas, j em arrependimento, fora ajudada e pediu para reencarnar vivendo 
sua vida a se dedicar aos filhos de outrem. Pediu que seus caminhos com o meu se cruzassem, para que pudesse resgatar o feito de outra vida. Vida foi nossa ligao. 
Quando tudo me foi narrado, chorei. Abracei-a e disse que ela tinha sido, para mim, mais que uma me. Tinha sido companheira de todas as horas. Eu, por minha vez, 
tendo entendimento do que se passou nessa outra vida, optei por no ter filhos nascidos meus, mas queria t-los encaminhados pela vida, para fazer ou tentar fazer 
suas vidas mais amenas. Acho que consegui. Graas a Deus, Toninha e Vida.
Agora, tempo passado, sigo minha vida espiritual esperando algum acontecimento. Vida ainda vivia em meus pensamentos. Era para ser uma leve recordao, mas no era 
o que acontecia. Ela estava cada vez mais viva no meu corao. Continuei a pintar e isso me envolvia, me deixava preparado para a ajuda que mais tarde daria. Os 
pais de Vida desencarnaram, quase um depois do outro. Depois que a mulher partira, o marido desencarnou de tristeza. Fui v-los, mas foram levados, separadamente, 
para um lugar de atendimento. Disseram que depois ficariam juntos. No com a mesma condio em que viveram, mas seriam companheiros para uma nova misso. Dona Margarida, 
quando desencarnou, no ficou muito bem. Quando se deu o desencarne, se pegou a outra vida j vivida e sofreu. Ela tinha sido uma rica senhora. Fora cruel com seus 
empregados e lhes negava at o po. Fora sovina, a ningum ajudava, queria juntar tesouros como se fosse lev-los para outra encarnao. Reencarnou e lhe faltou 
at o que comer. Viveu numa modesta casa onde, se no plantasse, no comeria, a no ser que lhe dessem por caridade. Mas seu resgate veio por meio das criancinhas 
que acolhera e levou para serem amparadas, pois no queria que passassem fome. Aos poucos, ela foi entendendo tudo. As vezes, eu ia at ela e a consolava, dizendo 
ela ter sido pea importante na vida daquelas crianas.
A ampulheta... perdi a noo do quanto ela j tinha sido virada. s vezes, caminhava pelo jardim e as rosas admirava. Rosa... Rosa... pedi permisso para v-la. 
Foi-me negado. Fiquei triste, mas entendi que teria de viver ali meus momentos. Para os viventes na Terra, o tempo passa depressa. Agora, esporadicamente, quando 
tinha notcias da minha famlia, muitos j haviam casado, at avs j eram. Muitos se formaram nas mais diversas profisses. Alguns viajaram em busca de trabalho 
que correspondesse s suas aspiraes.
De Vida no consegui mais saber, mas estava tranquilo. Fazia minhas obrigaes e cada vez mais pintava. Na verdade, no sei para onde tantos quadros iam. S sei 
que, quando l chegava, as telas prontas no estavam mais e outra tela havia no cavalete para ser pintada. Continuava assistindo s palestras e confabulando com 
meus amigos. Meu cicerone agora estava em outras paragens. Tinha sido um grande amigo. De Toninha tinha sempre notcias. At que, para minha surpresa, estava um 
dia eu absorto pintando quando senti sua presena.
- Daniel, senti saudades suas. Pedi permisso para v-lo.
Fui at ela e abracei-a. Agora ela no tinha mais branco em seus cabelos.
- Fui at a casa ver a famlia - disse ela. - A pequena Vida j tem lindos filhos. Alice teve mais trs filhos. Rosa substitui muito bem Alice.  ela que cuida agora 
de tudo. A moradia agora  enorme. O Abrigo da Felicidade abriga mais de cem pessoas. A cidade cresceu. O proco no reza mais missa. Est adoentado, perto de seu 
desencarne.
Escutei tudo calado. A saudade ainda me doa. s vezes, pensava no estar preparado para as misses que eu tinha, por ainda ter ficado em vidas passadas todo o amor 
que sentia. s vezes, me isolava naquele jardim. Sentia falta da minha amiga rvore, e de como ela me acalentava quando me encostava nela.
Um dia vieram me buscar. Disseram ter uma grata surpresa.
- Vida! - disse. -  o que mais quero nessa vida. Mesmo sendo vida espiritual.
No me responderam, me conduziram at um jardim afastado. Quando l chegamos, me deparei com algo conhecido. Minha amiga rvore estava ali plasmada, me convidando 
para o abrigo. Abracei meus acompanhantes e agradeci ao Senhor de todas as coisas. Agradeci o carinho inesperado e a bondade para comigo. Eles se foram, me deixando 
ali sozinho. Fui at ela devagar, como se em uma procisso estivesse. Cheguei perto e a toquei. Era a mesma, pensei. Todos os detalhes ela tinha, at as iniciais 
nela gravadas, DV fiquei emocionado. Ela fez parte de minha vida. Sentei-me e encostei nela, como em vida sempre fazia. A sensao de bem-estar me veio, como se 
na Terra estivesse. Quando abri os olhos, no estava no mesmo lugar. Estava realmente na rvore em que ia encontrar Vida. A relva, as flores, o barulho que as aves 
faziam, tudo estava igualzinho. Ouvi um relinchar, era meu baio. Como podia ele estar ali? Ou como podia "eu" estar ali? Fui at ele e lhe fiz montaria, ele aceitou 
de pronto. Cavalguei acariciando sua crina. Comecei a correr com ele, e cavalguei pelas pradarias. Senti a sensao de retorno e, de repente, na mesma rvore, em 
outro plano, eu estaria.
Agora, sempre no meu tempo vago, sentava-me sob a rvore, fechava os olhos e me transportava para o mesmo lugar. Meu baio sempre  espera. Ele no era plasmado, 
tinha adoecido de saudades minhas logo depois da minha passagem e acabou por findar. Agora era de novo meu companheiro. Eu estava maravilhado. Certo dia, em minha 
corrida desenfreada, quase atropelei algum. Levei um susto, mas me recuperei. Pedi desculpas e continuei a cavalgar. "Algum tem permisso de ali ficar", pensei, 
"mas a coincidncia de lugar.
Agora trabalhava com mais ardor. Fazia minhas rezas, minhas pinturas, ia s palestras, encaminhava quem precisava de ajuda e ia cavalgar. Agradecido a Deus por isso.
O tempo foi passando. Tempo era o que eu mais tinha. Tinha todo o tempo do mundo. Continuei minhas cavalgadas, mas a direo era sempre a mesma. Queria ver a que 
fora minha famlia, mas, no trotar, meu baio no obedecia. Ento eu ficava a correr pelas paragens que eu j conhecia bem. At que certo dia tornei a esbarrar em 
algum. Dessa vez, apeei e fui ver se tinha feito algum estrago. Para surpresa minha, a moa nem estava assustada. Aproximei-me, pedindo a ela desculpas, puxando 
meu baio pela rdea. "Que linda moa...", pensei, e fui logo me apresentando.
- Sou Daniel! - disse a ela. - Ests a esperar algum? - Ela me olhou espantada e disse no me conhecer.
- No s da cidade! - disse. - Nunca o vi na cidade, mas, pela segunda vez, quase me atropela com seu cavalo. 
Pedi desculpas e fiquei a observar. Conhecia aquelas faces rosadas... Rosa...
- Seu nome  Rosa?
- Como sabes como me chamo? s adivinho ou cigano?
- Nem uma coisa nem outra. Conheo-a desde pequena, e suas faces rosadas so marcas em seu rosto.
Convidei-a se sentar sob a rvore e ficamos a conversar. Perguntou se conhecia sua famlia, que tinha tantas crianas a criar.
- V nos visitar! - pediu ela. - Minha me vai adorar conhec-lo. Ela est sempre ocupada. Cuida da crianada com o maior zelo. Muitos j se foram, como conta ela, 
o Abrigo da Felicidade comeou devagarinho e hoje abriga tanta criana que  o lugar mais importante da cidade. Depois da igreja,  claro.
Ri com essa observao. Aproveitei e perguntei pelo proco.
- Ele est adoentado. Missa no reza mais nem sai mais de casa. Minha me prepara uns quitutes e pede que eu leve para ele. Ele gosta muito de conversar. Conta histrias 
desta rvore onde estamos. Conta que  assombrada, que espritos vivem nela. Conta que ela no muda nunca. Nunca, nem no outono ela fica desfolhada. Mas eu no tenho 
medo, ao contrrio, por curiosidade, por tanto que ele contou, vim conhec-la, e acabei encontrando nela um abrigo. Gosto de me sentar sob ela e contar como foi 
meu dia. Venho quando estou triste e quando estou alegre tambm. Na verdade, venho quase todos os dias. Estar aqui sentada sob ela me faz muito bem.
Escutei tudo emocionado, parecia a minha histria. Disse a ela que no poderia mais ficar, teria de ir embora.
- Volto outro dia - disse. - Sempre na mesma hora. 
Fui embora lhe acenando. Era uma linda moa. Vida ou Rosa?
Ser que uma sabia da outra ou as duas eram um todo? Pediria ajuda para compreender, muita coisa ainda no entendia, ainda mais quando se tratava de Vida. Mesmo 
quando ia embora a cavalgar, depois de um tempo me encontrava no mesmo lugar, mas sem ele.
Fazia minhas obrigaes, e Rosa no saa de meu pensamento. Outras vezes a encontrei. Por intermdio dela, sabia de tudo o que acontecia no Abrigo da Felicidade. 
Tive notcias da pequena Vida, que j era me de trs fortes rapazolas. Rosa devia ter mais de vinte anos, uns vinte e cinco para ser um pouco mais preciso. Era 
linda! Formosura plena. s vezes a olhava e via Vida.
Um dia, estava a esper-la sob a rvore e ela no apareceu. Pensei que estivesse doente e fiquei preocupado. Pensei nela, mandando energia positiva, e no me senti 
bem.
- Sabes o que est acontecendo? - virei-me e vi algum bem conhecido, era meu cicerone.
Pensei at que ele tivesse reencarnado, j h um tempo vivendo outra vida. E ele tornou a me perguntar.
- Sabes o que est acontecendo?
- Onde? - perguntei. - De que lugar ou de que ests falando?
- Falo da mocinha que aqui encontras. Pela mediunidade que ela possui, ela pode v-lo e falar-lhe, mas vamos at a casa dela. Ver ser a melhor explicao a lhe 
dar.
De repente, estava na casa de Alice. Ela estava chorando, Rosa chorava tambm. Ento passei a escutar a conversa de ambas.
- No quero que v mais l! - dizia Alice.
- Por que, me? Por que no posso ir ao encontro do meu amigo? S porque  homem? Mas nunca me faltou ao respeito! S conversamos, me! Eu falo de voc e de todas 
as coisas aqui acontecidas. Ele escuta com a maior ateno e at parece conhec-los!
- Rosa! - disse Alice chorando ainda mais. - No tenho certeza de quem seja, mas outro dia, com mais calma, lhe conto toda uma histria que fez parte de minha vida. 
Esse no  o momento apropriado. Vamos nos reunir outro dia e, ento, lhe contarei toda a histria. Chamarei Vida e Pedro e, juntamente com seu pai, tudo lhe esclareceremos. 
Olhe o quadro na saleta da casa grande. Olhe bem! Veja se no h semelhana com seu amigo.
Eu assisti a tudo petrificado. Meu amigo colocou a mo em meu ombro e retornamos ao mundo espiritual.
- Vamos conversar - disse ele.
E fomos at um lugar de muita claridade, pessoas andavam por todo o lado. "Pessoas, no!" Espritos... ainda no estava totalmente acostumado a esse outro plano. 
Era uma praa, toda arborizada, com flores de diversos tipos. At o ambiente perfumava. Apontou-me um banco e pediu que ali com ele me sentasse. Sentamos e ele, 
com o brao em volta de meu ombro, comeou a falar.
- Daniel! Tens todo o direito de cavalgar. Seu trabalho  rduo. s disciplinado. Foste um homem de f e atendeste a todas as expectativas. Superaste o desencanto 
e formaste uma bela famlia. Deste amor e o recebeste. Fizeste ensinamentos que at hoje so praticados, mas no confunda as coisas. Rosa no  Vida nessa encarnao 
por ela vivida. Lembre, ela  sua neta! Voc criou Alice, moldou-a, deu-lhe todos os ensinamentos at ela formar sua prpria famlia. s o pai do seu caminho. Na 
f, direito adquiriste por isso. Rosa, por direito,  sua neta!
- No foi de propsito o nosso encontro! - disse. - Estava a cavalgar quando esbarrei nela. Na minha amiga rvore, encontrei-a absorta em pensamentos, quis conversar 
com ela, achei que j a conhecia, mas no sabia que era Rosa, filha de Alice. Mas no se preocupe, manterei distncia, sei que terei de esperar Vida. No sei como 
ser, mas j percebi, e ela mesma um dia me falou. O tempo na Terra e no plano espiritual  diferente. Ento, mesmo ansioso, terei toda a pacincia para esper-la, 
seja at quando for.
- Louvo seus conhecimentos - disse ele - mas, de agora em diante, tenha cuidado para que Rosa no o veja quando fores fazer sua cavalgada.
Agradeci a ele e fui cumprir a misso que era destinada a mim. Fiquei um pouco amuado. No queria interferir na vida de minha famlia. Fiquei triste em ver Alice 
chorar. Minha menina, que um dia guiada por Vida, chegou a minha casa, comeando um torvelinho de emoes. Fiz todo o meu trabalho e fui colocar nas telas a emoo 
que estava sentindo. Mais tarde, sentei sob a rvore e mandei energia purificada para Alice. De novo chegou meu cicerone.
- Vamos at l? - disse ele. - Queres ver o que est a acontecer?
- Claro - respondi - estou preocupado com os sentimentos que Rosa possa ter.
- Tudo vai ficar a contento, vais ver!
E, assim, ficamos na sala de Alice, parecendo fazer parte da reunio que agora ali se fazia.
- Ento, nosso pai est por essas paragens! - disse Pedro.
- No tenho certeza - respondeu Alice. - Pedi que Rosa fosse descobrir no retrato da saleta alguma semelhana com seu amigo. Ento, Rosa? Foste at l para ver! 
- Rosa continuava calada. - Rosa! O que aconteceu? Por que ficaste muda? H alguma semelhana entre seu amigo e seu av?
- Quase todas, me! S que ele  novo, forte. No pode ser ele. Meu av desencarnou h muito tempo e j com idade avanada. Daniel  moo novo, mas no sei por que 
tanta preocupao. J lhe falei que somos s amigos. E, com certeza, ele no  esprito: ele  de carne e osso!
- No podes saber a diferena! - disse Alice. - Um dia, h muito tempo, uma menina com seus tenros sete anos foi abandonada  prpria sorte. Viu-se s, numa cidade 
para ela desconhecida, com fome e sem abrigo, mas encontrou em seu caminho uma linda moa com olhos que pareciam brilhantes, que a encaminhou para um lar onde vive 
at hoje, feliz, com seu marido e seus filhos, muitos de seu casamento e os que foram vindo atravs da vida.
- E voc, me! s a menina da histria? E quem  essa moa to bonita e to boa?
- Eu era a menina, e o outro retrato que est ao lado de seu av responde  sua pergunta. Lembras do nome, no ?
- Vida! A moa mais bonita da regio, como dizia Toninha. Tia! A senhora herdou o seu nome? - perguntou Rosa.
- Fui batizada pelos pais de Vida e, em homenagem a ela, me deram o seu nome.
- Eles eram casados, no eram? - perguntou Rosa.
- A  que comea uma linda e sofrida histria de amor - disse Alice. - Quando chegou a esta cidade, meu pai, ento Daniel, foi fazer uma caminhada. Reconhecimento 
do lugar. Vida, em suas cavalgadas, quase o derrubou, assim se conheceram e passaram a conviver, mas s naquele lugar que voc tambm gosta de estar. Ento, como 
ela demorava a aparecer, e de saudades ele se corroia, ele passou a procur-la. Perguntava por ela em todos os lugares e resposta certa no obtinha. At que, comeando 
pelo meu padrinho e indicado por Toninha, ele conheceu os pais de Vida.
- Por que os pais e no ela? - perguntou Rosa interrompendo Alice.
- Uma febre inexplicvel, que durou anos a fio, levou embora a bela moa, deixando saudades em sua famlia. Foi difcil para o meu pai compreender. Como nos contou 
Toninha, ele j trabalhava na ferraria com meu padrinho. Ele ficou muito doente, e Toninha foi cuidar dele. Foi assim que nasceu a amizade entre eles e acabaram 
por morar juntos. Daniel continuou a se encontrar com Vida, at o acidente de cavalo que quase tirou a vida da pequena Vida. Ela ficou sem poder andar. At que voltou 
a caminhar, no rio, com a rosa por Vida mandada. Depois disso, apesar da felicidade de no ter a pequena Vida entrevada numa cadeira de rodas, meu pai ficou triste, 
amuado. Acho que no conseguiu mais se encontrar com Vida. Ele acabou por desencarnar na mesma rvore em que a esperava para os encontros.
- Me! Deixa ver se entendi. Vida no vivia mais e meu av a encontrava? Como pode ser? Espritos no falam. A senhora est a pensar que Daniel, meu amigo,  meu 
av que retorna?
- Retornar, no, mas acho que cavalga por essas paragens no sentido de liberdade. Mas pensei que ele tivesse ido ao encontro de Vida, no compreendo. Viveram uma 
histria to linda. Pensei que, quando ele nos deixou, tinha ido ao encontro dela, mas, se cavalga sozinho, deve estar a procur-la. Rosa, no o procure. Deixe a 
rvore vazia para que ele encontre o amor de sua vida.
- No vou mais l. Podem ficar sossegados. Deixe meu av achar quem ele procura. Foi amado demais e merece ficar num lugar tranquilo.
Rosa abraou a me e a pequena Vida, Joo e Pedro se juntaram a elas, num longo abrao. Fiquei muito emocionado ouvindo a histria de minha vida. Voltamos ao mundo 
espiritual.
O tempo passava e eu no sentia. S no trocar o lado da ampulheta percebia o quanto era rpido. Mergulhei em estudos e at j era palestrante. Tive a opo de no 
reencarnar. Estava completamente integrado quele mundo. Era quase feliz. Meu amor por Vida estava adormecido. Guardado em uma caixinha de sentimentos que, mesmo 
s em esprito, ainda conservamos. Continuei minhas cavalgadas, nunca mais encontrei Rosa.
Ento, em um dia de claridade mil, estava eu sentado sob a rvore absorto, como era de costume. Escutei um cavalgar. Meu corao disparou. Corao? Pode algum pensar 
que no se tem mais esse rgo, mas as batidas descompassadas continuavam como se dele viessem. Levantei-me e corri. Corri como o vento e vi quem estava chegando. 
Uma moa de olhos muito azuis e cabelos esvoaando ao vento.
- Vida! Minha eterna e linda Vida! - Ela desceu do cavalo e me abraou fortemente.
- Minha misso foi cumprida - disse ela - mas, como da outra vez, uma febre me trouxe para voc.
- Alice deve estar triste. Minha felicidade  a tristeza de minha famlia.
- No  desse jeito, Daniel! Quem foram meus pais, antes de mim, desencarnaram. Viveram uma vida feliz. Todos os sonhos realizados. Rosa continuou a misso dos pais. 
Viveu para criar os filhos do destino. J se faz um tempo do desencarne, voc no sabia. Eu estava distante, tinha de me desligar de Rosa e continuar sendo a sua 
Vida. Graas aos cus, me foi permitido e hoje obtive a permisso para cavalgar. Tinha certeza de que o encontraria.
Ento, depois de tudo assentado, fomos cavalgar pelas pradarias. O dia estava lindo! O vento assobiava, as rvores soltavam folhas, como se saudassem a nossa passagem.
Conto minha histria enquanto espero por ela. Vida continua a cuidar das criancinhas. Um dia, quem sabe, reencarnaremos e viveremos na Terra a continuao desse
amor espiritual, passando para o terreno. Enquanto isso no acontece, fico a esper-la para juntos cavalgarmos. No temos pressa. Temos todo o tempo da eternidade.

Fim.
